Automação em debate: o uso de IA nas práticas jornalísticas do Estadão e do O Globo

Autores

  • Nadiégida Sousa ESPM
  • Marcia

Resumo

Introdução

A reflexão deste trabalho está baseada exatamente no crescente uso da inteligência artificial generativa no jornalismo, que vem ultrapassando a fronteira da produção de conteúdo e nessa nova dinâmica comunicacional, das plataformas digitais, põe em xeque a identidade e o papel do profissional. Nesse sentido, é importante trazer a reflexão sobre como o jornalismo vem se adaptando a essa lógica de consumo de tecnologias digitais.

O objetivo deste artigo é fazer uma análise descritiva a fim de refletir sobre a adoção de tecnologias de IAG nos veículos de comunicação no Brasil. Para isso, foi feita a escolha das políticas de uso de dois veículos de comunicação do Brasil: Estadão e O Globo. Eles estão à frente da discussão sobre o uso de tecnologias de IAG nas redações, aplicadas em práticas do jornalismo. Desse modo, foi feita uma reflexão sobre essas diretrizes, que guiam a rotina de produção de notícias desses veículos.

O crescimento do jornalismo automatizado na última década

O jornalismo automatizado, que também é conhecido como jornalismo algorítmico, tem se destacado muito nos últimos tempos, especialmente, após o avanço da inteligência artificial (AI). Na imprensa internacional, a Associated Press foi uma das primeiras a fazer o uso de IA na

sua produção jornalística. Em 2014, a agência de notícias desenvolveu com o uso de automação artigos sobre beisebol de segunda divisão. Para isso, contou com o suporte da empresa Automated Insights (AI), que desenvolve software de linguagem de última geração. No Brasil, não é diferente, grandes grupos de Comunicação já iniciaram seus testes de otimização de conteúdo nas redações.

Para exemplificar, temos o caso do portal G14, que nas eleições para prefeitos de 2020 utilizou o recurso de automatização para publicar os resultados do 1o turno.

Santaella e Cruz (2024, p.55) dizem que o jornalismo algoritmo pode ser definido como “o processo (semi)-automatizado de geração de linguagem natural por meio da seleção de dados eletrônicos a partir de base de dados privados ou públicos”. A definição das autoras revela como o jornalismo contemporâneo passa a operar em um ambiente mediado por tecnologias que reconfiguram profundamente o processo de produção da notícia.

O jornalismo produzido com o uso de Inteligência Artificial Generativa

Nota-se que o desenvolvimento do jornalismo automatizado preparou o terreno para uma nova fase tecnológica, que seria a da inteligência artificial generativa (IAG), atualmente a mais empregada nas redações. A IAG é um subconjunto da aprendizagem profunda e opera com modelos generativos capazes de aprender padrões complexos a partir de grandes volumes de dados, sem necessidade de supervisão direta, produzindo imagens, textos, músicas ou vídeos com autonomia criativa (Santaella e Cruz, 2024).

Gabriel (2024) aprofunda essa discussão ao destacar que o lançamento do GPT, em 2018, pela OpenAI, representou um marco no avanço da IA conferindo-lhe a capacidade de produzir diversos tipos de textos, inclusive códigos de programação, com sofisticação e fluidez comparáveis ao trabalho humano. Alimentado por grandes bases de dados linguísticos, o GPT passou a gerar conteúdos com forte capacidade preditiva e adaptação estilística, o que o tornou apto a produzir desde poesia até reportagens jornalísticas (Gabriel, 2024).

O lançamento do ChatGPT, em 2022, popularizou definitivamente essa tecnologia, consolidando os chamados Grandes Modelos de Linguagem como base essencial para o surgimento das IAGs, como destaca Santaella (2023), ao afirmar que foi por meio dos Transformers que se viabilizou a criação tanto das IAGs de texto quanto de imagem. A partir do ChatGPT da OpenAI, que fez com que as tecnologias de IAG ficassem populares para o mundo, surgiram outras como o Gemini, antigo Bard, do Google, o Copilot, da Microsoft.

Além das

tecnologias mais usadas para geração de imagens e vídeos como DALL-E, da OpenAI e o Midjourney, da Stable Diffusion.

Dessa forma, este estudo tem um caráter qualitativo, a intenção é trazer uma reflexão sobre como a inteligência artificial está redefinindo algumas rotinas na profissão de jornalista, criando outras formas de transmitir a notícia. Para a análise descritiva foram comparadas políticas de uso da Inteligência Artificial de dois jornais considerados como mídias tradicionais e de abrangência nacional: Estadão5 e O Globo6. Para deixar mais visível como esses veículos de comunicação estão tratando o assunto, foi elaborada uma tabela que sintetiza os principais aspectos das suas políticas de uso.

Tabela 01: mapeamento do uso de políticas de uso de IA nas redações do Estadão e do O Globo

Uso de ferramentas IA nas redações Resumo de notícias

Estadão

Não. É usado apenas para elaboração de chamadas, sumários, títulos e metatítulos.

O Globo

Sim. O recurso faz parte do projeto Irineu.

Produção de imagens

Não. De modo geral os recursos de audiovisual são parcialmente proibidos. Poderão ser usados apenas com a autorização do Comitê de IA do jornal.

Sim. É produzida para auxiliar a compreensão das notícias, mas com identificação de criação feita por IA.

