Cotidiano e imaginário em disputa
midiatização, colonialidade e alternativas tecnopolíticas
Palavras-chave:
cotidiano, midiatização, imaginário, colonialidade, tecnodiversidadeResumo
O presente trabalho tem como tema a relação entre cotidiano, mídia e imaginário, analisada à luz das transformações comunicacionais contemporâneas e da crescente centralidade dos dispositivos digitais na vida social. O objeto de estudo é a disputa simbólica pelo imaginário no contexto da midiatização, marcada tanto pela colonização algorítmica das práticas ordinárias pelas Big Techs quanto pelas possibilidades de resistência, apropriação e criação de alternativas tecnopolíticas. A investigação parte da hipótese de que o cotidiano, longe de ser um espaço banal ou secundário, constitui um campo privilegiado para compreender as tensões entre reprodução social e emancipação, estratégias hegemônicas e táticas de resistência, colonização digital e emergência de novas cosmotécnicas.
O objetivo principal é examinar o cotidiano como lugar de mediações e disputas, destacando como a midiatização reorganiza sensibilidades, temporalidades e sociabilidades, ao mesmo tempo em que o imaginário se torna campo central de captura e exploração pelas corporações digitais. Busca-se mostrar que a vida cotidiana, atravessada por dispositivos técnicos e ecologias afetivas, permanece um espaço contraditório: de um lado, alvo da colonização midiática e algorítmica; de outro, lócus de criação de sentidos alternativos, práticas emancipatórias e horizontes de tecnodiversidade. A relevância do estudo reside na necessidade de compreender criticamente as dinâmicas contemporâneas que afetam a experiência ordinária, em especial diante do avanço da “superindústria do imaginário” (Bucci) e da constituição de “imaginários algorítmicos” (Morales & Natansohn), e de apontar possibilidades de abertura para outras formas de viver e imaginar coletivamente.
A base teórica para as reflexões no presente trabalho articula diferentes tradições. Primeiramente, retoma-se a perspectiva dialética de Agnes Heller, que compreende a vida cotidiana como o centro ontológico da existência social, espaço em que se entrelaçam alienação e possibilidade emancipatória. Em diálogo com Georg Lukács, a autora mostra que a cotidianidade não é mera repetição, mas lugar em que particularidade e genericidade se confrontam e se atualizam, abrindo margem para a condução consciente da vida (Lebensführung). Michel de Certeau amplia essa discussão ao propor, em A invenção do cotidiano, uma atenção às práticas ordinárias de apropriação, onde táticas criativas permitem aos sujeitos subverter e ressignificar estratégias dominantes. Essas contribuições permitem situar o cotidiano não como esfera passiva, mas como lugar de produção de sentidos, práticas e resistências.
Em seguida, a análise se desloca para a mídia como mediadora constitutiva da vida social. Muniz Sodré, em As estratégias sensíveis, propõe compreender a comunicação contemporânea a partir do conceito de bios midiático, uma ecologia afetiva em que a experiência cotidiana é reorganizada pela indistinção entre real e virtual. Nesse registro, a comunicação não é apenas transmissão de informação, mas condição existencial que modula afetos, corpos e percepções, estruturando o viver ordinário. Jesús Martín-Barbero, por sua vez, ao deslocar o foco dos meios para as mediações, mostra que a inteligibilidade do massivo só se compreende no entrelaçamento entre temporalidades sociais, matrizes culturais e dispositivos que configuram a recepção. Assim, a mídia aparece como dimensão constitutiva do cotidiano, articulando hegemonia e resistência, colonização e reapropriação cultural. Essa perspectiva aproxima-se de Guy Debord, para quem o espetáculo não é um conjunto de imagens, mas uma relação social mediada por imagens, revelando a profundidade com que a midiatização penetra na vida cotidiana.
