A verdade segundo Charlie Kirk:

as construções discursivas do canal de YouTube do influenciador de extrema direita

Autores

  • Milene Aparecida Eichelberger Universidade de São Paulo (USP)
  • Talitha de Lima Paratela Universidade de São Paulo (USP)

Palavras-chave:

plataformização, violência política, comunicação política, análise do discurso, youtube

Resumo

Introdução

Charlie James Kirk foi um ativista político conservador de direita. Em 2012, Kirk fundou a Turning Point USA, uma organização estadunidense sem fins lucrativos que diz defender os valores conservadores em universidades e escolas de ensino médio. Com a reeleição de Donald Trump, em 2024, a atuação de Kirk nesses ambientes se intensificou. Ancorado em um discurso de “precisamos debater”, Kirk seguia o mesmo modus operandi em suas atuações – constantemente divulgadas em plataformas de redes sociais. Nas universidades, estimulava debates acerca de temas considerados polêmicos pela extrema direita estadunidense, como cotas raciais, igualdade de gênero, aborto, dentre outros. 

Em 10 de setembro de 2025, enquanto participava de um evento na Universidade de Utah Valley, Kirk foi baleado. A morte do influenciador de direita, aos 31 anos, mobilizou uma onda de repúdio à violência política nos Estados Unidos. Donald Trump alegou ser um admirador de Kirk e também o atribuiu o mérito de mobilizar votos de jovens para os republicanos, em especial a ele.

Um dos principais canais de mobilização utilizado por Kirk foi a plataforma YouTube, que pertence à empresa Google (Alphabet). Considerada uma das cinco grandes Big Techs – as Big Five –, a Google controla grande parte da infraestrutura da internet e, em um cenário de plataformização (Van Dijck, Poell e Nieborg, 2020), é responsável por gerir grande parte do processo de interação dos usuários com a rede. A plataforma reafirma constantemente um discurso de liberdade criativa e segurança dos usuários, ao passo em que impõem determinadas formas de relações sociais, condiciona a atenção dos usuários a certas preferências durante o uso de aplicativos e têm acesso a uma quantidade massiva de dados dos usuários, intensificando o processo de datificação de todos os setores da vida (Van Dijck, 2014). 

Cabe destacar, ainda, a pesquisa Digital News Report de 2025, produzida pela Agência Reuters, que mostrou que o YouTube figura como uma das plataformas mais utilizadas pelos brasileiros. Dos entrevistados, 64% diz acessá-la para usos gerais, como entretenimento, e 37% diz tê-la como fonte de notícias. Nesse cenário, a plataforma é um importante local de disseminação de informações. Como pontuado por Silva (2024), essas gigantes da tecnologia hoje podem, e devem, ser entendidas como empresas de comunicação. 

 

Ferramentas de coleta, processamento e metodologia

Os dados utilizados nesta pesquisa foram coletados por meio da plataforma disponibilizada online e gratuitamente YouTube Data Tools que permite extrair e estruturar informações diretamente da plataforma YouTube. Por meio do módulo Channel List, foram coletados dados referentes ao canal oficial de Charlie Kirk (@RealCharlieKirk), publicados desde o dia 18 de agosto de 2022 até o dia 25 de setembro de 2025, sem outros critérios de exclusão. O processo de extração gerou um conjunto de dados contendo descrições e métricas de 1.812 vídeos, posteriormente organizados em uma planilha para garantir a relevância e a consistência analítica. Cada linha da planilha do dataset representa um vídeo individual e contém 29 variáveis, incluindo dados textuais e quantitativos sobre conteúdo e desempenho. Entre os principais campos estão o de videoTitle, videoDescription, tags, videoCategoryLabel, durationSec, viewCount, likeCount e commentCount. A base inclui também variáveis técnicas como resolução (definition), idioma (defaultLanguage e defaultLAudioLanguage), e indicadores de acessibilidade como caption

A hipótese norteadora desta pesquisa é que Charlie Kirk utilizava as funcionalidades, interatividade e lógicas sociodigitais da plataforma YouTube para o fomento e a disseminação de discursos conservadores, baseados na construção de sua imagem enquanto ativista político de extrema direita. Ao passo em que uma plataforma como o YouTube passa a ditar a melhor maneira para a construção dos materiais que nela circulam: seja formato, duração, conteúdo, há uma intermediação não neutra – regida por algoritmos e dados extraídos das preferências do usuário. Esse tipo de plataforma, bem como tantas outras, reiteram uma mesma visão de mundo, reforçam opiniões políticas e reafirmam as ideias do usuário. 

 

Resultados e primeiras análises

O avanço das tecnologias digitais e o consequente acesso a grandes volumes de dados vêm transformando as práticas metodológicas no campo da comunicação (Venturini et al., 2018). As transformações metodológicas impulsionadas por essa transformação, ao reestruturar a comunicação e a produção de sentido, fundamentam o surgimento dos métodos digitais (Rogers, 2013), adotados neste estudo como referência metodológica por integrarem abordagens qualitativas e quantitativas na análise de dados nativos das plataformas (Rogers, 2009). Assim, para analisar os mais de 1.800 títulos de vídeos do canal de Charlie Kirk, essas abordagens são combinadas. 

No âmbito qualitativo, optamos pela perspectiva teórica e metodológica da análise do discurso, de modo a trazer à luz autores como Courtine (2002; 2006) e Pêcheux (2008). Ela se volta para as relações, em dupla mão, do linguístico e do ideológico, que existem em todo discurso – que se constitui no interior da língua, manifestando-se como efeito de contradições ideológicas e, ao mesmo tempo, da materialidade linguística no interior da ideologia (Courtine, 2006, p. 14).