Produção de texto

Sim. No caso de produção de textos todo o conteúdo é supervisionado, mas não revisado. Também são usados recursos para revisão gramatical, tradução de textos e criação de sumários. Nesses casos há revisão do editor.

Não. É usado apenas para edição e revisão gramatical, correções factuais e enriquecimento para fins de estilo. A criação de textos opinativos e editoriais são produzidos por jornalistas.

Produção de áudio

Há apenas a menção do uso de ferramentas de transcrição de áudio, usadas para apuração de entrevistas. Não citam o uso de geração de áudios sintéticos.

Sim, para geração de áudios sintéticos baseados em vozes humanas, também o uso de ferramentas de produção de áudio para preparação de reportagens.

5 Política do Estadão: https://www.estadao.com.br/link/estadao-define-politica-de-uso-de-ferramentas-de- inteligencia-artificial-por-seus-jornalistas-veja/. Acesso em 15 de out, 2025
6 Política do O Globo: https://oglobo.globo.com/politica/noticia/2024/06/27/grupo-globo-incorpora-recomendacoes- para-o-uso-de-inteligencia-artificial-aos-principios-editoriais.ghtml . Acesso em 15 de out, 2025

 

Não. De modo geral recursos de audiovisual são parcialmente proibidos. Poderão ser usados apenas com a autorização do Comitê de IA.

Sim, mas apenas mencionam sem citar detalhes.

Produtos proprietários

Sim. O Estadão criou o Leia, um chatbot para tirar dúvidas do leitor a partir dos conteúdos somente do jornal, das editorias Link, Paladar, Lifestyle, Cultura, Emais e São Paulo.

Sim, o projeto Irineu que é uma ferramenta de IA que resume reportagens. Além disso, tem outros recursos como a tradução das notícias para o idioma inglês.

Compartilhamento de dados com ferramentas de IA

É vedada a inserção de dados, parcialmente ou integral em qualquer ferramenta. Desde dados da base do Estadão, clientes, fornecedores ou colaboradores. No caso da Leia, foi construída com a mesma tecnologia do ChatGPT, mas uso a base de dados do jornal.

A Globo diz que no caso do projeto Irineu foi usado o modelo de linguagem de LLM, o mesmo de criação do sistema GPT, da OpenAI. Entretanto, usou a tecnologia integrada ao sistema próprio do jornal. Já no caso do uso de outras ferramentas, o jornalista é sempre o responsável pela análise do compartilhamento.

Supervisão humana

Sim. Existe um Comitê de IA responsável pelo cumprimento e aperfeiçoamento das políticas de uso. São supervisionados, mas não necessariamente revisados.

Sim. Qualquer conteúdo gerado (imagens, textos ou áudios) serão supervisionadas por humanos, mas não necessariamente revisados.

Práticas de transparência com o leitor

Sim, no caso da produção de texto, recurso mais usado, há um aviso quando houve a revisão e o também o contrário.

Sim. O leitor é avisado sobre o uso de IA para produção do conteúdo gerado por IA.

Distribuição da notícia

Não citam nenhumas informações sobre análise de alcance, consumo ou personalização.

Sim, é usado para análise de alcance, consumo e personalização de conteúdo.

Apuração da notícia

Existe uma proibição nítida de compartilhamento de dados, furos jornalísticos e informações. Já no caso de extração e compilação, apenas dados de origem pública.

O jornalista é responsável pelo compartilhamento e checagem de qualquer conteúdo, que seja incluído, gerado ou extraído de ferramentas de IA.

Direitos autorais

Como usam a produção de textos gerados por ferramentas automáticas, algumas vezes publicadas sem revisão, citam que nesses casos passarão pelo processo de homologação do Comitê de IA.

Sim, tanto para conteúdo de terceiros como por aqueles criados por seus jornalistas.

  

Fonte: criada pelas autoras.

Resultados iniciais

Nota-se que apesar de o Estadão fazer o uso de IAG para a criação e edição de textos, o uso dessas ferramentas é mais restritivo quando é abordada a questão audiovisual (áudio, vídeo e imagem). Enquanto O Globo mostra um uso mais amplo e integrado, com maior transparência e aplicação em diversas etapas da produção. Porém, restringido o uso em relação à produção de reportagens, priorizando a escrita, apuração e elaboração do texto ainda ao jornalista.

A comparação entre os jornais revela abordagens distintas na adoção da IA: enquanto o Estadão demonstra cautela, com uso controlado por comitê e restrições rigorosas, O Globo explora mais amplamente as tecnologias, integrando-as em múltiplas fases do jornalismo. Essa diferença sugere que o Estadão prioriza segurança e ética jornalística em detrimento da expansão rápida da tecnologia, ao passo que O Globo aposta na inovação tecnológica como estratégia para otimizar processos e personalizar conteúdo.

Palavras-chave

Comunicação; consumo; jornalismo automatizado; inteligência artificial generativa.

Referências
SANTAELLA, Lucia; Cruz, Kalynka. Jornalismo e Inteligência Artificial podem caminhar juntos? 1. ed. São Paulo: Estação das Letras e Cores, 2024.

GABRIEL, Martha. Inteligência Artificial – do Zero a Superpoderes. 2. ed. São Paulo: Atlas, 2024.

SANTAELLA, Lucia. Há como deter a invasão do ChatGPT?. 1. ed. São Paulo: Estação das Letras e Cores, 2023.

Downloads

Publicado

14-04-2026