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A IMPLOSÃO DO SENTIDO: ESTUDO SOBRE FAKE NEWS NA ELEIÇÃO PRESIDENCIAL DE 2018
Deusiney Robson de Araujo Farias, Tatiane Moreira Brandão, Fernanda Porchat, Caroline de Oliveira Magalhães Cucilho

Última alteração: 2019-03-25

Resumo


RESUMO EXPANDIDO

A cibercultura revelou nos últimos anos fenômenos capazes de mudar o rumo político e social de comunidades, cidades e até países. A influência de informações falsas, originariamente denominadas fakenews, e de conteúdos audiovisuais ou de imagens trucadas, comumente chamados de memes, tem sido constantemente investigado por várias áreas do conhecimento, especialmente, após as eleições presidenciais do EUA, em 2016. É fato que esses fenômenos têm se replicado cada vez mais por conta da ampliação e do uso massivo das redes sociotécnicas e das mídias digitais. Essas estruturas facilitam a prática do "compartilhamento" de conteúdo dentro da própria rede do "usuário", sem qualquer filtro ou análise a priori.

No Brasil, as fake news foram decisivas para o resultado das eleições de 2018. Este artigo, visa apresentar resultados obtidos a partir de uma pesquisa desenvolvida em um grupo de iniciação científica da Universidade Nove de Julho, que tinha entre os objetivos, compreender a influência das fake news no processo decisório do voto nas eleições presidenciais de 2018 e apurar os efeitos deste fenômeno.

O objeto de estudo do grupo tornou-se muito maior do que se imaginava a priori. Por isso, a metodologia precisou de adequações, bem como o objeto precisou de um recorte maior para que houvesse ganho qualitativo na análise do conteúdo coletado. Por meio da observação participante em grupos da rede WhatsApp no segundo turno das eleições presidenciais, foi possível perceber os rastros deixados pelas informações inverídicas propositalmente compartilhadas para influenciar os participantes. A quantificação e análise subjetiva dessas informações, a partir de categorias pré-definidas no próprio estudo do grupo, especialmente, tendo o pós-moderno e a cibercultura como ponto central e Jean Baudrillard (1991) como principal referencial teórico, permitiram que este trabalho tivesse como resultado a discussão as três hipóteses levantadas por Baudrillard (1991) no capítulo Implosão do sentido nos media na obra Simulacros e Simulações.

Antes da análise dos dados e informações obtidas por meio da observação participante, para um aprofundamento maior na temática, o grupo fez o levantamento do estado da arte por meio de bibliografia recente e documentários. Os resultados serão apresentados por meio deste artigo.

Segundo o dicionário britânico Collins Dictionary, o termo fake news significa ”œfalse, often sensational, information disseminated under the guise of news reporting" (COLLINS) ou seja: ”œinformações falsas, muitas vezes sensacionalistas, disseminadas sob o disfarce de reportagens”. Muitas páginas na internet foram criadas nos últimos anos com o objetivo de disseminar um conjunto de informações falsas, com teor sensacionalista, para obter audiência e consequentemente obter ganhos financeiros. Com layout e design inspirados ou até mesmo idênticos aos grandes portais do jornalismo, muitas dessas páginas foram responsáveis pelas fake news propagadas nas eleições do EUA de 2016, no Brexit e nas eleições brasileiras de 2018. Considerada a palavra do ano pela editora Collins em 2017, conforme cita a matéria feita pelo The Guardian (FLOOD, 2017), pesquisadores monitoraram mais de 4,5 bilhões de palavras na internet e em redes sociais, constatando o crescimento de 365% do termo, principalmente após as eleições americanas de 2016.

O fenômeno das fake news torna-se maior a partir da aliança com outro fenômeno, especí­fico da cibercultura, o compartilhamento desenfreado de conteúdo por meio das redes sociotécnicas, auxiliado pela disseminação tecnológica. Contudo, não é de hoje que se produz conteúdo falso na internet. A manipulação, a política e a mentira sempre caminharam juntas ao longo da história, tanto justificando ações, bem como mantendo o poder nas mãos de uma determina elite. O que mudou nessa tríade foi a velocidade, o alcance e as proporções com que a manipulação e a mentira vêm sendo utilizadas para beneficiar determinados atores do campo político.

