Divulgação científica sobre economia criativa: reflexões sobre a tecnologia social no combate à desinformação
Resumo
A proposta tem como objeto a divulgação científica (Massarani, 2008; Massarani, Moreira, 2021; Bueno, 2010, 2018) voltada à área da economia criativa, compreendida a partir das lógicas econômicas e simbólicas de macrossetores culturais e criativos, como as artes, o setor de inovação e as indústrias culturais e criativas (Poli, 2021). Assim, o presente artigo tem como objetivo debater a proposição do desenvolvimento da divulgação científica em cultura como forma de enfrentamento à desinformação e às fakes news associadas à produção cultural brasileira contemporânea, o que se reflete no desconhecimento sobre os processos vinculados às leis de fomento à cultura vigente no país e em sua implementação seja em instância municipal, estadual ou federal. Apesar da disseminação de “informações fraudulentas” ser uma prática corrente na história da humanidade, sua propagação ganha fôlego na atualidade diante de “escala, velocidade e personalização” que os processos de desinformação conquistaram como o auxílio das novas tecnologias digitais de comunicação (Schneider, 2022, p. 149). Complementarmente, Bucci (2020) evidencia dois aspectos centrais nessa conduta de divulgação de falácias: (i) a produção de “narrativas” inverídicas que buscam se revestir do sentido de verdade, tomando de empréstimo a reconhecida credibilidade jornalística, combinada ao questionamento e à desconfiança sobre a acurácia da produção científica; (ii) a importância das fake news perpassar e circular o debate na esfera pública. As fake news inserem-se em um jogo de metáforas com capacidade para refletir, driblar e minar os sistemas socioculturais de conhecimentos vigentes, a fim de ganhar em reverberação a partir do seu alcance – principalmente, quando apoiadas em plataformas e dispositivos digitais. Assim, a desinformação tensiona a opinião pública, como também amplia as “possibilidades interpretativas ficcionais” com a criação de narrativas elaboradas a partir de novos contextos e situações comunicacionais (Barbosa, 2020). A retroalimentação desse ciclo de interação chancela a irresponsabilidade da circulação dessas notícias, já que tal indústria firma-se como um projeto comunicacional e político encarregado da dissolução de olhares heterogêneos e pontos de vista alternativos, destituída de valores éticos, humanos e sociais. A capacidade de disseminação das fake news faz com que seja preciso manter certa vigilância sobre seus princípios constitutivos, sua estruturação e perpetuação. Para a autora, a credibilidade e a confiança social na ciência foram dissolvidas nas atuais sociedades complexas diante da emergência de uma “condição epistêmica na qual qualquer enunciado pode ser potencialmente modificado por qualquer um” (Cesarino, 2021, p. 77). Com isso, surge, segundo ela, um novo conjunto de valores informativos a serem disseminados com o auxílio da performatividade de mediações algorítmicas, manejado por empresários, políticos populistas, influenciadores digitais etc., abrindo espaço, inclusive, para a influência de teorias conspiratórias. Diante do exposto, a relevância da análise situa-se em propor alternativas de redução e apaziguamento da “guerra cultural” vigente no país, como reflexo da disputa entre valores progressistas e conservadores (Ortellado, 2020; Ortellado, Silva 2022), derivada de uma política de costumes manejada pela “moralidade tradicional brasileira” (Alonso, 2023). Este cenário bélico afeta diretamente os “trabalhadores da cultura” (Barbalho, Alves e Vieira, 2017), os quais são impactados por práticas de censura e de cancelamento público, como pontua Pablo Ortellado (2020) e apresenta Wagner Schwartz (2023) a partir de experiência pessoal retratada no livro “A nudez da cópia imperfeita”. Na obra, o autor, responsável pela performance La Bête, na qual se apresenta nu, descreve a experiência realizada no Museu de Arte Moderna, em São Paulo (capital), em 2017. Na ocasião, descreve ele na publicação, “uma mulher e a sua filha de quatro anos participaram de minha performance" (Schwartz, 2023, p. 7) – episódio que levou ao seu “linchamento virtual, centenas de ameaças de morte, notícias falsas, comparações com o anticristo (Schwartz, 2023, p. 7). Outros ocorrências culturais dessa natureza podem ser registradas, como o encerramento antecipado da exposição “Queermuseu: cartografias da diferença na arte brasileira”, apresentada no Santander Cultural, em Porto Alegre/Rio Grande do Sul, em 2017, além da tentativa de censura da obra “Quadrinhos Vingadores – a cruzada das crianças” na Bienal do Livro, realizada no Rio de Janeiro, em 2019; na ocasião, a história escandalizou Marcelo Crivella (então prefeito da cidade) por estampar dois homens se beijando. A publicação teve seus exemplares esgotados. A partir do escopo teórico já mencionado pode-se realizar uma revisão bibliográfica que alicerça a proposição de uma “divulgação científica em cultura” à luz do binômio “cultura-ciência” (Massarani, 2008; Massarani, Moreira, 2021), a fim de mirar tal prática como uma tecnologia social, definida a partir