O influenciador ciborgue: plataformização, performatividade algorítmica e agência híbrida na economia da atenção

Autores

  • Thiago de Assumpção Fernandes Barbosa Universidade Federal da Bahia

Palavras-chave:

Influenciador Ciborgue, plataformização, performatividade algorítmica, trabalho digital, neomaterialismo

Resumo

As transformações da cultura digital reconfiguram a produção de conteúdo e as condições de trabalho na economia da atenção. Esta pesquisa emprega o conceito de influenciador ciborgue (Lemos, 2025) para analisar a influência digital como um fenômeno sociotécnico, marcado pela coautoria algorítmica entre humanos e sistemas automatizados. Diferente de abordagens que isolam a criatividade individual ou a determinação tecnológica, o estudo argumenta que a subjetividade dos criadores de conteúdo se constitui na intra-ação (Barad, 2016) contínua com as materialidades digitais das plataformas. Esse processo evidencia novas formas de agência híbrida no capitalismo algorítmico.

Nos últimos anos, o Brasil consolidou-se como um dos principais mercados para influenciadores digitais no mundo. Uma pesquisa da Nielsen (Castro, 2024) indica que o país possui mais de 500 mil influenciadores com mais de 100 mil seguidores. Além disso, 44,3% dos usuários de redes sociais os acompanham, fazendo do Brasil o segundo país com maior engajamento global. No Instagram, são mais de 10,5 milhões de influenciadores com ao menos mil seguidores. Apesar desse alcance, a monetização revela assimetrias: a maioria recebe entre R$ 500 e R$ 2.000 mensais, enquanto uma minoria consegue transformar a produção de conteúdo em sustento estável (Pio, 2024). Essa precarização do trabalho não decorre apenas de dinâmicas de mercado, mas também de mecanismos algorítmicos que modulam alcance e monetização, configurando a plataformização da economia da atenção. Para obter engajamento, os criadores ajustam sua produção às regras e affordances das plataformas, um processo que revela como a subjetividade emerge da intra-ação entre agências humanas e não-humanas.

O trabalho aprofunda o conceito de influenciador ciborgue, uma figura híbrida que opera na lógica algorítmica e na tensão entre adaptação e resistência. Para isso, mobilizamos a Teoria Ator-Rede (Latour, 2012), o neomaterialismo (Coole & Frost, 2010; Barad, 2006; Lemos, 2020) e o Manifesto Ciborgue (Haraway, 1991), compreendendo a plataformização da influência como um regime de coautoria algorítmica. Buscamos responder: como a relação entre produtores e infraestruturas algorítmicas pode ser compreendida pelo conceito de influenciador ciborgue e quais suas implicações para o trabalho digital, a subjetividade e a resistência?

O objetivo é consolidar o influenciador ciborgue como ferramenta teórica para entender a agência híbrida dos produtores na plataformização da economia da atenção. Analisamos o impacto dos algoritmos, métricas e affordances na subjetividade digital, evidenciando a coautoria algorítmica da performance. Exploramos as tensões entre adaptação e resistência, investigando como produtores testam, hackeiam e subvertem os limites das plataformas através de gambiarras digitais (Messias, 2020). Problematizamos as implicações políticas e sociais desse processo, considerando a precarização, a governança digital e a subjetividade imersa nas infraestruturas de controle algorítmico.

A pesquisa se baseia em uma revisão crítica da literatura, abordando plataformização (Van Dijck et al., 2018), performatividade algorítmica (Lemos, 2020b) e trabalho digital (Grohmann, 2020; Duffy, 2017). O conceito é analisado a partir da articulação de três referenciais: A Teoria Ator-Rede (TAR) permite entender plataformas como infraestruturas que regulam a circulação de conteúdo por algoritmos, métricas e interfaces; O neomaterialismo, com a noção de intra-ação de Barad, propõe que agentes emergem de suas relações; e, o Manifesto Ciborgue de Haraway oferece uma ferramenta política para novas formas de subjetividade e resistência nas estruturas tecnológicas.

Investigamos como os produtores ajustam a autoapresentação para se alinhar a critérios algorítmicos, processo chamado de performatividade algorítmica. Exemplos incluem estudos sobre o TikTok e seu Programa de Recompensas do Criador[1], práticas como hasbaiting (Santos, 2022) e gambiarras digitais, e o uso de filtros faciais e estéticas de POV (point of view) que ciborguizam o corpo por meio de próteses digitais. O influenciador ciborgue emerge como um corpo digital conformado por extensões técnicas, onde a relação entre CapCut, TikTok e o produtor evidencia a adaptação ao formato e tempo ideais de vídeo, configurando o que nomeamos biopedagogia algorítmica.

A análise revela que os produtores operam num regime instável, onde a visibilidade e a remuneração dependem de infraestruturas algorítmicas opacas e dinâmicas imprevisíveis. A visibilidade emerge da coautoria algorítmica (Beer, 2016), na qual sistemas automatizados participam da configuração e circulação do conteúdo. Essa dinâmica produz a internalização de regras invisíveis e exige adaptação constante às métricas para evitar penalizações como o shadowban[2]. Consideramos as contribuições de Noble (2018) sobre como algoritmos perpetuam desigualdades, e a governança por desmonetização de Caplan e Gillespie (2020), que afeta criadores de conteúdo crítico. A opacidade das plataformas força os produtores a se tornarem analistas permanentes de métricas. Para evitar restrições, desenvolvem práticas de autocensura: supressão de palavras, pixelização de imagens e evitação de direitos autorais. A performatividade algorítmica se materializa no uso estratégico de hashtags e táticas para burlar restrições.

Inspirados no Manifesto Ciborgue de Haraway, interpretamos essas estratégias não como busca de autenticidade perdida, mas como reconfiguração tática dentro do sistema, explorando brechas e testando novos formatos com "parcialidade, ironia e perversidade" (Haraway, 1991, p. 39). Essas práticas compõem a fofoca algorítmica" (Bishop, 2019), o saber informal sobre o funcionamento dos algoritmos. A investigação demonstra que a influência online é inseparável das infraestruturas que a sustentam, exigindo modelos alternativos de governança e remuneração. O conceito de influenciador ciborgue evidencia a ciborguização da influência como trabalho precário, onde a identidade dos criadores é modulada para ser compreensível aos sistemas de recomendação. Isso transforma a cultura da influência, convertendo a originalidade em um processo mediado por estruturas digitais.

O influenciador ciborgue surge como ferramenta promissora para analisar a produção de conteúdo como negociação com sistemas algorítmicos opacos. Pesquisas futuras podem comparar plataformas e explorar modelos alternativos, contribuindo para formas mais justas de sustentabilidade na economia da influência. O conceito oferece uma ferramenta para compreender e criticar as condições de trabalho e subjetividade no capitalismo de plataforma, de dados e algorítmico.

 

[1] Ver: https://support.tiktok.com/pt_BR/business-and-creator/creator-rewards-program

[2] Restrição algorítmica que diminui a visibilidade do conteúdo sem notificar o criador, fazendo com que os vídeos não sejam recomendados na aba "For You" e prejudicando engajamento e monetização

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Publicado

14-04-2026