Cultura imagética nos streamings: considerações sobre os visualizers de Roteiro Pra Aïnouz, Vol. 2, de Don L
Palavras-chave:
Indústria fonográfica, plataformização, streaming, visualizers, Don LResumo
Partindo da teoria da “destruição criativa”, de Schumpeter (1982), revisitada por De Marchi (2015), pode-se analisar e refletir sobre a reconfiguração da indústria fonográfica brasileira na era digital em um cenário onde se identifica a transição de um modelo de negócios baseado em suportes físicos para a “cultura do acesso e da conexão” (Kischinhevsky, 2015; Jenkins, Green, Ford, 2022). A partir de Vicente, Kischinhevsky e De Marchi (2018), entende-se ainda que a digitalização possibilitou a ascensão das big techs como agentes hegemônicos do mercado musical, promovendo a concentração de plataformas de streaming e instaurando novos desafios relacionados à diversidade musical. Esse processo transformou as formas de criação, circulação e recepção das artes, influenciando profundamente as relações entre artistas, obras e públicos. Complementarmente, refletir sobre as formas audiovisuais ligadas à música implica reconhecer a influência histórica das indústrias fonográfica e televisiva na constituição de regimes de escuta e visualidade que ainda estruturam o consumo contemporâneo. Como sugere Della Vecchia (2020, p. 26), é necessário observar atentamente essas formas culturais para compreender o álbum e o videoclipe como entidades históricas vivas, atuantes nos modos de relação com os conteúdos nas plataformas de streaming. O videoclipe, ao surgir em um contexto de rearranjos midiáticos entre as indústrias fonográfica e televisiva, configurou-se como um meio esteticamente inovador (Della Vecchia, 2020, p. 74), estabelecendo um regime de visualidade que “musicaliza a visão” do espectador (Della Vecchia, 2020, p. 77). Compreender esse percurso permite reconhecer o desenvolvimento de um letramento midiático que articula práticas de escuta e de visualidades, consolidando convenções estéticas e modos de leitura que persistem nas mídias digitais (Della Vecchia, 2020, p. 26-27). Essa permanência evidencia que as novas mídias podem atuar em referência às anteriores, produzindo sentidos a partir de processos contínuos de remediação (Della Vecchia, 2020, p. 27). Assim como o videoclipe nasceu e assumiu uma função simultaneamente promocional e estética, outros produtos derivaram de sua lógica e contribuíram para expandir as formas audiovisuais associadas à música: (i) o lyric video, ao destacar o texto da canção, deslocou o foco da performance para a letra, propondo uma experiência híbrida entre som e leitura; (ii) o videoclipe vertical, desenvolvido para os formatos de stories e reels, reorganizou o enquadramento, a duração e a montagem em função do gesto do usuário e da lógica das redes sociais; (iii) o visualizer, por sua vez, incorpora elementos visuais e loops, enfatizando a dimensão imagética da música e consolidando uma nova estética de consumo. O visualizer é um formato audiovisual que acompanha uma música sem recorrer necessariamente a uma narrativa tradicional. Trata-se, em geral, de vídeos ou animações simples, muitas vezes em looping, que criam uma ambiência visual capaz de complementar a experiência sonora. O formato caracteriza-se pela simplicidade e pela economia de meios, apresentando-se como um registro visual sintético e condensado (Viola, 2021). Trata-se, portanto, de uma produção que se insere em um contexto de transformação das práticas de escuta musical nas plataformas digitais, como registra Vito Soares (2021), diretor dos visualizers de todas as dez faixas do álbum de estreia da cantora mineira Marina Sena, intitulado “De Primeira”, lançado em 2021 em fala a Viola (2021): “As plataformas digitais modificaram a maneira como a gente absorve e consome música. O visualizer agrega e contribui nesse aspecto, expandindo o consumo através desses novos produtos”. Dessa forma, o visualizer configura-se como parte de uma lógica de circulação e visibilidade mediada pelas plataformas, ampliando o espectro da imagem na música, que, apesar de nascer como um formato econômico e ágil, ganha status imagético, sendo adotado inclusive por grandes artistas. Para a jornalista Leïlah Accioly, em declaração a Viola (2021), “o visualizer é meio que um mood, ou seja, um artigo visual que quer promover um estado de espírito, deixar um statement condensado, sintético, que valide a música, em vez de uma elaboração visual dentro de uma linha narrativa”. Por seu formato sintético e acessível, ele passou a integrar o conjunto de linguagens audiovisuais associadas à música contemporânea, consolidando-se como mais uma opção imagética. Vasconcelos (2025) observa que “o visualizer não apresenta uma regra rígida, mas busca manter uma conexão coerente com a mensagem que o artista pretende transmitir através de seu álbum” (Vasconcelos, 2025, p. 24). Nessa coerência entre som e imagem está sua força estética: o visualizer atua como extensão visual do projeto musical, consolidando a identidade e o imaginário do álbum (Vasconcelos, 2025, p. 25). Diante desse cenário, este trabalho parte da provocação de que o visualizer pode ser compreendido como uma mídia emergente na medida em que altera as dinâmicas de produção e de