Inteligência Artificial e interseccionalidade na Cibercultura
potencialidades para o Ensino de Estatística
Resumo
Esta pesquisa teve como objetivo fomentar um ensino de Estatística crítico e reflexivo, utilizando
como contexto as potencialidades e os riscos associados à IA nas aulas de matemática a partir de
perspectivas interseccionais. Inserida no campo da Educação Matemática Crítica, a proposta
busca transformar a sala de aula em um espaço de análise das estruturas sociais que perpetuam
desigualdades.
O trabalho justifica-se pela necessidade de práticas educativas que desenvolvam uma
compreensão crítica sobre o uso da tecnologia em uma era digital marcada por discursos de ódio
e preconceitos amplificados por algoritmos. Alinhada às diretrizes da Base Nacional Comum
Curricular (BNCC), a iniciativa visa formar sujeitos capazes de intervir na realidade de forma
ética, valorizando a diversidade, os direitos humanos e a construção de uma sociedade justa e
democrática.
As bases teóricas da reflexão e análise conjunta incluem autores como Moreira & Candau
(2007), que discutem o currículo como construção de identidades e destacam o currículo oculto;
Freire (1975), que propõe uma pedagogia libertadora centrada na consciência crítica; Giroux &
Simon (2011), que abordam a pedagogia crítica como valorização das diferenças e construção
coletiva; Skovsmose et al. (2016), que defendem a Educação Matemática Crítica como
promotora de justiça social; e Akotirene (2019), que apresenta a interseccionalidade como um
instrumento teórico e metodológico que possibilita o entendimento sobre como o racismo, o
capitalismo e o sistema cisheteropatriarcal estão interligados e atuam juntos na produção das
desigualdades sociais.
A pesquisa adota a abordagem metodológica da pesquisa-formação multirreferencial, situada na
prática docente na Cibercultura (Santos, 2014). A investigação foi realizada por meio da
elaboração e vivência de uma Sequência Didática em uma turma do Ensino Médio.
Durante a experiência, os estudantes analisaram postagens e notícias relacionadas ao futebol,
discutindo temas como racismo, intolerância religiosa, machismo, lgbtfobia e xenofobia. A
análise revelou tanto avanços na conscientização quanto resistências baseadas em preconceitos
internalizados e crenças religiosas. A utilização da IA como recurso pedagógico permitiu
explorar suas potencialidades e limitações, evidenciando erros em gráficos gerados por
aplicativos como Microsoft Copilot e ChatGPT, e promovendo reflexões sobre os vieses
algorítmicos.
O debate final, mediado pelo vídeo ―Como os algoritmos espalham racismo e desigualdade de
gênero‖, destacou como os sistemas algorítmicos podem reproduzir preconceitos estruturais,
afetando decisões cotidianas e reforçando padrões discriminatórios. Os estudantes demonstraram
compreensão crítica ao reconhecerem que os dados utilizados pela IA refletem comportamentos
humanos e contextos culturais.
Conclui-se que a articulação entre Estatística, IA e interseccionalidade contribui para uma
educação comprometida com os direitos humanos, preparando os estudantes para interpretar
criticamente o mundo e intervir de forma ética, consciente e inclusiva. A proposta reafirma o
papel da Educação Matemática Crítica como promotora de justiça social e cidadania, evidenciando a relevância de práticas pedagógicas que dialoguem com as complexidades da
cultura contemporânea.