ABCIBER | Simpósios e Encontros, ABCIBER XIII - SIMPÓSIO NACIONAL DA ABCIBER 2020

ISSN : 2175-2389
ENTRE A CIÊNCIA E A FORÇA DO TESTEMUNHO: CIRCULAÇÃO DE CONTEÚDOS ANTIVACINA NO YOUTUBE
Isabela Duarte Pimentel

Última alteração: 2021-03-18

Resumo


Isabela Pimentel [1]

Palavras-chave: Youtube, saúde, desinformação

Na era das redes sociais, a existência de sites sobre saúde, grupos e páginas para troca de notícias e experiências tem provocado um verdadeiro dilúvio informacional (LÉVY, 1999).  De um lado, os canais oficiais de comunicação, de outro, novos espaços de troca, debate e informação, nem sempre checada. Do ponto de vista do cidadão, Renard (2007) explica que esse excesso pode levar à ”œautoestrada da desinformação”. Com outra visão, Sunstein (2010) contextualiza esse momento, em que muitos sites se dedicam a publicar boatos como meio de atrair visitantes, espalhando informações infundadas, na tentativa de criar um discurso paralelo sobre a ciência.

Para Difonzo (2009, p.48), os rumores na saúde tendem a nascer em situações que significam uma ameaça real ou potencial ao bem-estar ou à sobrevivência de alguém ou um grupo e assim, tal afirmação ou explicação será considerada importante por aqueles que a discutem.  Transmitidos como fatos verdadeiros, os boatos sobre saúde geram desinformação sobre as questões relacionadas ao tema.

Nesse contexto, diversos autores têm se dedicado a analisar o fenômeno da desinformação e seus impactos sociais na saúde (por exemplo: LEWANDOWSKY; ECKER; COOK, 2012; WARDLE; DERAKHSHAN, 2017;  BENNETT; LIVINGSTONE, 2018), focando, em sua maioria, em como sites não oficiais disseminam notícias falsas sobre saúde, como Leite e Correia (2011), Moretti, Oliveira e Silva (2012) e Alves, G. (2017), no âmbito nacional e Somariva et al. (2018) e Fang et al. (2014) internacionalmente.

Considerando que hoje o Youtube é principal rede social de compartilhamento de vídeos, sendo  acessada por mais de 1,9 bilhão de usuários por mês no mundo, com versões locais em mais de 91 países e que no Brasil, essa plataforma é extremamente popular, já representando o meio preferido do brasileiro para assistir conteúdo em vídeo (THINK WITH GOOGLE, 2018),  essa artigo,  desenvolvido a partir da dissertação defendida em  15 maio de 2020, no âmbito do Programa de Pós-Graduação em Linguagens e Tecnologias da Comunicação (PPGLTCOM) da Universidade Federal do Rio de Janeiro, buscou entender  como os usuários tem consumido conteúdo sem checagem sobre vacinas nas redes sociais, tendo sido escolhido o Youtube como ponto de partida.

Os objetivos especí­ficos foram analisar motivações da não vacinação e insegurança diante dos imunizantes e as razões de compartilhamento desses conteúdos nas redes, checar a quais canais é atribuída mais credibilidade, para delineamento de como ocorre o fluxo de informações entre os grupos antivacina. Foi realizada uma pesquisa qualitativa (YIN, 2015), com entrevistas em profundidade, por meio da amostragem bola de neve (BIERNACKI; WALDORF, 1981). A partir disso, foram propostas estratégias comunicativas para tentar romper o ciclo de viralização dos boatos e fake news, de forma que o conteúdo checado possa ter mais credibilidade perante o cidadão, minimizando assim, os perigos que a desinformação traz à saúde pública, especialmente os riscos da não-vacinação.

 

Youtube e desinformação sobre vacinas

 

A fim de entender melhor como a rede social Youtube tem sido utilizada para divulgação de vídeos sobre ciência e saúde, alguns artigos e estudos recentes foram tomados como referência. Bortoliero e Bienvenido (2017), por exemplo, fizeram  uma pesquisa especí­fica sobre Youtube e saúde, avaliando a credibilidade das informações contidas nos vídeos e classificando-as como úteis ou enganosas e se abordavam uma doença em especí­fico, se reproduziam uma defesa do discurso médico-científico, se continham informações com erro e havia falta de conceitos científicos rigorosos.

