Decolonizar futuros comunicacionais algorítmicos frente às big techs

do provável ao possível

Autores

  • Carlos Batista UNIP

Palavras-chave:

sociedade, midiático, globalização, sentidos, amanhã

Resumo

O termo BigTechs, cuja tradução livre remete a “gigantes tecnológicas”, pode ser entendido como grandes corporações do setor tecnológico (computacional e digital) que consolidaram seus domínios mercadológicos a partir do final do século XX (Morozov, 2018). A concentração de poder envolvendo igualmente a comunicação define o contexto deste ensaio e propõe discutir a problemática teorizada entre: probabilidades e possibilidades do decolonialismo digital algoritmizado, dando ênfase aos aspectos futuros. Complementa-se, como questionamento principal, o que pode se esperar do futuro comunicacional, isto é, como serão realizadas as interações no amanhã; digitalmente homogeneizadas por algoritmos ou estimuladas por sensos críticos? A justificativa ao longo deste desenvolvimento é justamente tentar propor alternativas a essas discussões e questões, não exatamente com o propósito de confrontar modelos considerados hegemônicos, mas esclarecer atributos decoloniais interacionais. Para isso, se utiliza como base teórica principal o pesquisador indiano Arjun Appadurai (2015) que versa sobre um futuro a ser construído entre dois aspectos principais, o das probabilidades (algoritmizadas); e o das possibilidades, inclusivas. Configura-se, desse modo, uma metodologia qualitativa (Minayo, 2014) envolvendo pesquisas bibliográficas comparativas dos últimos cinco anos, utilizando-se além do referencial teórico principal autores como Silveira (2021), Cristóvam e Sousa (2024) e Cortiz (2025). O objetivo principal é: discutir o futuro comunicacional entre campos éticos do possível ou do provável, sobre o plano de fundo algoritmizado das BigTechs. Como objetivo secundário, tem-se: analisar os reflexos comunicacionais dessas relações futuras. Ressaltando o processo de “dominação” algorítmica, financiado por essas empresas. Espera-se, ao final, desenvolver entendimentos sobre todos os conceitos, fundamentados em análises de abordagens e práticas exemplificadas revelando, ou não, formatos de dominações digitais para promoção de interesses ideológicos e monetários. Para Appadurai (2015, p. 254) o futuro é entendido como um fato cultural, quer dizer, a comunicação do amanhã não deve ser interpretada como algo que simplesmente tende a acontecer. Ao contrário, ele é desenvolvido por meio de crenças, imaginações, aspirações, antecipações e principalmente por ações que quando aplicadas ao recorte comunicacional de nossa pesquisa, são entendidas por ações interativas articuladas (Escobar, 2018). Para isso o teórico (2015, p. 246-250) as tipifica em três atributos, o primeiro pela imaginação. Segundo Appadurai (2015) o ato de imaginar é antes de mais nada uma questão social e política, ressignificada de diferentes formas, com a vantagem de sempre desenvolver alternativas. Em seguida tem-se o conceito da aspiração, onde o autor desenvolve o ideal coletivo para melhores situações de convívio, aspirando futuros sem desigualdades e dificuldades de sobrevivência, mas sim de bem-estar. Por último apresenta-se a antecipação. Na prática essa característica, quando desenvolvida, tende a prever ou mesmo controlar os fatos futuros justamente tentando antecipá-los no presente. Diante desses atributos o indiano propõe dois campos éticos para gerenciá-los e exemplificá-los, são eles das probabilidades e das possibilidades (Appadurai, 2015, p. 251-255). No primeiro impera a lógica do cálculo futuro controlado, das medições e análises de cenários cuidadosas e da aversão ao risco. Fatores em consonância a muitas práticas digitais (e comunicacionais) das BigTechs, através dos seus suportes algoritmizados (Silveira, 2021). A segunda, das possibilidades, preconiza questões opostas, envolvendo à criatividade, a imaginação social e a criticidade. Na prática, comunicar o futuro acarreta em um campo de disputa (Appadurai, 2015), pois quem pode controlar as interatividades midiáticas tem enorme vantagem sobre o controle do presente para o projeto do amanhã. Porém, em vista da tensão entre probabilidades algoritmizadas e possibilidades inclusivas, frente ao domínio das BigTechs