Gênero e Tecnologias Digitais em Maputo: desigualdades e oportunidades de acesso
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| 1. | Título | Título do documento | Gênero e Tecnologias Digitais em Maputo: desigualdades e oportunidades de acesso |
| 2. | Autor | Nome do Autor, afiliação institucional, país | Camila Rodrigues Pereira; Universidade Federal do Pampa; Brasil |
| 3. | Assunto | Área(s) do Conhecimento | |
| 3. | Assunto | Palavras-chave(s) | |
| 4. | Descrição | Resumo | O presente trabalho é resultado de uma pesquisa etnográfica realizada com mulheres que vivem na cidade de Maputo, capital de Moçambique. Como tema, a pesquisa visa debater sobre gênero e tecnologias digitais, com o objetivo de refletir sobre desigualdades e oportunidades de acesso entre as mulheres do país. Ao longo da pesquisa, que iniciou com trabalho de campo presencial, em agosto de 2019, e passou para um segundo momento de etnografia para a internet (HINE, 2015), entre os anos de 2020 e 2023, foram realizadas observação participante, observação nas mídias sociais e entrevistas em profundidade (presencialmente e através das plataformas Google Meet e WhatsApp). Como referencial teórico a pesquisa aborda, principalmente, estudos sobre gênero e consumo de tecnologias. Refletir sobre gênero a partir de um contexto cultural específico se faz importante para esta pesquisa porque o uso das tecnologias pelas mulheres, assim como cada atividade exercida por elas, é distinto e está relacionado à compreensão do que é ser mulher e aos múltiplos sistemas de opressão que se cruzam em meio a essa identidade, como raça, classe e sexualidade. Pesquisas sobre o uso de tecnologias móveis por mulheres (MILLER ET AL., 2019), afirmam que os celulares, os smartphones e as mídias sociais, sozinhos, não são mais libertadores ou patriarcais. O uso de tecnologias por mulheres pode tanto auxiliar na vida cotidiana, como pode dificultar a rotina e reforçar padrões de feminilidade. Em Moçambique a conexão ainda é uma realidade acessível para poucos, apesar de o acesso à internet ter aumentado nos últimos anos. Os números vêm crescendo a cada ano, segundo o último Censo de Moçambique, de 2017[1], pouco mais de 6% da população acessava a internet. Nessa pesquisa a maioria dos usuários se encontrava em Maputo, onde está localizada a capital do país, e eram homens. Já pesquisa publicada em 2021 pelo Data Reportal[2] aponta que 21,2% dos moçambicanos acessam, ou acessaram, a internet em 2021. O acesso à internet e as mídias sociais é feito, principalmente, através de smartphones e de internet 3G, pois usuários com redes Wi-Fi são minoria no país. O projeto MUVA Tech divulgou, em abril de 2021, que somente 1%[3] das famílias no país possui notebook (laptop ou computadores portáteis). Ainda que os usuários de smartphones e mídias sociais estejam em uma crescente, Moçambique possui uma das menores taxas de penetração do telefone móvel e de Internet na África, segundo Research Report de 2020[4]. A lacuna de gênero nesse acesso também foi apontada pela mesma pesquisa, pois do universo de moçambicanos que acessam a internet, 50% a mais são homens (sendo 14% dos 21% dos usuários de internet). A investigação publicada pelo Research Report (2020) constatou que a lacuna de gênero relacionada ao consumo de celulares, computadores e internet ocorre, principalmente, por cinco motivos: normas sociais, expectativas dos pais, pobreza de tempo, mobilidade e recursos econômicos. Inicialmente, as normas sociais foram mencionadas através de uma ideia de que as tecnologias são para os meninos e não para as meninas. Ligada a essa primeira razão, a segunda - expectativa dos pais – é apontada pelos interlocutores da pesquisa: “Há pais que compram computadores e os dão aos filhos homens, mas não às filhas. Isso significa que as mulheres não os usam e não aprendem a usar”. Associada a isso, a pobreza de tempo foi apontada como uma terceira causa para o gap de acesso. Com a responsabilidade diária voltada as tarefas domésticas: cozinhar, limpar, cuidar das crianças, entre outras, sobra pouco tempo para as mulheres aprenderem a usar a internet, o computador e o celular. Esse tempo gasto com tarefas limita as mulheres não só de aprenderem e usarem as tecnologias, como também de trabalharem fora e ganharem dinheiro para ter acesso a esses dispositivos. O fator Recursos econômicos, apontado também como um dos causadores da lacuna de gênero no acesso, vai ao encontro da falta de tempo: “A falta de oportunidades econômicas para as mulheres jovens significa que elas têm menos probabilidade de ter acesso aos recursos necessários para pagar por tecnologia aprimorada ou acesso digital”. A mobilidade, associada a questões geográficas, é igualmente uma das causas que dificultam o acesso de meninas e mulheres às tecnologias. As áreas rurais e periurbanas do país não possuem espaços com Wi-Fi. Nas áreas urbanas, por outro lado, há determinados locais que disponibilizam o acesso à rede, como jardins botânicos, campus universitário, estabelecimentos privados. Nesse sentido, se os jovens não possuem recursos financeiros para comprar dados móveis para seu smartphones, ou eles ficam desconectados, ou precisam viajar