MacDonald e Sage (2015) afirmam que o crescimento da popularidade de vídeos contra a imunização se deve a um fenômeno chamado ”œhesitação em relação às vacinas” (vaccine hesitancy), que aborda a relação entre riscos e benefícios, conhecimento e desconhecimento sobre os imunobiológicos e fatores sociais, culturais, econômicos e religiosos. Cuesta Cambra, Cuesta-Díaz e Gaspar-Herrero (2019) aprofundam esse fenômeno e acreditam que essa desconfiança em relação aos imunizantes também se deve ao efeito dos comentários negativos presentes nas mídias sociais sobre a segurança das vacinas e gap na quantidade de informação adequada durante campanhas.

 

vídeos antivacina febre amarela no Youtube

 

Foram analisados os vídeos do Youtube contendo as palavras ”œvacina febre amarela” + ”œveneno mortal” que mais tiveram visualizações durante os dois surtos de febre amarela no Brasil (março/2017 e abril/2018), sendo os critérios para seleção o fato de o vídeo ter sido publicado no período acima, no idioma português, ter comentários habilitados e estar entre os mais populares de acordo com o filtro ”œView count” (taxa de visualização). Após a busca por tais palavras-chave, foram mapeados dez vídeos, cada um deles foi analisado, com as seguintes informações padronizadas: data da postagem, formato médio (entre 4 e 20 minutos), número de visualizações, número de curtidas e descurtidas e seguidores do canal, quantidade de comentários e categoria dos comentários

Para padronizar a análise, foram criadas quatro tags a serem aplicadas nos vídeos, adaptadas com base na classificação proposta pela Agência Lupa de Checagem. Desses dez vídeos selecionados, três foram escolhidos pela pesquisadora para dar suporte na realização das entrevistas em profundidade como forma de comparar em quais canais os participantes tinham mais confiança: um vídeo do Ministério da Saúde[2], um do médico Dráuzio Varela[3] e outro de uma cidadã comum (Patricia Bencardini)[4].  Essa metodologia permitiu entender com mais riqueza anseios e pontos de vista dos entrevistados (YIN, 2015).

Os vídeos foram utilizados como última etapa do processo de entrevista em profundidade: ao final das perguntas do roteiro, eram exibidos aos participantes trechos de até 2 minutos de cada um dos três vídeos. Foram entrevistadas 12 pessoas que não se vacinam, dentre mulheres e homens, de diversos estados brasileiros.

Os resultados apontam aumento da desconfiança nos canais tradicionais e oficiais, atribuição de maior credibilidade a sites ”˜fora do circuito”™ e canais não oficiais no Youtube, além de maior uso do WhatsApp e grupos como fonte primária de informação sobre vacinas. 

Referências

ALVES, G. Cientistas buscam estratégias para lutar contra 'fake news'. Folha de São Paulo, São Paulo, 12 mar. 2017. Disponível em:
https://www1.folha.uol.com.br/ciencia/2017/03/1865611-cientistas-buscam-estrategias-para-lutar-contra-fake-news.shtml. Acesso em: 12 mar. 2017.

BENNETT, W. L.; LIVINGSTON, S. The disinformation disorder: disruptive communication and the decline of democratic institutions. European Journal of Communication, v. 32, n. 2, 2018. Disponível em: http://journals.sagepub.com/doi/abs/10.1177/0267323118760317. Acesso em:  25 ago. 2018.

BIERNACKI, P.; WALDORF, D. Snowball Sampling: Problems and techniques of Chain Referral Sampling. Sociological Methods & Research, v. 2, p. 141-163, November 1981.

BORTOLIERO, S.; BIENVENIDO, L. El rigor científico de vídeos sobre la salud en Youtube. Observatório, v. 11, n. 3, 2017. Disponível em: http://www.scielo.mec.pt/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1646-59542017000300007. Acesso em: 5 jul. 2019.

