O Sagrado e o Doméstico
interdiscursividades do movimento #TradWife
Palavras-chave:
tradwife, comunicação, consumoResumo
O presente artigo analisa o movimento #TradWife, que surgiu nas redes sociais a partir de 2017 entre as gerações Y e Z, como parte de uma onda de novos movimentos conservadores e antifeministas. Esse movimento idealiza o retorno aos papéis tradicionais de gênero e à figura da esposa submissa dos anos 1950, defendendo valores como pureza, domesticidade e centralidade da família heterossexual, cisgênera, branca e cristã. Tomando como estudo de caso a influenciadora Hannah Neeleman (@BallerinaFarm), o texto examina, pela ótica da interdiscursividade de Maingueneau, como múltiplos discursos atravessam o conteúdo produzido por ela, que inclui o discurso religioso, baseado nos valores da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias; o discurso sobre família, que reforça o modelo patriarcal de família; o discurso da branquitude, que normaliza identidades brancas e discursos supremacistas; e o de classe, expresso na exibição do ócio e do tempo livre como marcadores de status social, a partir das ideias de Veblen. Concluímos que o movimento #TradWife não apenas reforça estruturas heteropatriarcais e conservadoras, mas também propaga uma visão idealizada e excludente do passado, romantizando papéis sociais generificados e uma estética de pureza e domesticidade associadas à superioridade moral, racial e econômica. Assim, o conteúdo das influenciadoras #TradWife funciona como uma forma de legitimar discursos religiosos, raciais e de classe que sustentam o conservadorismo contemporâneo nas redes sociais.