Amou como se fosse máquina

três execuções de um mesmo código

Autores

  • Alessandra Olinda UFBA/Doutoranda

Palavras-chave:

Vulnerabilidade digital, Necropolítica algorítmica, Estruturas de sentimento

Resumo

Abertura: boas vindas ao WannaCry

maio de 2017. primeira vez que muitos ouvem falar sobre ransomware. enquanto isso, o wannacry atravessava 150 países numa sexta-feira qualquer, propagando-se através de uma vulnerabilidade que habitava, silenciosa, os interstícios dos sistemas complexos computacionais. em seu nome, carga poética própria com o querer chorar, um lamento digital que se espalha como estrutura de sentimento ainda sem vocabulário adequado. em nossa lente, a arquitetura operacional do ransomware evoca a construção formal que chico buarque elaborou em 1971: três blocos que mantêm o esqueleto sintático enquanto permutam elementos terminais, cada repetição aprofundando o abismo entre o mecânico e o humano. mas aqui, a repetição algorítmica revela algo outro. não a mecanização do humano, contudo a descoberta de que talvez nunca tenhamos sido outra coisa. proponho uma leitura que reconheça código e afeto como mutuamente producentes. isto porque, com karen barad (2007), entendemos que não há ransomware pré-existente que encontra sistemas vulneráveis. existem intra-ações que produzem simultaneamente ameaça e vulnerabilidade, segurança e colapso. as paisagens afetivas que emergem de eventos tipo “críticos da cibersegurança” revelam, como sugere gomes e antunes (2019), transformações culturais que pulsam antes de encontrar nome, forças coletivas que excedem nossas gramáticas.

Primeira iteração: arquiteturas da intimidade

wannacry trabalha por entre portas invisíveis que permitem computadores conversarem entre si, através de canais de comunicação que operam nos bastidores, compartilhando arquivos e trocando mensagens que nunca vemos. mas observem a intimidade perturbadora: não invade, habita. conhece cada pequeno programa interno do sistema operacional windows como quem conhece os cômodos da própria casa, cada processo automático como rotina doméstica. foucault (1981) nos preparou para pensar essas proximidades inclassificáveis. em suas reflexões sobre amizade como modo de vida, encontramos ferramentas para entender relações que escapam ao léxico da guerra. wannacry estabelece com o windows uma forma de intimidade que não é parasitária nem simbiótica, mas ocupa esse espaço do "entre". um ransomware que abraça cada arquivo com criptografia que sufoca, amor que transforma. quando enfermeiras do sistema de saúde do reino unido chegaram para seu turno e encontraram telas vermelhas onde esperavam prontuários, testemunharam mais que erro técnico ou falha humana. ali, naquele momento suspenso entre o clique e a disrupção, emergiu a consciência súbita de nossa condição: somos assemblages precárias (luhmann, 2001) onde código e carne se entrelaçam sem possibilidade de separação limpa. nos hospitais, espaços onde a mediação técnica sustenta a própria possibilidade da vida, transformamo-nos em monumentos temporários à nossa própria fragilidade constitutiva. máquina sobrenatural (viveiros de castro, 2024) que não precisa de supervisão já que carrega sua disciplina incorporada em código. deleuze (2010) sussurraria: o ransomware é o operário perfeito das sociedades de controle. trabalha em silêncio até encontrar o que procura: sistemas abandonados pela história da atualização, dispositivos que o capital esqueceu de proteger. tijolo por tijolo num desenho lógico, mas ao contrário. vemos com wannacry a desconstrução meticulosa de toda arquitetura (não apenas a digital) que acreditávamos sólida.

