Literatura digital e desvios à colonialidade de poder: análise de obras do repositório Jangada Virtual

Autores

  • Ana Carolina Sampaio Coelho Unirio

Palavras-chave:

literatura digital, colonialidade de poder, colonialismo de dados, repositório, jangada virtual

Resumo

O presente trabalho apresenta uma série de considerações acerca do Projeto de Cultura “Jangada Virtual – escritas moventes”, repositório de criações autorais de estudantes de Letras da UNIRIO, produzidas durante a disciplina de Literatura e Cultura Digital – Oficina. Busca-se investigar de que modo a literatura digital, criada no contexto universitário, aliada à leitura crítica e discussão de obras de autores do campo da sociologia e tecnopolítica, reflete e também refrata conceitos como colonialidade de poder (Qijano,2005), colonialismo de dados (Silveira,2021), colonialismo digital (Faustino ; Lippold, 2023) e imagina outros futuros possíveis para a internet, para além do domínio exploratório das big-techs. Para a realização desta investigação, também é mobilizada uma revisão teórica acerca das especificidades da criação literária no encontro com a digitalidade.

A literatura digital é composta por obras criadas a partir dos contextos e especificidades oferecidos por um computador (Hayles, 2009), como multimídia e hipertexto, o que necessariamente implica em alterações e redefinições da narrativa, autoria e leitura, por exemplo. Para Katherine Hayles, é necessário situarmos a literatura digital como parte da tradição literária e olhar para essa estética surgida no contexto digital de modo que consigamos perceber suas particularidades e especificidades para além das referências que carregamos moldadas na cultura impressa.

As proposições de criação e invenção com a cultura digital, editadas e armazenadas no repositório Jangada Virtual, caminha em direção ao pensamento de Hayles, mas também num diálogo com pesquisadoras do sul global. Rejane Rocha (2025) atenta para o fato das obras literárias, criadas no contexto das plataformas e redes sociais, conhecida como literatura digital de “terceira geração” (Flores, 2021) produzida “com” e “entre” as big techs estarem inevitavelmente amalgamadas à lógica algorítimica, que conformam e norteiam os dispositivos digitais. Carolina Gainza (2018) afirma que as obras literárias digitais manifestam como o encontro com as redes afeta, altera e transforma a literatura. Busca-se identificar como essas dinâmicas suscitadas pelas especificidades do computado e do contexto de criação literária, ou seja, a dinâmica das big techs, aparecem nas obras analisadas.

Como as obras literárias digitais, publicadas no repositório Jangada Virtual, visibilizam as estruturas de poder e controle estabelecidas pelas “big techs”? Esse é o problema de conhecimento que orienta a pesquisa, finalizada em 2025 e vinculada ao projeto de pesquisa “Comunidades companheiras, bordas indisciplinadas: entre redes, tecnologias e aprendizagens”, cadastrada junto ao departamento de Letras da Unirio. A pesquisa investiga os modos como a colonialidade de poder aparecem num corpus delimitado de narrativas digitais. Atualmente, o repositório Jangada Virtual abriga cerca de 160 narrativas criadas ao longo dos últimos 5 anos e reúne obras em distintos gêneros digitais, tais como narrativas hipertextuais, vídeos em stopmotion e poemas animados.

Para essa investigação, realizou-se uma análise de conteúdo em 4 animações, nomeadamente: “Uma história sobre cookies” (2023), de Ana Carolina Logello, “Crakeado Pdffree” (2022), de Fernando Magalhães e Endrew Furtado, “Prisioneiros da Rede” (2023), de Roberto Serra Filho e Tatiana Teitelroit e “Sem fio” (2022), de Bruna Carolina Carvalho. De modos distintos, essas animações tencionam o discurso das big techs e diferem uma dura crítica à lógica algoritimica, da plataformização e dataficação do digital.

Monitoramento, vigilância, “roubo” de dados, vício e adição às redes sociais são temas bastante presentes. Como na descrição da obra “Sem Fio” (2022), quando a autora aponta: “sem esquecer o poder devorador dos BigFive, das lógicas de colonização e mercado que regem esse território, assim como tantos outros. Apreender o sensível para além da retina pode ser uma abertura para velejarmos com mais alegria nesse infomar?”.A pergunta de Bruna Carolina parece condensar as questões levantadas por esse recorte mínimo de 4 animações: quais caminhos possível para além da colonização da vida ? Quais os possíveis desvios e furo que podem ser acionados para imaginarmos outro futuro possível no digital?

Para Anibal Quijano (2005), a colonialidade é um dos principais elementos do poder capitalista. Desse modo, a expansão da modernidade e da sua racionalidade se mantém através da subordinação dos saberes e modos de vida dos países periféricos ao capital. Em uma sociedade excessivamente dataficada e plataformizada, as relações de poder se dão através da coleta e usos dos dados, ampliando e atualizando estruturas violentas que já estão estabelecidas, mas que ganha novos vieses na dimensão digital, como por exemplo os modos como o racismo algoritmo se desenvolve exponencialmente com a difusão de Inteligência Artificial generativa.

Desse modo, essa investigação transita nas interseções entre os campos da tecnopolítica, literatura, educação e tecnologia. A sua relevância também se dá pelo seu caráter essencialmente interdisciplinar, ao propor um pensamento acerca do ensino da literatura digital com política e o pensamento crítico acerca dos usos da tecnologia, como já questionava Paulo Freire (2001), ainda na década de 80: “a máquina está a favor de quem”? e reiterar que tratava-se de uma pergunta política, e portanto devia ser respondida como tal.

É de fundamental importância pensar o encontro da criação literária com a digitalidade. A relevância científica desta investigação também pode ser percebida na problematização das formas hegemônicas de pensar a tecnologia, ao buscar compreender como as diferentes cosmologias do Sul Global podem articular relações específicas com a técnica, ao desestabilizar a ideia de uma tecnologia universal ou neutra. A pesquisa contribui ainda para estudos do campo da literatura digital, criação literária e educação, num momento em que observamos uma crescente inserção das tecnologias digitais na mediação dos processos de ensino-aprendizagem e o estabelecimento de uma intensa relação com os tempos e processos das máquinas.

Tecnologia é linguagem e, como tal, é um campo de disputas simbólicas que reflete as lutas de poder. Em Informática do Oprimido (2025), o historiador e antropólogo Rodrigo Ochigami pontua a importância de ressaltarmos a dimensão política do algoritimo. Ele afirma que as formações de profissionais de tecnologias, seja no Sul ou Norte Global, geralmente tendem a separar o “como fazer” do que “por que fazer”, oferecendo uma formação tecnocrata e sem consciência do impacto social e político das ferramentas desenvolvidas, como numa espécie de linha de montagem tecnológica. “Jangada Virtual”, repositório que armazena as narrativas digitais analisadas nessa investigação, busca, a partir do ensino da cultura digital, contribuir para o desmonte de um ensino que comunga com a manutenção dessa “invisibilidade” acerca dos poderes que a engrenagem das big techs e o colonialismo de dados fomentam.

Busca-se fomentar uma educação e manutenção de um espaço de criação literário que suscitem a compreensão do papel da programação no sistema capitalista. A programação pode ser ensinada como um modo de “criação de mundos”, e como tal, podem estar mais alinhados à lógica neoliberal, com o uso exclusivo de softwares proprietários, mas também podem facilitar a criação coletiva de softwares a partir de uma comunidade engajada e genuinamente interessada na circulação dos avanços e descobertas no campo, como comunidades de criação de software livres.

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Publicado

14-04-2026