A Web foi criada para ser um espaço de compartilhamento de informações, na qual a liberdade de discursos deveria ser protegida[5], no entanto, tornou-se um ambiente de disseminação de desinformação, um ambiente no qual determinadas formas de controle tornaram-se essenciais, por conta da ação de pessoas mal intencionadas. Tornou-se impossível ter controle daquilo que é inserido no ciberespaço; isso torna a internet, considerando Surface Web e Deep Web, terreno fértil para a disseminação de informações e para a prática de atos ilegais.

A tecnologia trouxe um novo sentido à informação e à comunicação. O capitalismo tem tido uma parcela significativa na intensificação do imediatismo na interlocução entre os indivíduos, na aceleração das percepções e até mesmo no campo jornalístico. Com as redes sociotécnicas as urgências alcançam novas instâncias, tanto na prática jornalística quanto no compartilhamento de informações não verificadas. Para demonstrar que os princípios do capitalismo podem ser causa da intensificação da divulgação das fake news, possivelmente, sem até mesmo ligações com o campo político, este artigo traz o documentário Fake News: Baseado em fatos reais da GloboNews, como fundamento, especialmente, no estudo do estado da arte do objeto. O documentário traz a história de um grupo de jovens nascidos na Macedônia, na cidade de Veles, denominados pela imprensa internacional como Veles Boys.

Para Virilio (1999), na mesma velocidade em que a tecnologia e os novos meios são implementados também traz consigo uma destruição e consequência. Para o autor, todos estão de alguma maneira presos a uma cultura da tecnologia moderna e as relações foram afetas por esses sentidos pós-modernos.

No iní­cio desta pesquisa, em agosto de 2018, poucos artigos foram publicados sobre o tema foram encontrados. Após novembro de 2018 esse número cresceu e passados 6 meses mais de 500 publicações podem ser encontradas em sites de busca como o Google Acadêmico. Em todos os continentes, em várias aplicações, as pesquisas tendem a se aprofundar na questão comportamental, nas causas e motivos, e especialmente, nos efeitos provocados pela ação das fake news.  Atualmente, as várias áreas do conhecimento e não apenas a comunicação, buscam repostas para o combate às fake news, pois os efeitos ainda percebidos de modo preliminar, são devastadores.

A internet tornou-se um divisor na história da humanidade no mundo, mas poucos fenômenos da cibercultura causaram tantos problemas para a humanidade quanto as fake news. Autores do século passado já vislumbravam uma sociedade sem controle dos meios de comunicação ou dominada por eles, assim como em Fahrenheit 451, de Ray Bradubury (BRADUBURY,1953) o autor descreve uma sociedade do futuro onde livros que estimulam o pensamento crítico são proibidos e queimados, as pessoas se mantem informadas apenas pela programação das televisões, não podem ter convívio social e na maior parte do tempo usam fones de ouvido ligados a pequenos rádios que distraem a atenção. Uma distopia que remete a cena atual e poderia explicar como a sociedade pós-moderna tornou-se tão suscetível.

Na conclusão deste artigo, discute-se se a informação falsa produz sentido, se não tem nada a ver como o próprio significado ou se a ”œperda do sentido está diretamente ligada à ação dissolvente, dissuasiva, da informação, dos media, e dos mass media” (BAUDRILLAD, 1991, p. 104). Discutimos se, de fato, todo esse conteúdo compartilhado pode influenciar nas escolhas do público, a partir da produção de novos sentidos, ou se essas informações falsas apenas contribuem para reforçar aquilo que já tem significado dentro daquilo que denominamos como ”œbolhas sociais”. Neste sentido, pretendemos contribuir com a pesquisa cientifica na busca por respostas para compreender os mecanismos do fenômeno fake news.

Palavas-chave: Fake News; Sentido; Pós-verdade; Pós-moderno; Cibercultura.

 

BIBLIOGRAFIA

 

ALMEIDA, Jessica. MULLER, Egle. PÓS-VERDADE, FAKE NEWS E FACT-CHECKING: Impactos e oportunidades para o jornalismo. 15º Encontro Nacional de Pesquisadores em Jornalismo ECA/USP. São Paulo. Nov. 2017.

