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DA TELA PARA A RUA: AS MUDANÇAS NO USO DO ESPAÇO URBANO PELAS TECNOLOGIAS DE INFORMAÇÃO
Luiz Eduardo de Carvalho Alves

Última alteração: 2019-04-03

Resumo


Este artigo investiga de que maneira as novas tecnologias de informação, principalmente a internet e os smartphones, oriundas da Revolução da Informação, influenciaram a forma como os seres humanos utilizam o espaço urbano que os cerca. Parte-se do princípio de uma atual mudança profunda, comparável às vezes à introdução dos veículos automotores nos grandes centros urbanos após o século XIX.

Um levantamento bibliográfico parece demonstrar um entendimento neste sentido, podendo apontar a autores como Augé (1994), Daroda (2012), Lemos (2010), Lévy (1996; 1999), Lucena (2018), Rolnik (2013), Silva (s.d.), Souza e Silva (2006), os quais trazem novos conceitos a respeito de ”œespaços urbanos e públicos”, ”œespaços virtuais”, ”œespaços híbridos”, ”œcomputação pervasiva” e ”œubíqua”, e os quais escrevem sobre os fenômenos urbanos como as manifestações de junho de 2013 ocorridas no Brasil, ou sobre o fenômeno Pokémon GO.

Pode-se perceber que o espaço público e o espaço virtual, a partir da introdução ao nosso cotidiano de tecnologias móveis, como o smartphone, principalmente, fundiram-se de vez, tornando aquilo que se chama de ”œespaço híbrido”. Esse ”œhibridismo espacial” amplifica o sentimento de pertencimento e experimentação de determinado espaço pelo indivíduo. Essa noção de habitação do espaço da virtualidade real é cada vez mais fácil de se enxergar em ferramentas como o Facebook e o Google Maps ou em aplicativos como o jogo Pokémon GO. Essas ferramentas permitem a interação do internauta com o espaço físico real. O Google Maps é um caso interessante para observar o efeito do espaço real-virtual, considerando que ele apresenta todo o espaço da cidade através de uma tela de computador ou smartphone, permitindo ao usuário que transite pelas ruas sem precisar de fato estar na rua. Já Pokémon GO foi um fenômeno iniciado em 2016, onde teve seu auge de participação, que chamava as pessoas a sair de casa para capturar os pequenos monstros da série da Nintendo. Ele funciona se o jogador anda pelo espaço físico da cidade, jogando por meio de um dispositivo, seja ele tablet ou smartphone.

O impacto que as inovações causam na relação indivíduo com a cidade de residência são objeto principal aqui, sendo percebido através de fenômenos recentes, como os acima mencionados.

ESPAÇO URBANO

O espaço urbano é definido como o espaço que confronta os interesses, onde o indivíduo e seus direitos entram em contato com os dos outros, criando a ideia de uma coletividade e dos direitos desse coletivo. Dessa forma, a história é constantemente moldada para aquela cidade (LUCENA, 2016). Por sua vez, o espaço público não pode ser dissociado do espaço urbano, sendo de posse do poder público e que permite acesso à população (DARODA, 2012). São eles praças, ruas, calçadas, parques e demais (LUCENA, 2016). O espaço público constrói a identidade e a imagem urbana da cidade, sendo representado pela cultura, economia e valores de um lugar. São os espaços livres da urbe que permitem a interação entre as pessoas, o ambiente natural e o ambiente edificado, e constroem a relação do indivíduo com a cidade. A individualidade de cada um se relaciona com esses espaços, atuam como um lugar de encontros e possibilitam aos usuários constantes alterações e reformulações de como vivenciar os espaços (DARODA, 2012).

ESPAÇO HÃBRIDO

A comunicação em formato de rede, onde a internet é a mais famosa, gerou a possibilidade da criação e do desenvolvimento de um novo espaço público, semelhante à ágora, cuja principal característica é o fato de ser híbrido, possibilitando novos espaços para o encontro (SILVA, s.d.). Além da construção de um novo espaço público, as tecnologias de informação e comunicação refletiram ”œnos interesses, nos hábitos e nas expectativas que o usuário tem da cidade; na forma como o usuário atribui e constrói significados aos espaços urbanos.” (DARODA, 2012, p. 13), mudando, inclusive, a maneira de compartilhar e experimentar, de usufruir e de fazer parte do espaço urbano. Nas novas cidades surgidas a partir da utilização da tecnologia para construí-las, percebe-se o surgimento de locais de acesso e controle de informação por redes sem fio, criando zonas de conexão permanentes e onipresentes, chamadas de territórios informacionais (CASTELLS, 1996 apud LEMOS, 2010, p. 157).