até uma região mais central para acessar uma rede Wi-Fi disponível, e esse deslocamento é mais restrito para as mulheres, que não se sentem protegidas em grandes espaços públicos. Somado aos cinco fatores encontrados na pesquisa, acrescento um sexto elemento observado em meu campo, que contribui para o aumento da lacuna de gênero no acesso: a desaprovação de namorados e maridos. Quando estava em Maputo, escutei universitários falarem sobre a proibição de celulares para as esposas quando casassem. Um jovem morador da residência universitária, depois de assistir a uma palestra que ministrei, sobre o consumo de smartphones por mulheres brasileiras, relatou que, depois de me ouvir, começou até a “pensar em deixar” sua mulher ter um telefone quando casar. O Research Report (2020) também analisou fatores educacionais que influenciam no acesso às tecnologias. Entre os países da África Subsaariana, Moçambique possui a menor taxa de participação de meninas no ensino secundário e pós-secundário. Com menos acesso à educação, os níveis de alfabetização e alfabetização digital são menores se comparado aos homens. As participantes da pesquisa relataram que foi apenas no ensino secundário ou pós-secundário que puderam ter acesso a um computador e aprendizado sobre o mundo digital. Para aquelas que não possuem recursos e acesso ao ensino médio, o mundo digital está fechado. Em Moçambique, como apontado anteriormente, o acesso a internet é feito, principalmente, através de 3G. Os megabytes para conexão com a internet são comprados aos poucos, conforme se tem meticais (moeda de Moçambique) para a recarga do celular. A cada compra de megas, é possível acessar um pouco de conteúdo e, em função disso, as mídias sociais mais utilizadas no país são o WhatsApp e o Facebook, porque consomem menos dados móveis. Alima, participante da pesquisa, de 38 anos, por exemplo, ganha um salário mínimo por mês – cerca de 4 mil meticais – e geralmente coloca 150 meticais de crédito por mês em seu celular. Com esse valor ela consegue comprar 20 megas de internet, o que acaba, por vezes, em uma semana de uso. Com esses megas Alima conta que pode usar o WhatsApp e o Facebook, no máximo, uma hora por dia e que, quando quer escutar músicas no YouTube, seus megas permitem ouvir duas ou três canções. O aumento do acesso à tecnologia não significa diminuição de desigualdade social garantida (MILLER ET AL., 2019), pois mesmo que as pessoas tenham acesso, permanecem as desigualdades cotidianas e de conexão. A quantidade de conteúdo disponível na internet é desequilibrada, seja pela quantidade de megabytes de internet necessários para o acesso, seja pela capacidade de memória do telefone celular ou pela quantidade de conteúdo disponível no idioma local. Por exemplo, moçambicanos que falam apenas as línguas maternas do país, mesmo tendo acesso a internet, não têm a mesma quantidade de conteúdo disponível do que aqueles que falam inglês, português e outros idiomas com mais produção de conteúdo acessível online. Para Benjamin (2019) as novas tecnologias refletem e reproduzem as desigualdades já existentes, apesar de serem promovidas e percebidas como mais progressivas do que os sistemas discriminatórios anteriores. A autora argumenta que as tecnologias possuem desigualdades codificadas e que as soluções tecnológicas muitas vezes podem esconder, acelerar ou até mesmo aprofundar a discriminação. Apesar dessas considerações, as mídias sociais podem ser vistas como um local para cooperação e para melhoria da vida financeira, que fornece oportunidade para compartilhar informações relacionadas ao mundo do trabalho e da educação não tradicional. Em Maputo, analisei que as mídias sociais são muito utilizadas para “fazer negócios”: para aprendizado, para compra e venda de produtos alimentícios, roupas, celulares, serviços, etc. Soninha, interlocutora da pesquisa, de 43 anos, utiliza o celular para conseguir novas oportunidades de trabalho e para aprender a criar produtos para vender. Além disso, ela assiste a vídeos de culinária para descobrir novas receitas e para vender os pratos que produz. Para a interlocutora as mulheres moçambicanas usam muito as mídias sociais para aprender e empreender. Como diz Soninha: “Usam a seu favor”, para estudar, crescer, divulgar seus trabalhos e vender seus produtos. Posto isso, considera-se que a expansão das tecnologias, dos smartphones e das mídias sociais pode não ter, muitas vezes, impacto sobre a desigualdade off-line. Porém, a oportunidade de acesso por si só já representa uma forma de maior igualdade em termos simbólicos, à medida que o conteúdo compartilhado nesses meios reflete, cada vez mais, a diversidade cultural do nosso mundo (MILLER ET AL., 2019). A lacuna de gênero no acesso à tecnologia é grande e ainda é longo o caminho para uma igualdade de acesso entre homens e mulheres em Moçambique. Contudo, para as mulheres que estão conectadas, os smartphones e as mídias sociais tornaram-se uma necessidade, as quais elas consideram que trouxe mudanças e possibilidades para suas vidas. As tecnologias digitais possibilitam, às mulheres, um mundo de informações e transformações, e permitem que elas mostrem, também, Maputo e Moçambique para o mundo.