CUESTA-CAMBRA, U.; CUESTA-DÃAZ, V.; GASPAR-HERRERO, S. Vacunas y anti vacunas en la red social Youtube. Opción, v. 32, n. 9, 2019. Disponível em: https://dialnet.unirioja.es/servlet/articulo?codigo=5891177. Acesso em: 6 jul. 2019.

DIFONZO, N. O poder dos boatos. São Paulo: Campus, 2009.

DIFONZO, N.; BORDIA, P. Rumor Psychology: social and organizational approaches. Washington: American Psychological Association, 2007.

FANG, J.; WANG,W.; ZHAO, L.; DOUGHERTY, E.;  CAO, Y.; LU, C.T.; RAMAKRISHNAN, N. Misinformation propagation at the age of Twitter. Computer, v. 47, n. 12, 2014. Disponível em:

https://ieeexplore.ieee.org/document/6994082/authors#authors.  Acesso em: 10 out. 2018.

LEITE, F.; CORREIA, A. Quality evaluation of websites with information on childhood dental caries in portuguese language. Rev Odonto Ciên., v. 26, n. 2, p. 116-120, 2011.

LEWANDOWSKY, S.; ECKER, U. K. H.; COOK, K. Misinformation, and its correction: Continued influence and successful debiasing. Psychological Science in the Public Interest, v. 13, n. 3, p. 640, 2012. Disponível em:
https://dornsife.usc.edu/assets/sites/780/docs/12_pspi_lewandowsky_et_al_misinformation.pdf. Acesso em: 11 out. 2018.

LÉVY, P. Cibercultura. São Paulo: Editora 34, 1999.

MACDONALD, N. E.; SAGE. Working Group on Vaccine Hesitancy. Vaccine hesitancy: definition, scope and determinants. Vaccine, v. 33, n. 34, 2015.

Disponível em: https://doi.org/10.1016/j.vaccine.2015.04.036. Acesso em: 8 jul. 2019.

MORETTI, F. A.; OLIVEIRA, V. E.; SILVA, E. M. K. Acesso a informações de saúde na internet: uma questão de saúde pública? Revista da Associação Médica Brasileira, v. 58, n. 6, p. 650-658, 2012. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/ramb/v58n6/v58n6a08.pdf. Acesso em: 12 jan. 2018.
RENARD, J. B. Você já sabe da última? Revista PUC RS, Porto Alegre, n. 133, p. 24-25, mar./abr. 2007.
SOMARIVA, S.; CHERYL, V.; MANTZARLIS, A.; UYÊN-LOAN ÄÀO, L.; TYSON, D.M.Spreading the (Fake) News: Exploring Health Messages on Social Media and the Implications for Health Professionals Using a Case Study. American Journal of Health Education, v. 49, n. 4, p. 246-255, 2018. Disponível em: https://www.tandfonline.com/doi/full/10.1080/19325037.2018.1473178. Acesso em: 15 out. 2018.
SUNSTEIN, C. A verdade sobre os boatos. 1. ed. São Paulo: Campus, 2010.
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YIN, R. Estudo de caso: Planejamento e métodos. 5. ed. Porto Alegre: Bookman, 2015. WARDLE, C.; DERAKHSHAN, H. Information Desorder: Toward an interdisciplinary framework for research and policy making. Council of Europe, p. 5, 2017. Disponível em: https://rm.coe.int/information-disorder-report-november-2017/1680764666. Acesso em: 27 ago. 2018.


[1] Mestre em Criação e Produção de Conteúdos Digitais pelo Programa de Pós Graduação em Linguagens  e Tecnologias da Comunicação (PPGLTCOM), professora da Fundação Getúlio Vargas  (FGV) e Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM). Email: isabeladpimentel@gmail.com

[2] Disponível em https://www.youtube.com/watch?v=RWWZieRXaqwAcesso em:10 nov. 2019

[3] Disponível em  https://www.youtube.com/watch?v=KoHm4I_epdQ Acesso em: 10 nov. 2019

[4] Disponível em https://www.youtube.com/watch?v=HDWPA6RlV5cAcesso em: 14 nov. 2019

 


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