Pedagogias da água no Ilè Omidayè

(co)autorias curriculantes e práticas educativas decoloniais em uma etnografia na cibercultura

Autores

  • Máira Pereira UFRRJ

Palavras-chave:

Candomblé, Cibercultura, Etnografia, Educação decolonial

Resumo

O presente trabalho tem o objetivo de apresentar as pedagogias da água, vinculadas às (co)autorias curriculantes e outras práticas educativas decoloniais, acionadas por Mãe Márcia d’Oxum, líder religiosa do Ilè Omidayé, nome reduzido do Egbé Ilè Ìyá Omidayè Aṣé Obálayó, terreiro de candomblé localizado no município de São Gonçalo, no Rio de Janeiro. Em iorubá, Omidayè é a água (omi) do mundo em que vivemos (ayè). O terreiro é dedicado ao orixá feminino Oxum, a mãe da água do mundo. De acordo com Mãe Márcia, Oxum não está na água. Oxum é a água. Para ela, Oxum não mora no rio. Oxum é o rio. Encontro inspirações na pesquisa que realizei durante o doutorado[1], que se atualiza em meu pós-doutorado, em andamento. O rio que havia me formado autora da pesquisa me convocava a continuar me aventurando a etonografar em fluxo na cibercultura. Os movimentos e os múltiplos sentidos do rio e a forte simbologia do elemento água, com todas as referências, domínios e atributos que possam ser associados a Oxum, como a fertilidade, o poder feminino, a sabedoria e os mistérios ancestrais, o amor, a alegria, a estratégia, a adaptabilidade, a imprevisibilidade, a fluidez e a capacidade de cuidar, se relacionam com a noção de pesquisa-rio e também com as pedagogias da água praticadas por Mãe Márcia d’Oxum nos projetos culturais realizados no terreiro e em diversas (co)autorias curriculantes. As noções de redes educativas (ALVES, 2003, 2008) e de espaço multirreferencial de aprendizagem (FRÓES BURNHAM, 2000, 2012) foram valiosas para a compreensão do Ilè Omidayè, de seus projetos e das narrativas de seus membros. Pesquisar a experiência viva, pulsante de atores sociais em contextos culturais complexos nesses espaçostempos em articulação na cibercultura – terreiro, cidade e ciberespaço –, requer outras formas de conceber a ciência.

