ABCIBER | Simpósios e Encontros, ABCIBER XVI - SIMPÓSIO NACIONAL DA ABCIBER 2023

ISSN : 2175-2389
Enfraquecimento da noção de campo do jornalismo e emergência dos ecossistemas digitais em jornalismo
Carlos Eduardo Franciscato

Última alteração: 2023-12-05

Resumo


A presença de uma multiplicidade de atores jornalísticos e não jornalísticos (como profissionais e usuários não especialistas), mídias tradicionais ou novas, estruturalmente organizadas ou pequenas mídias pulverizadas vem tensionando a concepção de “campo do jornalismo” conforme a elaboração oriunda da Teoria dos Campos Sociais de Pierre Bourdieu. Isso se deve, por um lado, porque a obra do autor francês foi constituída em uma época em que as tecnologias da informação digital em rede não eram ainda infraestruturas sociotecnológicas centrais na sociedade. Para compensar isso, esforços tem buscado inserir uma dimensão digital no modelo, como no trabalho de Gracia (2021) ao sugerir um “campo midiático-digital” (CMD).

Por outro lado, a formulação da noção de campo do jornalismo em Bourdieu (1997) prescinde de um estudo empírico sistemático (Maares; Hanusch, 2020). A principal contribuição para uma formulação teórica desta noção parece estar em uma obra posterior e coletiva, Bourdieu and the Journalistic Field (Benson; Neveu, 2005). O campo do jornalismo é visto como um microcosmo dentro de um macrocosmo, e a atividade ocuparia uma posição central por sua capacidade de impor uma visão legitimada do mundo social e atuaria como um mediador entre os demais campos. Bourdieu (2005) reconheceu existir uma fraca autonomia do campo do jornalismo, mas o suficiente para que este campo não possa ser compreendido meramente olhando os elementos e as forças externas a ele.

A noção de campo do jornalismo é útil para analisar relações entre atores envolvidos na atividade e entre campos sociais diversos (como o campo político), entretanto apresenta limitações teóricas e empíricas considerando a diversidade de atores, interações e interdependências que circundam o fazer jornalístico nos ambientes digitais. Este trabalho busca uma alternativa teórica e empírica para a essas limitações ao explorar o conceito de “ecossistema jornalístico” em um cenário de expansão exponencial das tecnologias digitais como infraestruturas de operação e mediação tecnológica das relações políticas, econômicas e socioculturais. O objetivo deste paper é apresentar os resultados de pesquisa, realizada em literatura teórica e estudos empíricos, um conceito de ecossistema jornalístico no ambiente das tecnologias digitais. Por princípio, espera-se que esta noção de ecossistema tenha maior valor explicativo para o jornalismo na digitalização da sociedade.

Buscou-se a aplicabilidade do conceito de ecossistema em uma formulação que contemple, além da inspiração originada na biologia, aspectos adequados aos sistemas técnico-computacionais e processos sociais em uma perspectiva de diversidade e integração nas experiências entre atores, suas interações e contextos. Neste movimento, dialogamos com abordagens oriundas dos estudos de sociologia da ação econômica, particularmente em uma perspectiva sistêmica, sobre fenômenos que comporiam esse ecossistema: de natureza institucional (atores, interações e ambientes) e tecnológica (capacidade para produção de tecnologias digitais, conhecimento e inovação).

A noção de ecossistema, conforme tem sido usada com certa frequência nos diagnósticos do funcionamento da sociedade contemporânea, tem, na sua raiz, a aproximação dos conceitos de ecologia (biologia) e sistema (informacional, computacional). Expressa uma dupla ideia: a) de diversidade e complementaridade de seres que convivem em um espaço comum; b) de ser um ambiente de forte relação de interdependência entre esses seres. Normalmente é adotado para delimitar um tipo específico de ambiente, com seus atores e interações: ecossistema midiático, ecossistema jornalístico, ecossistema educacional, ecossistema de negócios, inovação etc.

Christopher Anderson (2017) analisou o crescimento recente do uso de expressões como “ecossistema midiático” ou “ecossistema de notícias” nos debates acadêmicos. Indica esta presença de “ecossistema de mídia” a partir de 2001, em uma breve indicação de Henry Jenkins (2001) sem, no entanto, conceituá-lo apropriadamente. Anderson procurou então identificar duas perspectivas de análise sobre o ecossistema de mídia, denominadas de abordagem “ambiental” e “rizomática”, a primeira focada principalmente nos elementos e fatores ambientais estruturantes (particularmente tecnológicos) que envolveriam os seres humanos e ampliariam suas capacidades perceptivas e comunicativas; e a segunda direcionada a perceber, à semelhança da metáfora biológica do “rizoma”, o poder de expansão das conexões espalhadas pelas redes fora de determinações estruturais. Anderson, Bell e Shirky (2013) usam o termo “ecossistema jornalístico” para pensar uma configuração em que há uma interdependência e influência mútua entre os principais atores envolvidos na produção e circulação de informações jornalísticas. No caso das organizações jornalísticas, elas seriam afetadas por mudanças em outras partes do ecossistema.

 

Questões metodológicas e resultados da pesquisa

Este é um trabalho de investigação baseado em pesquisa bibliográfica e documental (dados secundários). Esses dados secundários originam-se de 38 relatórios com diagnósticos empíricos sobre transformações contemporâneas do jornalismo produzidos por três institutos internacionais reconhecidos em pesquisa sobre o jornalismo: Reuters Institute for the Study of Journalism (Universidade de Oxford), Tow Center for Digital Journalism (Universidade de Columbia) e Pew Research Center. O período abrange 20 anos de diagnósticos sobre o jornalismo (2004 a 2023) (Quadro 1).