Palavras-chave: Gênero; Tecnologias digitais; Mulheres moçambicanas; Desigualdades; Etnografia. Referências: DATA REPORTAL MOZAMBIQUE, 2021. Disponível em: <http://www.datareportal.com/reports/digital-2021-mozambique?rq=mozambique> Acesso em: outubro de 2021.
BENJAMIN, Ruha. Race After Technology: Abolitionist Tools for the New Jim Code. Medford: Polity Press, 2019. HINE, Christine. Ethnography for the internet: Embedded, Embodied and Everyday. London: Bloomsbury Academic, 2015. MILLER, Daniel; COSTA, Elisabetta; HAYNES, Nell; MCDONALD, Tom; NICOLESCU, Razvan; SINANAN, Jolynna; SPYER, Juliano; VENKATRAMAN, Shriram. Como o mundo mudou as mídias sociais. Londres: UCL Press, 2019. RESEARCH REPORT. Understanding the Digital Gender Gap in Urban Mozambique - Moving Beyond Digital Access to talk about Usage, 2020. Disponível em: <http://www.datareportal.com/reports/digital-2021-mozambique?rq=mozambique> Acesso em: outubro de 2021. [1] Dados disponíveis em: <http://www.verdade.co.mz/newsflash/68535-acesso-a-internet-triplicou-em-mocambique> Acesso em: março de 2021. [2] Dados disponíveis em: <http://www.datareportal.com/reports/digital-2021-mozambique?rq=mozambique> Acesso em: outubro de 2021. [3] “In many countries, computers and internet access are already a key part of everyday life that we cannot imagine doing without. In other countries, internet access remains as low as 10 %. This is the case in Mozambique, where only 1% of households have a laptop”. Disponível em: <https://muvamoz.co.mz/bridging-the-digital-gender-gap-in-urban-mozambique-insights-from-the-muva-tech-project/?lang=en> Acesso em: outubro de 2021. [4] “Quantitative research around digital access shows a high level of gender disparity in both mobile phone and internet access, with Mozambique having the second highest gender gap in Africa (after Rwanda)”. Research Report: Understanding the Digital Gender Gap in Urban Mozambique - Moving Beyond Digital Access to tal about Usage, 2020. |
| 5. | Editora | Editora, localização | |
| 6. | Contribuidor | Patrocínio | CAPES |
| 7. | Data | (YYYY-MM-DD) | 2023-12-05 |
| 8. | Tipo | Situação & gênero | Documento avaliado pelos pares |
| 8. | Tipo | Tipo | |
| 9. | Formato | Formato do Documento | |
| 10. | Identificador | Identificador Universal Único (URI) | https://abciber.org.br/simposios/index.php/abciber/abciber16/paper/view/2136 |
| 11. | Fonte | Título da Revista/conferência; V. N. ano | Simpósio Nacional da ABCiber (edições 2023, 2022, 2021, 2020, 2018); ABCIBER XVI - SIMPÓSIO NACIONAL DA ABCIBER 2023 |
| 12. | Idioma | Português=pt | pt |
| 13. | Relacionamento | Docs. Sups. | |
| 14. | Cobertura | Localização geográfica, cronológica, amostra (gênero, idade, etc.) | |
| 15. | Direitos | Direito autoral e permissões | Autores que submetem a esta conferência concordam com os seguintes termos: a) Autores mantém os direitos autorais sobre o trabalho, permitindo à conferência colocá-lo sob uma licença Licença Creative Commons Attribution, que permite livremente a outros acessar, usar e compartilhar o trabalho com o crédito de autoria e apresentação inicial nesta conferência. b) Autores podem abrir mão dos termos da licença CC e definir contratos adicionais para a distribuição não-exclusiva e subseqüente publicação deste trabalho (ex.: publicar uma versão atualizada em um periódico, disponibilizar em repositório institucional, ou publicá-lo em livro), com o crédito de autoria e apresentação inicial nesta conferência. c) Além disso, autores são incentivados a publicar e compartilhar seus trabalhos online (ex.: em repositório institucional ou em sua página pessoal) a qualquer momento antes e depois da conferência. |