Chegando ao grau zero dos memes
Um estudo de caso no Brasil
Resumo
Este trabalho analisa os memes de internet como dispositivos ideológicos centrais da cultura digital contemporânea, propondo o conceito de grau zero dos memes como ferramenta teórica. Longe de manifestações efêmeras de humor, os memes são entendidos como formas condensadas de subjetividade e discurso que operam de modo cínico e fetichista, legitimando práticas racistas, misóginas, LGBTQ+fóbicas e autoritárias sob o disfarce da ironia. O trabalho articula três eixos: (i) a ideologia como estrutura inconsciente, em diálogo com Žižek (2008, 2009, 2010) e Zupančič, (2024) marcada pelo desmentido fetichista (Freud, 1925; Mannoni, 1969); (ii) o trabalho do meme (Knapp, 2021a, 2021b), aproximado do trabalho do sonho (Freud, 1900), que condensa afetos e ansiedades em formas visuais; e (iii) o pensamento-meme (Monahan e Secaf, 2017), definido como forma de pensamento coletivo imagético que atua por sincronicidade e vulnerabilidade afetiva. A análise empírica contempla dois casos: memes anti-veg*nistas no Instagram, que mobilizam o estereótipo do soyboy para desqualificar identidades e reforçar discursos homofóbicos (Costa, 2025a); e performances simbólicas em manifestações bolsonaristas, em que bandeiras e camisas funcionam como memes encarnados, legitimando pautas extremistas (Costa, 2025b). Conclui-se que os memes devem ser compreendidos como artefatos estéticos, afetivos e políticos que organizam imaginários, deslocam os limites do aceitável no debate público e consolidam formas de pertencimento autoritário. O conceito de grau zero dos memes contribui, assim, para pensar a ideologia em sua forma mais contemporânea: performativa, cínica, fetichista e imagética.