A TV 3.0 na contação de Histórias Pervasivas
Palavras-chave:
Comunicação, Narrativas, Histórias Pervasivas, IoT, ImersãoResumo
A evolução tecnológica permite que as pessoas fiquem constantemente conectadas à Internet, fazendo com que essa tecnologia torne-se cada vez mais transparente, processo que consiste na abstração do dispositivo a tal ponto que o usuário não enxergue mais a técnica, mas apenas o resultado dela (Clark, 2003). Quanto mais acostumados a determinada tecnologia, mais transparente ela nos parece, a ponto de se tornar extensão do próprio corpo (McLuhan, 1969). O uso intenso de smartphones pode ser exemplo disso, já que traz tanta informação quanto o usuário julga necessária.
Diferente de tempos analógicos, em que era possível projetar nossa voz ou nossa imagem, por meio de megafone ou mesmo transmissão de TV, atualmente podemos estar fisicamente em um ambiente, mas com um grau de imersão tal que faz com que a consciência seja projetada num ambiente digital (McLuhan, 1967), gerando um terceiro lugar, híbrido entre o físico e o digital, o qual chamamos phygital. Essa ideia prevê o homem como inteligência central de um sistema que se projeta no espaço, comandando à distância extensões que são capazes de otimizar tarefas e preservar intacto o corpo humano.
Com a evolução da sociedade, que caminha para uma vida permanentemente conectada, parece-nos que a ideia de ecologia das mídias (Scolari, 2017) torna-se insuficiente, uma vez que deixa de fora os objetos inteligentes, que são cada vez mais usados. A partir da ideia de que vivemos em uma sociedade conectada em tempo integral, da observação das mudanças nos processos de comunicação na atualidade e das possibilidades, por meio da Internet das Coisas – IoT (Santaella, 2013), de formar uma rede de objetos inteligentes conectados que funcione como ambiência para o desenvolvimento de novos formatos de narrativa, propomos, neste trabalho, um estudo sobre quais as potencialidades da TV 3.0 enquanto ferramenta narrativa em ambiência pervasiva.
Ao pensar a participação humana nos ambientes híbridos tecnológicos, Muniz Sodré (2002), propõe o conceito de bios midiático, que busca refletir sobre como a mídia deixou de ser um canal de transmissão para assumir um papel de maior importância na vida em sociedade. A expressão indica o crescente poder de influência da mídia, modificando o modo de viver, pensar, relacionar e compreender o mundo, além de destacar a questão do virtual.
O bios virtual é a prótese, não apenas uma maquinaria comunicacional que permite ao cidadão inteirar-se das coisas do mundo, e sim uma “atmosfera” magnética (um ethos feito de hábitos e afetos) onde, por um lado, “respira-se” o consumo programado pela socialização latente do mercado e da ordem tecnológica; por outro, “habita-se” um mundo de imponderabilidade, ubiquidade e interatividade. (Sodré, 2006, p. 189)Assim, muitas vezes, no lugar de um canal, a mídia pode ser o próprio ambiente em que as relações são construídas. Sob a mesma perspectiva, ficou reconhecida a máxima “o meio é a mensagem”, de McLuhan (1969, p. 21). Pensando em como a sociedade vem se adaptando nesses novos ambientes conectados, pesquisadores da universidade de Tóquio, Atsushi Deguchi et al. (2018) indicam como conceito de Sociedade 5.0 aquela que, por meio do alto grau de fusão entre o ciberespaço e o espaço físico, será capaz de equilibrar o avanço econômico com a resolução de problemas sociais, fornecendo bens e serviços que abordam de maneira detalhada múltiplas necessidades latentes, independentemente da localidade, idade, sexo ou idioma. (Deguchi et al., 2018, p. 18, tradução nossa)
Os autores acreditam que, na perspectiva da Sociedade 5.0, é necessária a reestruturação de dois tipos de relacionamento: entre a sociedade e a tecnologia e entre indivíduos, com a mediação da tecnologia. Assim, mais que a hibridização entre os meios, começa-se a perceber, mais ativamente, o elemento humano que se torna epicentro da ligação entre esses ambientes, não se tratando tanto de um ambiente híbrido, mas de uma forma de vida conectada.