A partir dessa base, o artigo avança para a análise da colonização digital do imaginário. Eugênio Bucci argumenta que vivemos sob a lógica de uma superindústria do imaginário, em que imagens, narrativas e afetos são sistematicamente transformados em mercadorias. Essa colonização, intensificada pelas plataformas digitais, captura a vida ordinária e converte práticas cotidianas em dados, performances e fluxos de consumo. Morales e Natansohn, por sua vez, demonstram como algoritmos e softwares se consolidam como significações imaginárias sociais centrais no capitalismo contemporâneo, instaurando “imaginários algorítmicos” que naturalizam a neutralidade técnica e reforçam a mercantilização da vida. Essa análise reforça a necessidade de compreender os algoritmos não apenas como instrumentos, mas como dispositivos de poder que configuram percepções, orientam condutas e colonizam o imaginário coletivo.
Nesse ponto, torna-se decisivo dialogar com a crítica decolonial. Aníbal Quijano, ao formular a noção de colonialidade do poder, mostra como a modernidade produziu hierarquias de saber, ser e poder que ainda estruturam o mundo contemporâneo. Walter Mignolo, ao destacar a colonialidade do saber, argumenta que o imaginário moderno/colonial impôs uma matriz eurocêntrica de racionalidade que marginalizou epistemologias outras, produzindo uma geopolítica do conhecimento. Quando aproximadas da crítica à colonização digital do imaginário, essas reflexões permitem reconhecer que o poder algorítmico das Big Techs opera como nova forma de colonialidade: captura dados, modula afetos e reconfigura o cotidiano sob lógicas de controle e mercantilização, ampliando assim a colonialidade no terreno simbólico e tecnológico.
A contribuição de Yuk Hui, sobretudo em sua formulação da noção de cosmotécnica, abre caminhos para pensar alternativas. Para o autor, cada cultura articula uma concepção própria de cosmos e de técnica, de modo que não existe uma tecnologia universal, mas múltiplas formas de integrar técnica e mundo. A partir disso, Hui propõe a ideia de tecnodiversidade, entendida como condição para a construção de futuros múltiplos capazes de escapar à homogeneização tecnológica promovida pelo Ocidente e, atualmente, pelas Big Techs. Essa noção é fundamental para repensar o imaginário digital: se o colonialismo algorítmico tende a impor uma racionalidade única, a tecnodiversidade afirma a possibilidade de outros imaginários, outras mediações e outras práticas cotidianas de habitar a tecnologia. Assim, a reflexão de Hui conecta-se às análises de Heller e Certeau, ao evidenciar que a cotidianidade pode ser espaço não apenas de captura, mas de criação, invenção e pluralização.
A pertinência deste trabalho está em situar a disputa pelo imaginário como disputa pelo cotidiano na era da midiatização digital. Em um contexto em que a vida ordinária é cada vez mais permeada por algoritmos e dispositivos midiáticos, compreender as tensões entre colonização e resistência, entre ecologias afetivas globais e mediações culturais locais, torna-se essencial. Ao articular a tradição dialética (Heller), as práticas táticas (Certeau), o bios midiático (Sodré), as mediações (Martín-Barbero), a crítica à superindústria do imaginário (Bucci), a colonialidade (Quijano e Mignolo) e a cosmotécnica (Hui), este estudo oferece uma abordagem integrada para analisar a complexidade contemporânea. Mais do que denunciar a colonização digital, busca-se evidenciar que persistem brechas para resistências, reapropriações e invenções de novos imaginários, capazes de pluralizar o horizonte tecnopolítico.
Assim, o trabalho se insere no debate acadêmico atual sobre comunicação, cotidiano e colonialidade, propondo uma leitura crítica das transformações tecnológicas que afetam a vida comum. Ao enfatizar que o cotidiano é simultaneamente espaço de captura e de criação, o artigo defende a necessidade de repensar a tecnologia a partir da pluralidade cultural e epistemológica, reconhecendo a importância da tecnodiversidade e da construção coletiva de alternativas emancipatórias. Trata-se, em última instância, de afirmar que o direito ao imaginário é inseparável do direito ao cotidiano, e que disputar esse campo significa disputar a própria possibilidade de imaginar futuros outros, não reduzidos às lógicas mercantis e coloniais que hoje estruturam a superindústria do imaginário digital.