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Comunicação debate a antropotécnica de Sloterdijk: Regras à incubadora biotecnológica do pós-humanismo
Luis Octavio Gabatelli

Última alteração: 2019-03-25

Resumo


Objeto de estudo      
Após 21 anos, a tese debatida incialmente pelo filosofo alemão Peter Sloterdijk continua pertinente: num cenário em que a biotecnologia emprega instrumentos cada vez mais acentuados nas ciências e na sociedade contemporânea, quais são as regras antropotécnicas que irão determinar o futuro do homem? Primeiramente, partimos desta questão para estruturar neste trabalho duas frentes teóricas: 1) A discussão do conceito de antropotécnica, a geração de técnicas de adestramento e melhoramento do homem pelo próprio homem, e do declínio dos projetos humanistas discutidos pelo filósofo alemão Peter Sloterdijk; e 2) O vínculo dos conceitos de Sloterdijk, principalmente no que concerne ao aparelhamento biotecnologia no ser humano, com a análise de propósitos pós-humanista.     
Seguindo a articulação dessas duas diretrizes, propomos como analise final um alargamento reflexivo entre a antropotécnica de Sloterdijk e a discussão do pós-humanismo dentro da Comunicação, tendo em vista que gradualmente o tema sendo discutido no campo comunicacional através de pesquisas sobre tecnologias, cibercultura e interação homem-máquina.
No que concerne a revisão do pensamento antropotécnico de Sloterdijk, incluiremos o os embates ocorridos no final dos anos 1990 deste filósofo com Jürgen Habermas e o reexame que Sloterdijk faz ao Humanismo através de sua leitura crítica em Heidegger, Nietzsche, Foucault e Platão. Num segundo momento, apontamos conceituações sobre projetos pós-humanistas e a relação dessas propostas com a biotecnologia aparelhada na criação antropotécnica, que rompe diretrizes orgânicas e encontrar na esfera artificial e tecnológica a ideia de melhoramento do ser humano. Por fim, por meio da revisão de pesquisas e novos apontamentos teóricos, inserimos o espaço mais proeminente da Comunicação nesta análise, preconizando ao campo comunicacional um esforço de ampliação de estudos sobre o tema.

Justificativa
Por meio de pesquisas e publicação de livros, no decorrer nas últimas décadas, o campo da Comunicação ampliou o escopo de análises e teorias. Nesta perspectiva, destaca-se a promoção de objetos de estudos que direcionam problemáticas em relação ao emprego e efeitos de instrumentos tecnológicos contemporâneos, em especial na Cibercultura e na relação homem-máquina, sobretudo ressaltando as implicações e potencialidades da inteligência artificial. Na direção desses temas, o pós-humanismo encontra no campo da Comunicação uma parcela significativa de referências, seja na compreensão conceitual sobre o que é o pós-humano e na interação do corpo humano com objetos tecnológicos, muitas vezes até envolto em produções de entretenimento e arte, como os games. Até mesmo no Jornalismo, vale acrescentar, inúmeras pesquisas contribuem para uma concepção que repercute o pós-humanismo na produção, veiculação e no consumo de notícias, partindo da análise da relação dos homens com dispositivos tecnológicos digitais, principalmente os aparelhos móveis, de comunicação ubíqua, como os wearables.  No entanto, existe um terreno aberto e convidativo à produção de novos trabalhos sobre o tema, pois, como mencionamos, a escala de estudos sobre pós-humanismo ainda está em desenvolvimento no campo da Comunicação, somando-se ainda ao contexto de que pesquisadores da matriz comunicacional necessitam, por imposição da matéria de estudo, compreender campos, disciplinas e áreas de pesquisas que dialogam com tecnologia, biologia, as ciências cognitivas, Ciência da Informática, cibernética, dentre outras. Neste sentido, este trabalho justifica a relevância de ampliar os estudos do pós-humanismo na Comunicação, indicando uma contribuição intermediaria na filosofia contemporânea alemã de Peter Sloterdijk, que embora pouco conhecido na Comunicação, propõe pensar as questões da biotecnologia e tenciona, de modo indireto, refletir o pós-humanismo em outra perspectiva: posto que o humanismo tem seu fim, quais serão as regras antropotécnicas que irão definir o uso da biotecnológica em seres humanos? A questão, formulada há duas décadas, ainda se faz pertinente e demanda, em sua compreensão mais exata, os caminhos que serão determinantes para o futuro da espécie humana ou pós-humana.       
Assim, além de analisar a crítica de Sloterdijk ao humanismo, suas prerrogativas sobre antropotécnica e a conexão com a biotecnologia e o pós-humanismo, entendemos que este trabalho visa configurar o campo da Comunicação como um centro participativo e colaborativo para este debate.         