e ao fascínio digital, é providencial que se construam espaços democráticos no futuro, entendidos por campos decoloniais comunicacionais. Antes, elucidamos o colonialismo de dados como um instrumento de dominação do capitalismo digital contemporâneo (Silveira, 2021). Países, em sua maioria do sul global, são dependentes de tecnologias e infraestruturas digitais promovidas por empresas situadas no norte, o vínculo acarreta além da exploração de recursos físicos e humanos também o controle e manipulação das comunicações (Silveira, 2021). O resultado é o agravamento de desigualdades históricas, antes sociais e agora digitais (Quijano, 2005). A contrapartida é o decolonialismo nacional promovendo o desenvolvimento de infraestruturas próprias e principalmente protegendo os interesses nacionais de leis, autonomia e transparências institucionais (Cristóvam e Sousa, 2024). Compreendemos que o ciclo se repete no sentido de que a colonialidade digital se torna uma nova forma de colonialidade do poder e do saber (Mignolo, 2017). Atualmente o controle informacional (e comunicacional) é exercido por infraestruturas e interfaces algoritmizadas com capacidades para intermediar relações sociais, promovendo filtros invisíveis e normas reguladoras pouco nítidas, adaptáveis aos seus interesses. Diante de todo o exposto, entende-se um presente narrativo algoritmizado tratado como dominante. Descolonizá-lo se torna somente uma possibilidade, pois envolve acima de tudo participação coletiva e senso de criticidade. A questão principal são seus efeitos, se discute a fragilidade social (e critica) de discursos nesses contextos, exemplificadas por plataformas digitais, que sob modelos de predições comportamentais de resultados lógicos, podem claramente determiná-los (Cortiz, 2025). Temos ainda como fator preocupante as fontes de dados que sustentam essas operações, a chamada big data (Morozov, 2018). Cortiz (2025, p.1) adiciona a questão comunicacional do compartilhamento, fundamental para esse sucesso, quando enumera o efeito rede, fenômeno que promove maior valor a um produto ou serviço, enquanto cada vez mais pessoas o utilizam. Estimulam-se convites à experimentá-lo sem a permissão de uma saída fácil e espontânea, traduzindo-se no conceito de jardins murados (Cortiz, 2025), entendidos como ecossistemas digitais privados, controlados e fechados por BigTechs para seus usuários. Praticar o decolonizar comunicacional se torna impraticável em vista do poder centralizador e altamente previsível do algoritmo (Cristóvam e Sousa, 2024). Exceto pelo senso crítico, com o estímulo ao letramento algorítmico (Silveira, 2021), na percepção que estamos diante de um colonialismo de dados promovidos por empresas de tecnologias com interesses comerciais e sociais. Sendo assim o estudo, mesmo em seu desenvolvimento inicial, conclui que o futuro comunicacional baseado em algorítmicos não é neutro e sim um campo de disputas onde se prevalece relações de poder consolidadas por BigTechs. Esse poder comunicacional se tornou tão relevante e abrangente que amplia a discussão do conceito decolonial, não apenas voltado às interações digitais e sim às interações sociais. A relação interacional é traduzida por empresas tecnológicas, com os seus recursos algoritmizados, agindo como emissores de mensagens com explícitos interesses e desejos. Os eixos éticos discursivos possíveis ou prováveis de Appadurai (2015) contribuem como peça-chave analítica na compreensão de tensões e possíveis consequências. É possível distinguir, dessa forma, padrões preditivos comunicacionais baseados em modelos estatísticos, orientados a resultados de eficiência e controle, quer dizer, o provável só é possível porque desenvolve e consegue se retroalimentar. Já a parte das possibilidades remete ao inverso, a prática comunicacional decolonial crítica desenvolvendo novas linguagens que objetivam romper lógicas de dependência comunicacional, focando, na pluriversalidade (Escobar, 2018) e em ambientes digitais interativos democráticos (Cortiz, 2025). O futuro digital comunicacional decolonial a ser explorado perpassa por esses últimos estados, tratando-o não como uma exceção e sim uma condição para sua existência futura.

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Publicado

14-04-2026