do conceito da rede de tecnologia social (RTS) de Dagnino (2010). Segundo o autor, a tecnologia social veio a ser compreendida como produtos, técnicas ou metodologias, reaplicáveis, desenvolvidas na interação com a comunidade, visando efetivas soluções de transformação social. Embora Dagnino (2010) critique a formulação do conceito, por considerá-la frágil ao assumir uma visão instrumental da tecnologia, ele destaca que essa premissa veio a ser formulada devido a um conjunto de correlações de forças, que, por sua vez, não são homogêneas quando se trata dos atores que as constroem e delas utilizam. Nesse sentido, têm-se, como ativos na construção da tecnologia social, aqueles sujeitos que as aplicam como ferramentas para responsabilidade social, mas também os que as utilizam como ferramenta de estratégia contra-hegemônica. O processo construtivo aqui apresentado orienta-se pela percepção de 6 (seis) trabalhadores da cultura, residentes em Salvador/Bahia, com atividades profissionais desenvolvidas no estado, estando ligados às artes performativas – dança, música, artes cênicas e circo (Poli, 2021). Entre os profissionais consultados, é consensual a legitimação das possibilidades e potencialidades da divulgação científica em cultura – seja (i) no combate à desinformação sobre o setor cultural; (ii) na compreensão sobre as formas de realização e promoção da cultura no país através de editais de fomento (municipais, estaduais ou federais); (iii) na apresentação de resultados efetivos para o mercado cultural e seus profissionais - o que leva pode fomentar o consumo de bens culturais. Estes insumos apresentados pelos próprios agentes culturais auxiliam na reflexão sobre a contribuição do binômio "cultura-ciência”, acionado através da divulgação científica, como uma forma de ação insurgente de comunicação digital, associada à prática de curadoria (Beiguelman, 2011; Saad Corrêa, Bertocchi, 2012; Holston, 2013). A estratégia ganha potencial de implementação ao recorrer à curadoria de conteúdo (Côrrea, Raposo, 2018), a qual se estabelece a partir da seleção de informações relevantes em um contexto midiatizado de comunicação (Fausto Neto, 2010; Hepp, 2020) com excessivo volume de informações (Côrrea, Raposo, 2018), demonstração da atual infodemia (Organização, 2020; Carvalho, 2024), tensionada pela presença de big techs (Morozov, 2018). Nesse sentido, a curadoria de conteúdo pode municiar a divulgação científica em cultura por meio das 4 (quatro) dimensões da tecnologia social (Ministério, [2023?]: (1ª dimensão) o reconhecimento dos problemas sociais (no caso, a guerra cultural) como ponto de partida para a atuação da tecnologia social, apoiada no tripé conhecimento, ciência e tecnologia e sendo implementada por meio da organização e sistematização, introduzindo ou gerando inovação na sociedade; (2ª dimensão) a ênfase da tecnologia social na prática cidadão e na participação democrática por meio de metodologia participativa em seus processos de trabalho, a qual visa impulsionar sua disseminação e reaplicação em outras sociedades e para outros problemas sociais; (3ª dimensão) a operacionalização, via tecnologia social, de um completo processo pedagógico, desenvolvido a partir de um diálogo entre os saberes populares e os princípios científicos, apoiando-se e apropriando-se de forma simétrica e horizontalizadas das vivências e práticas comunitárias, as quais ganham e manifestam autonomia (no caso aqui debatido, além da escuta dos “trabalhadores da cultura”, torna-se indispensável a contribuição do próprio público espectador e consumidor de bens culturais); (4ª dimensão) a relevância social da tecnologia social como recurso eficaz na solução de problemas sociais, vigilante à sustentabilidade ambiental e interessada, efetivamente, na transformação social. Destaca-se ainda como a tecnologia social filia-se à Agenda 2030 da Organização das Nações Unidas e seus 18 (dezoito) Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) (PNUD, 2024). Deste modo, pretende-se que a divulgação científica em cultura, perpassada e instrumentalizada como tecnologia social, torne-se capaz de trazer os seguintes avanços e benefícios para a área da economia criativa nacional: (i) firmar-se como parte da estratégia de combate à desinformação, ao negacionismo e às fake news associados à produção artística e cultural contemporânea realiza no país, a fim de minimizar (e, quiçá, eliminar) o desconhecimento sobre os processos de fomento a projetos culturais – seja ele promovido por instituições privadas e/ou públicas com o emprego (ou não) de leis de incentivo; (ii) contribuir com o reconhecimento dos profissionais da cultura; (iii) estreitar os laços com o público espectador e consumidor de bens culturais, ofertando indicativos sobre o valor e a importância da apreciação artística como experiência estética, bem como abastecendo-o com informações precisas, obtidas com acurácia, sobre a dinâmica comercial movimentada por esse segmento econômico; (iv) firmar-se como uma ação de ciência cidadã insurgente (Holston, 2013) no âmbito da comunicação com possibilidade de realização por instituições e profissionais da economia criativa.