Revisão bibliográfica
No que concerne à crítica de Peter Sloterdijk ao humanismo e suas conceituação de antropotécnica, a revisão bibliográfica deste trabalho tem como referência a obra mais importante do próprio autor sobre o tema: ”œRegras para o parque humano: uma resposta de Heidegger sobre o humanismo” (2000). Para esta formulação, abrigamos ainda como suporte teórico duas obras de Paulo Ghiraldelli Júnior: o introdutório ”œ10 lição sobre Sloterdijk (2018) e ”œPara ler Sloterdijk” (2017), livro que discute de maneira mais abrangente os conceitos-chave do filósofo alemão. Ainda sobre a obra de Sloterdijk, quatro trabalhos (MARQUES, 2002; MARTINS, 2009; MARTINS, 2014; SILVA, GLOECKNER, 2014) analisam a antropotécnica e crítica ao humanismo na visão revisionista e crítica do filósofo alemão em Platão, Nietzsche, Heidegger e Foucault.         
Na revisão bibliográfica sobre pós-humanismo e a biotecnologia, recorremos neste estado de arte aos textos clássicos e comumente reconhecidos no campo da Comunicação, entre eles: ”œCultura e artes do pós-humano: da cultura das mídias à cibercultura” (2003) de Lucia Santaella”, ”œNosso futuro pós-humano: consequências da revolução biotecnológica” (2003) de Francis Fukuyama, ”œPós-humanismo: as relação entre o humano e a técnica na época da redes” (2010), organizado por Massimo Di Felice e Mario Pireddu e ”œO futuro da natureza humana: a caminho de uma eugenia liberal?” (2004) de Jürgen Habermas.
Acrescentamos mais um conjunto de obras que problematização a questão do pós-humano, da biotecnologia, da relação homem-máquina: ”œO homem pós-orgânicos: a alquimia dos corpos e das almas à luz das tecnologias digitais” (2015), de Paula Sibila e ”œFilosofia da mente, ciência cognitiva e o pós-humano: para onde vamos?” (2015), organizado pelas pesquisadoras Maria Eunice Quilici Gonzalez, Monica Aiub e Mariana Cláudia Broens.
Na ponte de discussões sobre pós-humano e a comunicação, insere-se ainda os textos relevantes de Francisco Rüdiger (2016) e de Sebastião Squirra (2016; 2017). Por fim, embora sejam tratados dentro de uma diretriz mais comercial e menos academicista, as obras ”œTechnofutures: como a tecnologia de ponta transformará a vida no século 21” (2001) de James Canton e ”œA quarta revolução industrial” (2016) de Klaus Schuwab dedicam capítulos sobre biotecnologia que são interessantes para pensarmos sobre a temática e problemáticas deste trabalho.


Palavras-chave: Antropotécnica; Biotecnologia; Peter Sloterdijk; Pós-Humanismo; Comunicação maquínica.   


Palavras-chave


Antropotécnica; Biotecnologia; Peter Sloterdijk; Pós-Humanismo; Comunicação maquínica.