Plataformas de IA e as novas mediações da cultura, ética e cidade
Palavras-chave:
Vigilância digital, Arte Generativa, Ética publicitária, Cidade InteligenteResumo
A mesa discute criticamente como as plataformas de Inteligência Artificial (IA) instauram um novo regime de mediação cultural, política e semiótica, no qual a técnica deixa de ser mero instrumento e passa a atuar como agente ativo na produção de subjetividades e significações. Inspirando-se em autores como Bruno Latour e Maurizio Lazzarato, argumenta-se que as mediações maquínicas redistribuem a agência entre humanos e não humanos, configurando uma “produção de subjetividade maquínica” em que a técnica participa da formação dos modos de pensar e agir. Paralelamente, Nick Couldry e José van Dijck destacam que essas plataformas consolidam uma “infraestrutura social da conectividade”, em que a lógica algorítmica estrutura formas de expressão, visibilidade e cidadania. Tal racionalidade, conforme Mark Fisher, reflete o realismo capitalista — a dificuldade de imaginar alternativas fora da lógica tecnoeconômica vigente.
A automação de processos criativos, que torna o algoritmo uma espécie de coautor de obras musicais, visuais ou textuais, inaugura uma estética algorítmica baseada em recombinações estatísticas e critérios opacos, deslocando as noções tradicionais de autoria e originalidade. Essa mediação contínua gera novas formas de controle simbólico e afetivo, alinhadas ao capitalismo de vigilância descrito por Shoshana Zuboff. Além do campo da criação, as plataformas de IA transformam também a cidadania, sobretudo nas “cidades inteligentes”, em que a participação social é mediada por sistemas preditivos e dispositivos de monitoramento que traduzem comportamentos em dados, redefinindo a agência humana como interface algorítmica.
A mesa coordenada propõe refletir, sob uma perspectiva decolonial, sobre as implicações éticas, políticas e culturais desses ecossistemas sociotécnicos generativos, analisando como reforçam dinâmicas de centralização, padronização e extração de dados, ao mesmo tempo em que reconfiguram a criação e a cidadania. As três pesquisas que compõem a mesa abordam dimensões específicas desse fenômeno: (1) a ética na publicidade com IA generativa, problematizando casos como o da plataforma Ad Legends e seus dilemas de autenticidade, privacidade e viés algorítmico; (2) a criação musical e os afetos na arte generativa, examinando os limites da expressão algorítmica e a mercantilização do gosto sob a lógica do Vale do Silício; e (3) a distopia nas cidades inteligentes, que critica o modelo urbano orientado pela eficiência e vigilância, em detrimento da pluralidade e da inteligência cidadã.