 

 

BAUDRILLARD, Jean. A transparência do mal: ensaio sobre os fenômenos extremos. 3 ed. Campinas: Papirus, 1996.

______. Simulacros e Simulação. Tradução Maria da Costa Pereira. Lisboa: Relógio d”Ÿágua, 1991.

 

 

BENNERS-LEE, Tim. Vida Longa a Web. Scientific American Brasil. Disponível em: <https://www2.uol.com.br/sciam/reportagens/vida_longa_a_web.html>. Acesso em: 17 mar. 2019.

 

 

BRADBURY, RAY. Fahrenheit 451. Rio de Janeiro: Biblioteca Azul, 2012.

 

 

COOLINS. Dicionário Collins. Inglês. Disponível em: <https://www.collinsdictionary.com/pt/dictionary/english/fake-news>. Acesso em: 18 set. 2018.

 

 

FLOOD, Alisson. Fake news is 'very real' word of the year for 2017. The Guardian. Culture. 02 nov. 2017. Disponível em: <https://www.theguardian.com/books/2017/nov/02/fake-news-is-very-real-word-of-the-year-for-2017>. Acesso em: 18 set. 2018.

 

 

GLOBONEWS. Fake News: Baseado em fatos reais. 30 set. 2017. Disponível em:< https://globosatplay.globo.com/globonews/v/6186746/> Acesso em 18 set. 2018.

 

MORETZSOHN, Sylvia Debossana. Uma legião de imbecis: hiperinformação, alienação e o fetichismo da tecnologia libertária. Liinc em Revista. Rio de Janeiro. v.13. n.2. p. 294-306. Nov. 2017.

 

 

ORSI, Carlos. Três perguntas contra fake news. TEDxUSP. 22 nov. 2017. Disponível em:<https://www.youtube.com/watch?v=UA5ooCt9kp8>. Acesso em: 10 set. 2018.

 

PORTO, Mauro P. A Pesquisa sobre a recepção e os efeitos da mídia: Propondo um enfoque integrado. Trabalho apresentado ao XXVI Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação (INTERCOM), Belo Horizonte, Brasil, 2 a 6 de setembro de 2003.

 

RÃœDIGER, Francisco. As teorias da cibercultura: perspectivas, questões e autores. Porto Alegre: 2a edição, Sulina, 2013.

 

 

SEGATA, Jean; RIFIOTIS, Theophilos. Políticas Etnográficas no Campo da Cibercultura. Brasília: ABA Publicações, 2016.

 

 

VIRILIO, Paul. A Bomba Informática. São Paulo: Estação da Liberdade, 1998.


[1] Doutor em Comunicação e Semiótica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Pesquisador do Centro Interdisciplinar de Pesquisa em Comunicação e Cibercultura (CENCIB). Professor dos cursos de Publicidade e Propaganda e Jornalismo e da Universidade Nove de Julho (UNINOVE). E-mail: deusineyrobson@hotmail.com.

[2] Bacharel em Jornalismo e graduanda do curso de Publicidade e Propaganda pela Universidade Nove de Julho (UNINOVE). Integrante do grupo de pesquisa de Iniciação Científica da UNINOVE. E-mail: tatianebrandao_250@hotmail.com.

[3] Graduanda do curso de Jornalismo pela Universidade Nove de Julho (UNINOVE). Integrante do grupo de pesquisa de Iniciação Científica da UNINOVE. E-mail: feporchat@hotmail.com.

[4] Graduanda do curso de Publicidade e Propaganda pela Universidade Nove de Julho (UNINOVE). Integrante do grupo de pesquisa de Iniciação Científica da UNINOVE. E-mail: carol.cucilho@gmail.com.

 

[5] Tim Benners-Lee, fundador da World Wide Web, defende a liberdade de discursos com princípio em artigo publicado em 2016: ”œLiberdade de discurso deveria ser protegida também. A Web deveria ser como uma folha de papel em branco: pronta para ser preenchida, sem controle sobre o que é escrito”.


Palavras-chave


Fake News; Sentido; Pós-verdade; Pós-moderno; Cibercultura