Nesse sentido, Floridi (2015) relaciona os efeitos da implantação de Tecnologias de Informação e Comunicação (TICs) e em como a sociedade é afetada por eles, uma vez que modificam nossos relacionamentos tanto com nós mesmos, como com os outros e o mundo. O constante uso das TICs tem o efeito de deixar turvas as distinções entre humano, máquina e natureza, tornando o ambiente único, composto por esses três “elementos”. Esse estilo de vida hiperconectado é conceituado pelo autor como “onlife”. Como analogia, a definição pouco clara das bordas de cada ambiente pode ser comparada ao litoral. Mesmo que areia e mar sejam elementos muito distintos, é impossível determinar onde começa um e termina outro, devido ao movimento fluido das ondas, que avançam ou recuam.
Ainda que estejamos acostumados a essa transição fluida entre físico e digital, no ambiente online, diversos estímulos sensoriais são suprimidos. Ao pensar a fluidez com que o homem experiencia a vida onlife, parece-nos que as formas de narrativa não acompanham nem a vida onlife, nem o potencial tecnológico disponível na atualidade. Se, para o público, a questão da ambientação já é transparente, ou seja, já não se tem delimitação entre o que é físico e o que é digital, para as histórias contadas a esse mesmo público, a questão tecnológica ainda é uma barreira para que o espectador seja transportado para “lugar primorosamente simulado”, como proposto por Murray (2003, p. 102).
Na contramão da ideia de transportar o espectador para o ambiente digital, parece-nos fazer mais sentido, como no conceito de Floridi (2015), deixar turvas as fronteiras entre meios e ambientes, fazendo com que a narrativa possa atravessá-las com fluidez. Essa experiência narrativa permite que a história seja contextualizada de acordo com o local em que o espectador se encontra e acessada a partir dos objetos inteligentes que ele tenha à disposição (Almeida, 2021).
A proposta das histórias pervasivas é que essa sensação de imersão transborde a imaginação e concretize-se no ambiente físico. Para isso, utiliza-se objetos conectados por meio de Internet das Coisas (IoT), que teve uma das suas definições feita por Santaella (2021), como o espaço onde os objetos ganham capacidades de se interligarem a partir da conexão à Internet. Ao ver reverberar no ambiente físico aspectos propostos pela narrativa apresentada em um dispositivo digital, busca-se criar a atmosfera imersiva, que usamos anteriormente ao exemplificar a experiência de assistir a um show de música presencialmente.
Ao criar uma narrativa pervasiva, é preciso pensar em seu roteiro de maneira diferente dos roteiros tradicionais. Se, em uma produção transmídia, o universo da história é criado a partir de diferentes produtos, adaptados para diferentes meios, a história pervasiva abarca o universo na mesma experiência. Assim, dois interatores podem escolher meios e caminhos narrativos distintos e, ainda assim, terem acesso à mesma história. Assim, se uma pessoa tem um arsenal de dispositivos digitais e objetos inteligentes conectados para vivenciar a narrativa pervasiva e outra pessoa tem apenas um celular ou uma TV, ambas precisam ser capazes de completar a história, ainda que em graus diferentes de imersão, mas na completude do conteúdo e entendimento.
Ao inserir essa discussão no contexto contemporâneo das plataformas de comunicação e da Inteligência Artificial, buscamos também refletir sobre as implicações das tecnologias conectadas na configuração de novos modos de existência e de narrar. Se, por um lado, as grandes corporações tecnológicas consolidam sistemas cada vez mais fechados e orientados por lógicas algorítmicas, por outro, observa-se o surgimento de experiências que propõem o uso das tecnologias a partir de outras perspectivas. Nesse sentido, pensar a TV 3.0 enquanto ferramenta narrativa em ambiência pervasiva significa questionar a centralidade das Big Techs e propor outras formas de mediação, nas quais o humano retoma o papel de agente criador e sensível, capaz de reconfigurar as relações entre técnica, cultura e território.
Este trabalho propõe uma revisão bibliográfica que abarca as potencialidades da TV 3.0 não só como veículo de comunicação clássico, mas como a possibilidade de repensar os modos de consumo dessa mídia, articulando-a às novas formas de sociabilidade, aos ambientes pervasivos e às experiências narrativas que emergem em meio às transformações tecnológicas contemporâneas.
Referências
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