Dedico-me também, a fim de comunicar a pesquisa, a descrever densamente (GEERTZ, 2015) o seu processo, incluindo alguns tropeços, equívocos, dilemas, encantamentos, idas e vindas em suas águas, ora serenas, ora agitadas, ora cristalinas, ora turvas. Não é possível separar a teoria da empiria, em permanente conexão, o que estendo, aprofundo e revitalizo com a oportunidade oferecida por Macedo (2015, 2016) de pensar e operar com a experiência e o acontecimento nos movimentos da pesquisa, dos quais emergem fenômenos e práticas como as pedagogias da água. Mãe Márcia d’Oxum compreende a epistemologia do Candomblé como aquela em que se conhece e em que são realizadas práticas que atravessam os cotidianos do terreiro, a memória, a oralidade, a dimensão do sagrado e os próprios projetos que nascem das questões e demandas desses cotidianos, pois se atualiza com a emergência de novos dilemas, novos projetos e também por meio de novas edições de projetos culturais que se consolidaram. O entendimento das redes educativas pressupõe a existência de uma conexão estreita, indissociável, entre os múltiplos processos e espaçostempos de aprendizagem. Uma rede educativa, como o terreiro, por exemplo, incorpora outras tantas redes como a escola, a cidade e as redes sociais da internet. O conjunto e a intersecção dessas redes exercem papel formativo. Destaco um aspecto relevante e estruturante da pesquisa que é o da implicação (MACEDO, 2012), que remete a movimentos e laços de afetos e de comprometimento com o que e com quem se pesquisa, em suas dores e dificuldades e também em seus contentamentos, conquistas e tantas criações.  No rio que é a pesquisa, implicar-se significa também reconhecer esses mundos de saberes articulados aos seus contextos e com suas redes educativas. A forma de rigor praticada pela etnopesquisadora e pelo etnopesquisador se dá em um mergulho contextualizado e crítico dos significantes da realidade pesquisada, caminhando entre as compreensões dos atores sociais, considerados “cronistas cotidianos do mundo” (MACEDO, 2012, p. 89), capazes de crítica e de elaborar teorizações enraizadas sobre suas realidades singulares. Essas compreensões de compreensões com que a etnopesquisa opera se viabiliza, com uma autoria responsável, por meio da descrição das inteligibilidades sociais produzidas para seus contextos, no encontro de diferentes formas de teorizar o mundo. Os atores sociais muito ensinam no processo da pesquisa e são compreendidos como teóricos de seu mundo, com formulações expressas em suas etnonarrativas. O esforço empreendido no método etnográfico está em sintonia com o desenvolvimento das compreensões de compreensões. Para Macedo de Sá (2012), as compreensões na etnografia “são fruto das nossas criações sobre as criações socioculturais dos outros” (p. 83), sobre eles mesmos e sobre as suas relações. Na etnografia, caracterizada por Geertz (2015) como uma descrição densa, o pesquisador enfrenta, em seus cotidianos no campo, múltiplas estruturas conceituais complexas, muitas delas entrelaçadas umas às outras, “que são simultaneamente estranhas, irregulares e inexplícitas, e que ele tem que, de alguma forma, primeiro apreender e depois apresentar” (GEERTZ, 2015, p. 7). Concordo com Macedo de Sá (2012) quando a autora afirma que nos trabalhos em que se busca a compreensão e a descrição densa dos contextos culturais, deve ser assumida uma perspectiva aberta e vinculante, sendo também fundamental compreender os campos simbólicos dos atores sociais. Assim como Macedo de Sá (2012), também compreendo a etnografia como opção epistemológica, metodológica e política, como uma atitude de pesquisa implicada e como uma experiência aprendente, acontecimental e vinculante (MACEDO DE SÁ, 2012; MACEDO, 2016). Combino em meu modo de desenvolver a etnografia, o mergulho no campo em ambientes on-line e off-line em articulação. Usar terminologias distintas para identificar cada momento, cada uma das etnografias, com ênfase no “lugar” onde se realizam, como práticas apartadas, não me parece necessário, pertinente e produtivo. Dessa forma, assumo o termo etnografia, resgatando seu caráter flexível e passível de combinação com outros métodos e abordagens (FRAGOSO, RECUERO e AMARAL, 2011), em relação de compatibilidade e coerência com a perspectiva epistemológica multirreferencial. Autorizei-me a propor uma etnografia na cibercultura. Reitero minha proposição de uma etnografia na cibercultura inspirada igualmente na noção de espaços intersticiais, definidos por Santaella (2010, p. 99) como “misturas inextricáveis entre os espaços físicos e o ciberespaço, possibilitadas pelas mídias móveis”. Em espaços intersticiais ou híbridos não é preciso sair de um espaço físico para entrar em um espaço digital, uma vez que estamos imersos nesses espaços ubiquamente. Sigo atualizando o meu etnografar na cibercultura no pós-doutorado, considerando novas interrogações e possibilidades. Mãe Márcia d’Oxum, além de cronista cotidiana do mundo, pode ser considerada formadora socioculturalmente referenciada, acionando seus saberes, dispositivos e modos de se relacionar e de ser água. Ela se formou e se forma com o mundo, com o Candomblé, com suas tantas experiências, em muitas redes educativas e com Oxum, fonte de tantas inspirações e princípio cosmológico vinculado ao elemento água. Com suas pedagogias da água, Mãe Márcia me ensinou que tudo é conhecimento e que é preciso pensar como Oxum, que significa pensar como laço, como elo, o que permite, empaticamente, vincular e reunir pessoas para o fazer coletivo e colaborativo em projetos, nos quais se formam aprendendofazendo, na prática, reconhecendo e respeitando diferenças e valorizando causas comuns. Esses projetos e diversas atividades educativas caracterizam-se como atos de currículo, os quais se inserem em uma perspectiva sistêmica e acionalista de concepção de currículo, referindo-se à compreensão da formação como experiência dos sujeitos, sendo considerados potentes dispositivos de formação. O conceito de ato de currículo, que pode ser entendido como um pensar-propositivo, emerge e torna-se denso, como explicita Macedo (2013, pp. 21-22), como criação e como acontecimento. Também destaco o caráter plural de experiências curriculantes relacionadas à emergência dos atos de currículo, instituídas como temporalidades outras, realizações curriculares outras, bricolagens outras (MACEDO, 2013, p. 22). Aciono o conceito de atos de currículo para compreender projetos e demais dispositivos concebidos por Mãe Márcia em interação com outros membros do Ilè Omidayè. Vídeos produzidos por Mãe Márcia com a colaboração de outros membros do terreiro, seus livros, textos, projetos e eventos, campanhas on-line contra a discriminação religiosa, com narrativas, fotografias e imagens diversas disponibilizadas nas redes sociais digitais, podem ser compreendidos como (co)autorias curriculantes. Pretendo compartilhar achados atualizados da pesquisa, que segue em fluxo. Águas que se expandem, com novos dilemas e novas perspectivas.

 

[1] PEREIRA, Máira Conceição Alves. Redes educativas no terreiro Ilè Omidayè: uma pesquisa com os cotidianos na cibercultura. 2018. 291 f. Tese de Doutorado em Educação. Orientação: Stela Guedes Caputo. Faculdade de Educação, Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2018. A tese está disponível no site do Programa de Pós-Graduação de Pós-Graduação em Educação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro – ProPEd/UERJ: < https://www.proped.pro.br/>. Acesso em: 17/10/2025.

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Publicado

14-04-2026