Além da Recomendação: Algoritmos, Afeto e Consumo na Economia da Atenção

Autores

  • Hamine Lais Sousa Frota Universidade de São Paulo

Palavras-chave:

Mediação Algorítmica, Plataformas de Streaming, Consumo, Afeto, Ecossistema Publicitário, Algoritmos, Economia da Atenção, Streaming, Capitalismo de Plataforma, Plataformas, Lógicas Publicitárias

Resumo

Este trabalho tem como objetivo principal investigar de que maneira a mediação algorítmica, especificamente nas plataformas de streaming audiovisual, reconfigura os rituais de consumo e os processos de construção de afeto. Parte-se da premissa de que essa mediação opera sob uma tensão fundamental: de um lado, a promessa de uma curadoria altamente personalizada, supostamente capaz de antecipar desejos individuais; de outro, lógicas publicitárias e mercadológicas implícitas que estruturam todo o sistema. Para desenvolver esta análise, o trabalho adota uma abordagem de reflexão teórica, fundamentada em revisão bibliográfica.

O percurso argumentativo busca desnaturalizar o algoritmo, posicionando-o como parte integrante do que Perez (2016) define como ecossistema publicitário. A base teórica articula essa perspectiva com os estudos de plataforma (Van Dijck; Poell; de Waal, 2018) e a economia da atenção no streaming (Lotz, 2017; Lobato, 2019), demonstrando como a dataficação e a personalização resultam em um simulacro da escolha (Perez, 2020).

Propõe-se aqui que essa mediação algorítmica seja compreendida não como uma ferramenta neutra, mas como o motor de um "ecossistema publicitário" expandido, conceito desenvolvido por Perez (2016) para descrever o complexo de relações e práticas publicitárias cujo objetivo é construir vínculos de sentido entre as pessoas e marcas. Este ecossistema permeia intensamente as plataformas digitais, com destaque para os serviços de streaming audiovisual. Essa concepção expande a visão tradicional da publicidade, que deixa de ser um formato discreto para se tornar uma lógica complexa, englobando infraestruturas tecnológicas, sistemas de coleta de dados e os próprios algoritmos.

Neste contexto, os algoritmos de recomendação utilizados pelas plataformas de streaming audiovisual não devem ser vistos como ferramentas de conveniência passiva, mas sim como componentes essenciais e ativos desse ecossistema publicitário. Eles são construídos estrategicamente para auxiliar na efetivação da construção de sentidos entre os consumidores e os conteúdos ou serviços oferecidos, guiando ativamente a visibilidade, o engajamento e as escolhas dos usuários. Dessa forma, a lógica algorítmica transcende a função do anúncio tradicional, deixando de ser apenas uma mensagem persuasiva pontual para se tornar um processo contínuo que estrutura as interações sociais e culturais em torno do consumo, mediando as experiências cotidianas (Trindade, 2021) e consolidando novas formas de vínculo no capitalismo contemporâneo.

Esse processo se fundamenta na dataficação, um fenômeno crescente onde diversos aspectos da vida cotidiana são convertidos em dados quantificáveis e processáveis (Van Dijck; Poell; de Waal, 2018). As plataformas não são apenas intermediários, mas arquiteturas programáveis que ativamente moldam e direcionam as interações sociais. Argumenta-se, portanto, que o "ecossistema de plataforma" (Van Dijck; Poell; de Waal, 2018) constitui a principal infraestrutura através da qual o "ecossistema publicitário" (Perez, 2016) opera na contemporaneidade, convertendo a dataficação em seu principal mecanismo de construção de sentido e valor. A percepção de uma curadoria personalizada, que promete uma experiência única, é construída precisamente pela capacidade desses sistemas de analisar grandes volumes de dados comportamentais, transformando a cultura e o gosto em matéria prima essencial para os sistemas algorítmicos, alimentando sua capacidade preditiva (Frota, 2025).

Essa alta personalização, no entanto, resulta em um simulacro da escolha (Perez, 2020), pois o sistema algorítmico, ao prever e apresentar ao usuário opções alinhadas ao seu perfil, não precisa mais persuadir explicitamente. Ele apenas reflete o que o consumidor supostamente deseja, fazendo com que a sugestão seja recebida como uma confirmação de sua própria vontade. O menu personalizado de plataformas como a Netflix exemplifica essa dinâmica ao recomendar não necessariamente o lançamento mais recente, mas sim o conteúdo que, segundo seus cálculos preditivos, possui maior probabilidade de manter o consumidor engajado e satisfeito dentro do ambiente da plataforma (Lobato, 2019; Lotz, 2017). A lógica que impulsiona essa curadoria algorítmica é, portanto, primariamente comercial e voltada à otimização no negócio. O objetivo principal das plataformas de streaming é maximizar o tempo de tela, o engajamento contínuo, e, consequentemente, as taxas de retenção de assinantes (Lotz, 2017). Nessa perspectiva, os algoritmos não são apenas ferramentas de recomendação, são novos e sofisticados modos de manipulação para o consumo.

Para analisar como essa lógica algorítmica reconfigura a experiência subjetiva do consumo, é essencial entender o próprio consumo como um campo de criação de sentido e prática social.

Entender o consumo como um ritual implica integrar as dimensões culturais (sistemas de valores, crenças, língua, influência dos grupos, matrizes religiosas, etnias etc.), materiais (publicidade, marketing, design, moda, marca, tendências...), e humanas (antropossemiótica e psicanalítica), no sentido de compreender a complexidade destas relações na vida cotidiana, pelo viés interpretativista. (Perez, 2020, p. 45).