circulação audiovisual na música, transformando o streaming sonoro em um espaço de visualidade. Mais do que um recurso estético ou promocional, o visualizer manifesta uma lógica de consumo cultural que ultrapassa o protagonismo do som, instaurando uma forma de escuta mediada pela imagem. Essa lógica é potencializada pelas próprias plataformas, que incorporam recursos imagéticos como o Canvas do Spotify, função definida “como um loop visual de 8 segundos em formato vertical para preencher a tela, exibido no espaço do ‘tocando agora’ no lugar da capa do álbum, possibilitando ao artista reforçar a identidade visual de sua música e proporcionar maior engajamento com o público” (Vasconcelos, 2025, p. 23) e que cria um ambiente em que a experiência musical se torna também uma experiência visual e performativa. Compreender o visualizer como mídia emergente implica observar como o streaming sonoro assume, cada vez mais, o papel de plataforma visual, reorganizando práticas de criação, distribuição e recepção na cultura digital contemporânea. Por um lado, essa emergência evidencia uma democratização tecnológica, que possibilita aos artistas a criação de conteúdos audiovisuais de baixo custo e de rápida produção. Diferente de um videoclipe tradicional, demandante de planejamento, equipe e orçamento, o visualizer permite fragmentar narrativas visuais a partir de elementos simples ou reutilizados de outras produções, adaptando-os para plataformas digitais. Por outro lado, essa lógica de acessibilidade e experimentação coexiste com a institucionalização do formato, à medida que as plataformas incorporam e monetizam os visualizers, transformando-os em ferramentas de engajamento dentro de suas arquiteturas algorítmicas. Nesse contexto, é possível discutir a emergência do visualizer a partir da noção de plataformização, dataficação e performatividade algorítmica (PDPA), conforme proposta de Lemos (2020). A PDPA caracteriza-se pela captação contínua de dados sobre ações, intenções e emoções dos usuários, convertendo essas informações em perfis proativos para fins mercadológicos, sociais, políticos e culturais. Dimensão que coloca em xeque premissas clássicas da cibercultura, como emancipação, liberdade e acesso ao conhecimento, ao integrar controle e modulação comportamental em escala global e se articula à plataformização das produções culturais. De acordo com Lemos (2023), essas plataformas e seus ecossistemas constituem a infraestrutura da sociedade contemporânea, funcionando não apenas como ferramentas de interação, mas como sistemas que monitoram e controlam ações humanas por meio da dataficação com fins de monetização. Esse processo, que reforça a mercantilização do consumo cultural, evidencia uma tensão: o acesso a conteúdos livres de interrupções publicitárias depende da assinatura de serviços, mostrando como práticas criativas, circulação e experiências estéticas estão intrinsecamente vinculadas a lógicas de exploração econômica e controle algorítmico. Sobre essa dinâmica, D’Andréa (2020, p. 21) a caracteriza como um processo de dependência crescente de setores, como música, filmes, games e turismo em relação às lógicas das plataformas digitais, uma vez que tais estruturas não apenas transformam antigos modelos de produção e negócios culturais, como também possibilitam a rápida circulação de projetos nativos da internet, cuja existência é radicalmente atrelada às dinâmicas das plataformas. Nesse cenário e mesmo atravessados por tais dinâmicas, realizadores culturais e artistas encontram novas formas de contar histórias a partir de uma lógica que, embora fluida e regida pelo algoritmo, não é esvaziada de narrativa nem de sentido — como demonstra o álbum Roteiro pra Aïounz, Vol. 2 (RPA2), do rapper cearense Don L, vencedor do Prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) na categoria “Artista do Ano” em 2021. O caso de RPA2 evidencia como o visualizer se consolida como linguagem própria, tensionando a fronteira entre o que “ilustra” o som e o que apenas “acompanha o ritmo do algoritmo”. A estrutura narrativa do projeto — composta por visualizers de seis a cinquenta e cinco segundos — revela uma estética do fragmento, em que repetição e loop não significam ausência de narrativa, mas uma nova forma de contá-la, como afirma o próprio realizador: “não tinha grana para fazer os visualizers, mas eu tinha que fazer, eu tinha que deixar as imagens acessíveis” (Don, 2021). O projeto visual de RPA2 utiliza a temporalidade como eixo para refletir sobre aspectos sociais do Brasil em seu percurso histórico: cada faixa está situada em um tempo – passado, presente ou futuro – e dialoga diretamente com as letras. Esses visualizers potencializam o debate teórico aqui apresentado a partir de revisão bibliográfica, constituindo-se como um estudo de caso. Nessas produções visuais, pode-se observar como as imagens auxiliam e potencializam a experiência sonora ao retratar e “configurar” o passado como uma memória insurgente, capaz de renovar e interromper o presente. Ironicamente, o debate sobre a “temporalidade” faz-se presente no conteúdo dos visualizers em análise, como reflete-se os desafios e as dinâmicas da indústria fonográfica brasileira em seu trânsito no digital – um efetivo sinal de “novos” tempos.