Tecnologias, mentalidades e literacias
o livro enquanto mídia primordial
Palavras-chave:
Mídias, Ecologia das Mídias, livro, literacia, ComunicaçãoResumo
A história da comunicação humana revela a profunda interdependência entre linguagens, meios e formação cultural. Desde as formas orais de transmissão até a consolidação da escrita e, posteriormente, a emergência dos meios impressos, audiovisuais e digitais, cada etapa transformou não apenas as práticas comunicativas, mas também os modos de pensar e organizar a vida em sociedade. A partir deste contexto, este artigo fundamenta-se no campo da Ecologia das Mídias, que considera os meios como agentes ativos na construção do conhecimento, das percepções e das práticas sociais (McLuhan, 1964; Innis, 1951; Ong, 1998; Carpenter, 1974).
Na perspectiva da Ecologia das Mídias, o foco não está apenas no conteúdo, mas nas características dos meios que o veiculam. Carpenter (1974, p. 223) sintetiza: “um meio não é simplesmente um envelope que transporta qualquer carta; ele próprio constitui uma parte importante dessa mensagem”. Assim, cada meio oferece uma visão distinta da realidade, sem que uma invalide a outra (Carpenter, 1974). Dessa forma, a preservação da cultura do livro é tão importante quanto o desenvolvimento da TV ou dos meios digitais.
Sendo assim, a perspectiva desta pesquisa é baseada em uma abordagem histórica que se justifica pela necessidade de compreender como cada tecnologia moldou e ainda molda práticas de leitura, escrita e circulação de informações, oferecendo uma base para reflexão dos efeitos culturais, cognitivos e educacionais das transformações midiáticas. Esse olhar permite não apenas reconhecer a influência das mídias na organização do conhecimento, mas também fornecer subsídios para políticas educacionais e práticas pedagógicas que promovam letramentos em contextos contemporâneos, marcados pela diversidade e pela convergência de mídias. Compreender historicamente essas transformações é essencial para identificar como as práticas comunicativas se articulam com processos de aprendizagem e com a formação de mentalidades, evidenciando a relevância de integrar diferentes mídias na educação e na vida social.
Como destaca Logan (2016), a linguagem distingue os seres humanos do restante dos seres. Antes do surgimento da alfabetização, a fala constituía um dos únicos meios de comunicação disponíveis. Carpenter (1974) observa que todas as línguas podem ser compreendidas como formas de comunicação de massa, e os meios — como cinema e televisão — também configuram novas linguagens, capazes de codificar a realidade de formas próprias. Para o autor, cada meio recebia com desconfiança a introdução dos anteriores: “a tradição oral desconfiava da escrita, a cultura manuscrita era hostil à imprensa, a cultura de livro detestava o jornal [...]” (Carpenter, 1974, p. 211).
A introdução dos manuscritos e dos livros inaugurou novas formas de difusão do conhecimento. Para os estudiosos da Escola de Toronto, fala e escrita não se limitam a modos de comunicação: constituem meios determinantes para a formação das mentalidades (McLuhan, 1977). A escrita impulsionou o pensamento analítico, enquanto as linguagens orais se organizavam em densos aglomerados de enunciados (Carpenter, 1974). Importa destacar que a escrita não surgiu para preservar narrativas orais, mas da necessidade de formalizar transações comerciais. Logan (2004, p. 10, tradução nossa) observa que isso não surpreende: “a informação quantitativa é muito mais difícil de lembrar do que a informação verbal. É muito mais fácil lembrar uma história [...] do que um conjunto de números”.
Ainda assim, a língua falada exerceu influência decisiva sobre os processos de pensamento e é considerada responsável por sua origem. Logan (2004) ressalta que Harold Innis foi um dos primeiros a estudar como o ato de escrever modifica os padrões cognitivos humanos. Nesse sentido, Ong (1998) reforça que todo texto escrito se vincula, direta ou indiretamente, ao mundo acústico, pois a leitura envolve a conversão do escrito em som. Assim, a escrita depende da oralidade, enquanto a fala não depende da escrita. O autor considera a escrita uma mídia — um novo meio de comunicação.
É importante destacar que as mídias não se anulam em sucessão, mas se sobrepõem: a escrita não eliminou a fala, e a prensa não extinguiu a escrita manuscrita. A história da cultura humana, portanto, está intrinsecamente ligada à evolução dos meios comunicativos. Levinson (1997) acrescenta que, no século XVI, a prensa favoreceu pensamentos não religiosos, fomentou a Revolução Científica e divulgou informações sobre o “Novo Mundo”. Nesse contexto, a imprensa foi chamada de “pólvora da mente” (Levinson, 1979).