O consumo de conteúdos audiovisuais vai além do simples ato de assistir, constituindo-se como um ritual complexo de construção de vínculos. A mediação algorítmica reconfigura esses rituais através da segmentação extrema. O ritual de busca, por exemplo, é intensamente afetado pelo sistema de recomendação, que direciona o indivíduo para possibilidades que, embora pareçam descobertas pessoais, frequentemente reforçam suas expectativas pré-mapeadas (Perez, 2020). No contexto do streaming audiovisual, a lógica da posse é substituída pela do acesso. O usuário não adquire a propriedade de um filme ou série, mas sim uma assinatura que lhe confere o direito temporário de acessar um catálogo amplo de conteúdo. Esse catálogo, crucial para a experiência, não é neutro; ele é ativamente mediado pelo algoritmo, que opera como um portal curatorial (Lotz, 2017), tornando-se parte integrante e central do próprio ritual de busca e seleção.

Paralelamente, os rituais de uso e ressignificação (Perez, 2020) manifestam-se de forma cada vez mais performática, visando a construção e exibição de identidades nas redes sociais. O consumo torna-se visível e compartilhável, amplificado pela midiatização e inserido em processos de circulação onde ser visto consumindo ganha importância exponencial (Trindade, 2021)

A mediação algorítmica atua diretamente na esfera do afeto para construir e manter esses vínculos de sentido, operando dentro de uma lógica publicitária que investe no crescimento sígnico das marcas (as próprias plataformas) e na expansão do sensível para atrair e reter a atenção. As plataformas de streaming valorizam a dimensão emocional das relações de consumo capitalizando sobre o fato de que assistir a narrativas audiovisuais é uma atividade que mobiliza intensamente as emoções humanas. A linguagem publicitária, inerentemente uma linguagem da sedução, opera no terreno do sensório e da corporeidade, permitindo ao indivíduo vivenciar fantasias e emoções mediadas (Jungk, 2024; Perez, 2024).

Essa estratégia de personalização extrema, embora fundamentalmente guiada por objetivos comerciais, ressoa diretamente com o desejo humano de se sentir único, compreendido e reconhecido. O consumo, quando entendido como um ato que promove relações e fomenta afetos, torna-se um dos principais mecanismos contemporâneos de expressão da identidade e do pertencimento cidadão (Perez, 2024). Os algoritmos, ao direcionarem ofertas que parecem alinhar-se perfeitamente à autoimagem idealizada do consumidor, fornecem um caminho aparentemente facilitado e eficiente para a construção dessa identidade no e pelo consumo.

Esta gestão algorítmica do afeto é particularmente eficaz porque opera em um nível pré-reflexivo, modulando o "sensível" (Jungk, 2024). O algoritmo não apenas sugere conteúdo, mas modula o clima emocional do usuário, criando bolhas afetivas que o mantêm imerso no ecossistema da plataforma. A fadiga da escolha é mitigada pela aparente fluidez da recomendação, que se apresenta como um "cuidado" ou uma "descoberta", quando, na verdade, é uma forma sofisticada de governança comportamental. A própria experiência emocional do consumo (a catarse de um drama, a tensão de um suspense) é instrumentalizada, convertendo-se em métrica de engajamento e, portanto, em valor econômico para a plataforma, reforçando a tese da economia da atenção (Lotz, 2017).

Em suma, a mediação algorítmica reconfigura os rituais de consumo ao transformá-los em processos contínuos de dataficação e engajamento. A própria construção do afeto é cooptada por essa lógica e a curadoria personalizada funciona como o principal mecanismo para canalizar desejos e emoções individuais em direção aos fluxos de conteúdo e serviços que sustentam o capitalismo algorítmico. A pertinência deste trabalho reside em analisar criticamente a mediação algorítmica não apenas como uma ferramenta técnica, mas como um dispositivo cultural e simbólico que reorganiza as relações entre sujeitos, marcas e narrativas (Perez, 2016).

O algoritmo, ao articular dados, afetos e consumo, converte-se em um mediador central na economia da atenção (Lotz, 2017), estruturando não apenas o que se consome, mas também como e por que se consome, produzindo uma forma de subjetivação orientada pelo cálculo e pela previsibilidade (Van Dijck; Poell; de Waal, 2018). Ao se apropriar das emoções e dos afetos, o capitalismo algorítmico transforma a esfera sensível em um território de rentabilidade e valorização econômica (Perez, 2024). A promessa de uma personalização significativa revela-se, assim, uma sofisticada estratégia de controle simbólico (Perez, 2020), na qual o usuário acredita exercer sua autonomia e liberdade de escolha, mas permanece sutilmente condicionado por processos invisíveis de vigilância, recomendação e direcionamento de comportamento (Van Dijck; Poell; de Waal, 2018).

Portanto, a mediação algorítmica deve ser compreendida como um fenômeno comunicacional complexo, que integra tecnologia, publicidade e cultura em uma mesma e intrincada dinâmica de poder. Mais do que simplesmente mediar o acesso ao consumo, ela redefine a própria experiência de viver, sentir e desejar no ambiente digital, convertendo o cotidiano em um campo de disputa constante entre a subjetividade individual e a racionalidade econômica das plataformas. Investigações futuras podem se aprofundar nas táticas de resistência e agência dos usuários, que buscam ativamente negociar ou contornar essa governança comportamental.

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Publicado

14-04-2026