Segunda iteração: contágio e perspectiva

a propagação desenha cartografias que excedem geografia física. são paulo acordando com a mesma ressaca digital de nova delhi. sistemas operacionais exibem sintomas estranhamente orgânicos: processos corrompidos como órgãos em falência, memória fragmentada como consciência dissociada, a gradual deterioração das funções executivas. encontramos em viveiros de castro (2024) uma conexão inesperada: todo ponto de vista é um mundo completo. da perspectiva do ransomware, não há destruição, mas reorganização entrópica (fouad, 2021) e criptografia como forma superior de ordem. do ponto de vista dos sistemas, cada barreira de proteção digital é violentamente aniquilada. mas quem arbitra entre perspectivas quando o real está em disputa? podemos radicalizar com barad (2007) e dizer que a vulnerabilidade digital não é propriedade dos sistemas computacionais e nem capacidade do malware. é fenômeno que emerge na intra-ação, dissolvendo a possibilidade de agentes pré-constituídos. cada instância de infecção reconfigura o aparato de observação e o que conta como seguro, como vulnerável, como operacional. o wannacry e outras vulnerabilidades emergem mutuamente no momento do encontro, do improviso que se inventa durante a performance. as estruturas de sentimento cristalizam neste movimento. não é apenas medo de perder dados, é também vertigem existencial ao descobrir que toda memória agora existe sob condição de resgate. williams (apud gomes, antunes, 2019) reconheceria que algo pulsa no social antes de encontrar forma. correntes de whatsapp circulam soluções mágicas, tentativas desesperadas de restaurar agência num mundo onde ela parece ter migrado definitivamente para os algoritmos. a paisagem afetiva se (trans)forma: paranoia ambiente, desconfiança como novo protocolo social.

Terceira iteração: necropolítica algorítmica

bangladesh, ucrânia, índia. a vulnerabilidade digital replica assimetrias coloniais com precisão. fanon (2022) ressurge nos escombros: os condenados da terra agora também habitam infraestruturas digitais abandonadas, computadores rodando versões antigas e desatualizadas de windows como marca da exclusão tecnopolítica. wannacry não escolhe vítimas; encontra os já escolhidos pela história. hospitais sem orçamento para licenças, universidades sobrevivendo com sistemas piratas, governos que administram a precariedade como política de estado. a mesma promessa de modernização que chegou como salvação retorna como maldição agora criptografada. mbembe (2020) completa o diagnóstico com a necropolítica algorítmica. A distribuição desigual de atualizações de segurança, de redundâncias, de equipes especializadas, ou seja, tudo converge para produzir zonas onde morte técnica se traduz rapidamente em morte biológica. o respirador que para, o exame que se perde, a insulina que não chega. o código não mata diretamente; produz condições diferenciais de sobrevivência, distribui desigualmente as chances de atravessar o colapso digital. na terceira execução, como na canção de chico, a inversão se revela: "amou daquela vez como se fosse máquina". descobrimos que sim, sempre fomos híbridos ou ciborgues (haraway, 2009). wannacry funcionou como aparato de revelação: sempre operamos como sistemas, como código executando rotinas automatizadas. o espelho oferece reflexo que é insuportável precisamente por sua transparência. quando marcus hutchins, o pesquisador e herói por acidente, encontra literalmente um interruptor de emergência para desligar o malware, a morte de wannacry parece menos resolução que suspensão temporária. um endereço web não registrado que o ransomware verificava antes de atacar tornou-se sua fraqueza. o código malicioso morreu na contramão, atropelando o tráfego de tal forma que ainda sentimos o tremor.

Fechamento: por uma cibersegurança sensível

wannacry interrompeu fluxos normalizados e, nessa interrupção, tornou visíveis as estruturas que preferíamos ignorar. como a construção poética de chico buarque, que através da repetição formal expõe a mecanização da vida sob o capital autoritário, o ransomware revela através de suas iterações a precariedade de nossas arquiteturas digitais. proponho pensarmos uma cibersegurança que reconheça a impossibilidade de separação entre técnico e afetivo, entre código e cultura. não se trata de antropomorfizar algoritmos nem de digitalizar afetos, mas de reconhecer que essas categorias emergem apenas no fenômeno. isso porque proteger infraestruturas digitais significa também proteger formas de vida. precisamos de barreiras de proteção digital, sim, mas também precisamos cartografar as vulnerabilidades afetivas que nos fazem clicar sem ler, ignorar alertas, naturalizar precariedades. a ambiguidade permanece: wannacry foi sintoma ou diagnóstico? ataque ou revelação? as três execuções do código sugerem, como na construção de chico onde o trabalhador pode ser qualquer um e todos nós, que o malware que paralisa hospitais e fábricas é tanto evento singular quanto condição permanente coletiva. vivemos na iminência do próximo colapso, amando como máquinas. mas talvez, na consciência dessa condição, habite a possibilidade de imaginar outras arquiteturas. talvez no reconhecimento de nossa vulnerabilidade constitutiva possamos construir, tijolo por tijolo, num desenho mágico, formas de cuidado digital que honrem tanto o código quanto a carne. talvez.

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Publicado

14-04-2026