Dada essa metodologia, a combinação entre o YouTube Data Tools e o Voyant Tools (Figura 1) permitiu uma análise integrada e aprofundada do conteúdo textual, articulando métodos digitais e seus aspectos quali-quanti com uma perspectiva interpretativa das humanidades digitais.

Figura 1: Nuvem de palavras gerada pela ferramenta Voyant Tools

Fonte: As autoras (2025).

A soma dos valores de visualização ultrapassa 7,2 bilhões de acessos, com uma média aproximada de 703 mil visualizações por vídeo e um máximo individual superior a 32 milhões. No campo de curtidas, o total acumulado é de 322,5 milhões, com média de 31 mil curtidas por publicação e picos acima de 1,3 milhão. Já o campo de comentários soma 8,9 milhões de interações, o que representa uma média de 869 comentários por vídeo, evidenciando o alto engajamento do público. Essas métricas indicam uma alta taxa de engajamento, característica que, na epistemologia dos métodos digitais, é compreendida não como simples popularidade, mas como expressão de interação mediada por infraestrutura algorítmica.

Desde o final do século XX, há uma relação íntima entre política e espetáculo. As representações das imagens se misturam aos verbos e tornam-se indispensáveis à governabilidade: governar é aparecer (Courtine, 2002, p. 37). A aproximação entre espetáculo político e mídias aconteceu nos anos 1960, nos Estados Unidos, em que o jogo político passou a seduzir as massas através das novas mídias e tecnologias. Pêcheux (2008) afirma que existe uma lógica unívoca das mídias na produção dos enunciados, que elas gostariam que fossem reproduzidos por toda a sociedade. No entanto, Courtine (2002) e Pêcheux (2008) escreveram seus textos em tempos que antecederam as mídias e tecnologias atuais, precedentes de processos amplos como o advento das plataformas digitais, tal qual o YouTube, sendo movidas por relações políticas e econômicas e criando novas condições de produção discursiva.

No canal de Kirk, a nuvem revela a recorrência de inúmeras palavras, entre elas college, Trump, Charlie, Kirk, America, student e truth. Após sua morte, inúmeras homenagens póstumas contaram sua história sob novas perspectivas, partindo de relações discursivas em que diferentes sujeitos – como JD Vance, vice-presidente de Trump, e Erika Kirk, esposa – contam suas experiências individuais com o líder, avivando sua memória e legitimando posições discursivas como chefe de uma família normativa – heterossexual, branca, cristã e conservadora – e líder político – em um governo que defende esses mesmos valores. São exemplos de títulos de produções póstumas: “VP JD Vance Recounts Who Charlie Kirk REALLY Was” . No primeiro enunciado, really, frequente nos títulos dos vídeos, qualifica as memórias do ex-presidente sobre Kirk como verdades, fechando o espaço para sentidos dissonantes e contraditórias em torno de sua vida, a fim de controlar os significados. 

Esposa de Kirk, Erika também ressignificou a história de Charlie em produções de vídeo póstumas, como em “Erika Kirk’s Love Story With Charlie & What’s Next for Turning Point USA”. Na ausência de seu marido, há um tensionamento de suas posições: entre ser coadjuvante e protagonista; e estar na esfera privada e na pública. A força discursiva de Erika pode não ser a mesma, mas é ela que sustenta a imagem de Charlie como mártir, mantendo a saga do herói e tendo sua palavra legitimada pelo substantivo próprio – seu sobrenome.

A palavra truth também se destaca, expressando a pretensão de um discurso conservador que se autodefine como verdadeiro, em oposição a uma suposta mentira criada pela esquerda e pela imprensa, a exemplo: “The Media Is Lying About Me Yet Again... Here's the Truth”; “The Truth Behind the Root Cause of Violent Crime”; e “The TRUTH About What Is Happening in South Africa From a Native”. Desse modo, esses enunciados criam uma oposição binária entre verdade e mentira, bem e mal, Deus e diabo. Em vista de ter o domínio da verdade sobre assuntos tão diversos, através dos discursos, representa-se Kirk como uma espécie de Deus, onisciente nos moldes do cristianismo.

Além disso, ele cria um par distintivo entre discursos científicos e religiosos, através de students. Kirk frequentemente se posicionava de forma distintiva aos estudantes e professores, apresentando o ambiente universitário como espaço de lavagem cerebral e fraudes, credibilizando o discurso religioso e desvalorizando o científico. Isso se evidencia por vs. e over, termos que operam nesses casos como polarizador, criando campos semânticos antagônicos e inconciliáveis. Isso também se reflete na própria posição do nome de Charlie em relação a outros substantivos nos enunciados, em que estão nas extremidades dos enunciados – “Charlie VS 400 Cambridge Students and a Professor”; “Charlie Kirk Takes on Final Boss of Brainwashed College Students”; e “Students Enraged That I Say College Is a Scam”. 

Portanto, o espetáculo político, outrora televisionado, renova-se nas plataformas digitais, em que os sujeitos são ideologicamente interpelados. No caso de Charlie Kirk em vida, há uma construção gradual e consistente de suas representações: um sujeito religioso e conservador, que defende valores considerados moral e eticamente corretos, além de colocar o cristianismo acima da ciência e ser reconhecido como líder pelo governo trumpista. Com seu assassinato, o corpo simbólico sobrevive, embora o corpo físico esteja ausente. Desse modo, há uma legitimação de suas posições discursivas em vida, sustentando-se como herói e mártir. 

Biografia do Autor

Talitha de Lima Paratela, Universidade de São Paulo (USP)

Doutoranda em Ciências da Comunicação pela ECA-USP, mestre em Linguística Aplicada pelo Instituto de Estudos da Linguagem da Universidade Estadual de Campinas (IEL-Unicamp) e bacharela em Letras pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP). É pesquisadora integrante do CPCT/ECA-USP.

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Publicado

14-04-2026