A chegada da internet e dos computadores no dia-a-dia das pessoas colocou-as em espaços virtuais. Essa mistura entre espaços virtuais e espaços físicos que as novas redes de comunicação apresentaram é o que se chama de espaços híbridos. A virtualização do espaço altera não somente sua natureza, mas muda o sentido de ”œpresente”, o que gera uma nova forma de experiência (DARODA, 2012, p. 46). Esse novo campo de experiências pode ser experimentado porque o mundo virtual está diretamente conectado ao mundo físico, ao espaço físico. Essa conexão direta é responsabilizada, principalmente, pelo surgimento de tecnologias móveis, como os smartphones, trazendo a possibilidade de estar sempre conectado aos espaços digitais, carregando, literalmente, ”œthe internet wherever we go” (SOUZA E SILVA, 2006, p. 6). Possibilitado pela mobilidade dos usuários conectados às tecnologias móveis, os espaços híbridos emergiram, unificando o físico e o digital num ambiente social. Assim, Daroda (2012, p. 51) afirma que os espaços híbridos são ”œespaços que não são construídos pelas tecnologias, mas sim pela união de mobilidade e tecnologias de informação e comunicação, e materializado pelas relações sociais”, relações, essas, que se desenvolvem simultaneamente nos dois espaços. São as zonas de intersecção entre o ciberespaço e o espaço público (LEMOS, 2010). Esses espaços podem ser observados, por exemplo, em uma praça, que mesmo dotadas de tecnologias (redes Wi-Fi, por exemplo), continuam sendo praças, mas agora são transformadas e adequadas aos novos contextos da cidade e dos cidadãos contemporâneos.

POKEMON GO E GOOGLE MAPS

A noção de que as pessoas habitam o espaço híbrido é cada vez mais visível à medida que as mídias sociais digitais, entre elas o Facebook e o Google, possibilitam e estimulam a utilização do espaço público da cidade. Ademais, aplicativos e jogos voltados para os smartphones com frequência incentivam seus usuários a interagir com o espaço da urbe. O jogo eletrônico Pokémon GO e o aplicativo de geolocalização Google Maps estão entre os casos que evidenciam essa mudança e, por isso, serviram como objeto desta análise.

O Pokémon GO, lançado em agosto de 2016, pela Niantic Inc., é sequência da série publicada pela Nintendo, criada em 1996. Em sua adaptação de TV em animação, o protagonista sai em busca de se tornar o melhor treinador de pokémons do mundo. Para isso, ele sai vagando pelo mundo, passando por várias cidades e por vários ginásios, enfrentando outros treinadores e conquistando insígnias. Durante os episódios, podemos perceber, inclusive, a interatividade do personagem com o espaço público durante toda sua trajetória. O jogo e o expressivo número de jogadores ao redor do planeta levou seus usuários a transitar pelas ruas em função das interações iniciadas no âmbito virtual (LUCENA, 2018). A realidade virtual permitida pelo jogo coloca o virtual no físico, e o físico no virtual, levando o jogador a ”œlugares que não iria sem o mundo virtual, e assim conhecer o real por outros olhos” (idem). Lucena (2018) afirma que o jogo ajudou pessoas com autismo a saírem de casa para caçar os monstrinhos e melhorar seu relacionamento com aqueles ao seu redor. Essa ideia comprova de que os ”œestrangeiros do espaço público”, no caso acima os autistas, ”œpodem vivenciar novas experiências de viver o espaço das metrópoles” (LEMOS, 2010, p. 164).

O Google Maps é uma ferramenta que explica bem o espaço híbrido. Nele é possível, por meio do Google Street View, visualizar um local, uma rua ou uma casa como se estivesse em frente a ela, mesmo estando em frente a uma tela. É a união do espaço físico ao espaço virtual. Esses ”œmapas inteligentes”, como chama Shepard (2011 apud DARODA, 2012, p. 102), representam uma nova forma de se relacionar com o espaço geográfico. Como dito anteriormente, o espaço público é construído pela interação das pessoas entre si e com o ambiente em que estão. Dessa forma, o Google Maps permite que os usuários deixem comentários a respeito de determinada praça, deem uma nota e adicionem fotos de um local. Ao fazer isso, o usuário conta para vários outros sua experiência naquele ambiente. Assim, o usuário transforma também sua percepção e noção de lugar (DARODA, 2012).

Essas novas funcionalidades das tecnologias de informação e comunicação permitiram aos cidadãos da cidade contemporânea uma maneira diferente de utilização do espaço público, vide as manifestações ocorridas no Brasil em junho de 2013, que se apoiou no Facebook para propagar e convidar pessoas para os movimentos. Agora, com o mundo híbrido, há uma nova relação do ambiente físico e do ambiente virtual com o usuário da cidade.


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