Logan (2004) destaca que cada meio cria um viés sensório. Nas culturas pré-letradas, o processamento era acústico e simultâneo; a alfabetização introduziu um viés visual, no qual a informação passa a ser assimilada sequencialmente. Em consonância, para Innis (1951), cada meio possui um mecanismo de controle que influencia o caráter do conhecimento e Granata (2021, p. 64, tradução nossa) sintetiza: “as coisas pelas quais pensamos influenciam as próprias coisas sobre as quais pensamos”.
Com relação ao viés, Innis (1951) distingue os meios orientados pelo tempo (time-biased) e os orientados pelo espaço (space-biased). Os primeiros, como papiros, códices e livros, priorizam a preservação duradoura do conhecimento, mantendo-o geograficamente limitado e frequentemente vinculado ao poder religioso. Já os meios voltados ao espaço, como jornais, privilegiam a disseminação ampla e rápida da informação, com maior alcance geográfico, mas menor durabilidade. Civilizações como a egípcia e a bizantina equilibraram ambos os vieses. Hoje, em contraste, a sociedade tende a privilegiar informações instantâneas e efêmeras, como conteúdos digitais, mostrando a tensão entre preservação e alcance.
Com a emergência de novas formas de armazenamento e divulgação do conhecimento, a portabilidade e o acesso rápido tornaram-se prioridades, como se observa nos livros digitais. Historicamente, o livro ocupou posição central — e, em muitos contextos, até mesmo sagrada — devido ao custo e à complexidade de sua produção; porém, Allan (2008) lembra que os clubes do livro funcionavam também como bibliotecas coletivas, ampliando o acesso a obras que, de outro modo, não poderiam ser adquiridas pelo alto custo.
Com o desenvolvimento da indústria editorial, a leitura literária ganhou novos espaços e mediações. Candido (2002) observa que a tradição da leitura em auditórios no Brasil persistiu, sendo reconfigurada pelo rádio e pela “literatura de ouvido” (Thomé, 2015). No século XXI, entretanto, a educação não pode restringir-se à transmissão de conteúdo: é necessário considerar a convergência de mídias, a produção criativa e a sociedade em rede (Borges; Silva, 2019), nas quais o leitor torna-se também produtor e mediador de sentidos.
Atualmente, contudo, as práticas de leitura se diversificaram e se deslocaram para ambientes digitais. Plataformas como o TikTok, por meio do segmento BookTok, permitem que usuários compartilhem resenhas, hábitos de leitura e recomendações, criando comunidades literárias digitais. Esse fenômeno conecta-se a outras formas de sociabilidade leitora, como podcasts, perfis de bookstagram e blogs, revelando um ecossistema midiático no qual a leitura é também um ato de compartilhamento e performance cultural.
No campo educacional, tais transformações exigem novas compreensões sobre alfabetização e letramento, conceitos que, conforme Magda Soares (2020), assumem relevância central. A alfabetização corresponde à aquisição do código escrito, enquanto o letramento refere-se ao uso social dessa habilidade, promovendo transformação cognitiva e cultural. Em Portugal, o termo “literacia” aproxima-se desse conceito, englobando leitura, escrita e oralidade. A análise histórica das mídias, portanto, permite compreender como essas práticas evoluíram, da oralidade à leitura silenciosa e, mais recentemente, às mídias digitais interativas.
As escolas, diante desse cenário, enfrentam o desafio de integrar mídias audiovisuais e digitais, promovendo o diálogo entre diferentes formas de escrita, leitura e expressão. Tais competências são essenciais tanto para a cidadania quanto para a inserção profissional. O audiovisual, presente no cotidiano brasileiro desde a década de 1950, assume hoje novas configurações nas plataformas digitais, como TikTok e Instagram, que exercem papel estratégico na formação cultural contemporânea. Repensar clubes de leitura e outras práticas pedagógicas significa, portanto, acompanhar as transformações sociais e midiáticas, preservando, contudo, o livro como eixo estruturante.
Considera-se, assim, que o livro mantém posição central na história das mídias e na formação das mentalidades humanas. Como time-biased medium, ele não apenas preserva o conhecimento ao longo do tempo, mas também estrutura formas de pensamento analítico e crítico, fundamentais para a alfabetização, o letramento e a literacia midiática. Apesar do surgimento de novas mídias — impressas, audiovisuais e digitais —, o livro não foi substituído; pelo contrário, continua a servir como base para a produção e disseminação de saberes. Sob a perspectiva da Ecologia das Mídias, cada meio se constrói sobre os anteriores, sem anulá-los, e, nesse sentido, argumentamos que o livro permanece insubstituível, garantindo a continuidade do conhecimento humano e oferecendo suporte essencial à educação e à construção cultural em diferentes contextos históricos e contemporâneos.