 

Quadro 1 – Relatórios produzidos pelos institutos de pesquisa (2004-2023)

Instituto

Período

Edições

Reuters Institute for the Study of Journalism

 

 

Relatório anual “Digital News Report”

2012 a 2023

12

Relatório anual “Journalism, Media, and Technology Trends and Predictions”

 

2016 a 2023

 

8

 

 

 

Tow Center for Digital Journalism

 

 

Relatório anual “Platforms and Publishers”

2017 a 2019

3

 

 

Pew Research Center

 

 

Relatório anual “State of the News Media”

2004 a 2018

15

Total

2004 a 2023

38

Fonte: elaboração própria

 

Aplicou-se uma análise de conteúdo indutiva (BARDIN, 2003), de perspectiva interpretativa construtiva, a fim de formar um quadro categorial ao longo do processo de pesquisa. A partir da definição dos relatórios como unidades de análise, foram definidas as unidades de registro (os elementos a serem estudados). O objetivo das buscas nos textos dos relatórios era encontrar o termo “ecosystem” (unicamente em língua inglesa) e seus correlatos (como “news ecosystem”). O(s) parágrafo(s) em que ele apareceu foram também extraídos para dar contexto de uso e revelar os sentidos, características e noções aplicadas. A leitura da íntegra dos 38 relatórios e contagem direta levou a um registro total de 104 aparições do termo “ecosystem” em diversas aplicações, que foram reunidas em grupos que expressassem um sentido predominante de uso: ecossistema jornalístico (46), ecossistema (19), ecossistema informacional (11), ecossistema midiático (10), ecossistema digital (8) e ecossistema de plataformas (6), entre outros.

A pesquisa passou então a explorar as características desses ecossistemas construídos em ambientes digitais. Foram extraídas expressões, ideias, descrições e análises que, sistematizadas em tópicos com maior poder explicativo, pudessem funcionar como elementos descritivos dos ecossistemas jornalísticos. Foram identificados seis principais elementos descritivos: a) um ecossistema admite uma diversidade de modelos de mídia e de jornalismo; b) mediações tecnológicas compõem a infraestrutura dos ecossistemas; c) há uma forte presença estrutural das plataformas digitais; d) os ecossistemas estão em mudança e em crescimento; e) interação, visibilidade e engajamento são fontes de monetização; f) as vulnerabilidades dos ecossistemas são preocupantes.

 

Componentes de um ecossistema jornalístico no ambiente digital

Durante a análise dos relatórios, identificamos indicadores sobre a composição de um ecossistema jornalístico no ambiente digital. Realizamos então um esforço descritivo e interpretativo para identificar essas pistas e características para formular uma proposta de 9 componentes dos ecossistemas jornalísticos, quais sejam:

1) Os atores do ecossistema

2) Interações, relações sociais e econômicas e ambientes sociais

3) Produtos e processos jornalísticos ou midiáticos

4) Características dos públicos/audiências

5) Tecnologias e ferramentas digitais e inovação tecnológica

6) Valores institucionais do ecossistema

7) Processos estruturais de médio e longo prazos

8) Fontes de financiamento, modelo de negócio e mercado

9) Presença de elementos destrutivos ao ecossistema

 

Ou seja, pensar um ecossistema jornalístico em ambientes digitais demanda: compreender o perfil e da diversidade de atores (individuais ou institucionais); verificar os tipos de redes de relações (ligações) que estabelecem entre os atores; observar a qualidade das interações abertas ou fechadas (contratos, fomentos etc) com grupos diversos; perceber como os atores conseguem atuar de forma complementar para a geração e difusão de práticas, valores, conhecimentos e inovações jornalísticas; e revisar as fronteiras/limites físicos e simbólicos de um imaginado campo do jornalismo considerando as relações entre a diversidade de atores que transitam por ambientes comunicacionais digitalizados.

 

Referências:

 

ANDERSON, c. w.; BELL, E.; SHIRKY, C.. Jornalismo pós-industrial: adaptação aos novos tempos. Revista de Jornalismo ESPM, Nº 5, abr-jun 2013, p. 30-89.

ANDERSON, C.W. Media Ecosystems: Some Notes Toward a Genealogy of the Term and an Application of it to Journalism Research, 2017.

BARDIN, L. (2003). Análise de conteúdo. Lisboa: Edições 70.

BENSON, Rodney; NEVEU, Erik (eds). Bourdieu and the Journalistic Field. Cambridge: Polity Press 2005.

BOURDIEU, Pierre. Sobre a Televisão. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1997.

BOURDIEU, Pierre. The political field, the science field, and the journalistic field. In: BENSON, Rodney; NEVEU, Erik (eds). Bourdieu and the Journalistic Field. Cambridge: Polity Press 2005, p. 29-47.

GRACIA, Juan Pecourt. El campo mediático-digital y la diferenciación social. Política y Sociedad (Madr.), 58(1), e69007, 2021, p. 1-11.

JENKINS, Henry. Cultura da Convergência. São Paulo: Aleph, 2001.

MAARES, Phoebe; HANUSCH, Folker. Interpretations of the journalistic field: A systematic analysis of how journalism scholarship appropriates Bourdieusian thought.  Journalism, 2020, p. 1-19.


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