ABCIBER | Simpósios, II Encontro Regional Centro-Sul da ABCiber

Tamanho da fonte: 
A negociação das relações sociais e dos afetos no capitalismo contemporâneo: uma observação empírica do episódio Queda Livre da série Black Mirror
Carlise Borges

Última alteração: 2019-03-25

Resumo


Vivemos um período no qual os aparatos tecnológicos se tornam cada vez mais condicionantes da nossa vida cotidiana. Além disso, experimentamos intensas mudanças, dispomos dos meios de comunicação na centralidade da estrutura social, acompanhamos novos formatos organizacionais decorrentes das variações do capitalismo, e as constantes desconstruções do sujeito. Todos estes traços caracterizam nosso tempo como uma era pós-moderna (JAMESON, 1985; HARVEY, 2008).

Dentre tantas transformações, a relação com o tempo e a dissolução de fronteiras fundamentais representa, segundo Jameson (1985), as principais características da pós-modernidade. A rigidez do período moderno dá lugar à flexibilidade. A ”œcompressão do espaço-tempo [...], a indeterminação e a intensa desconfiança de todos os discursos universais” também estabelecem as particularidades desta era (HARVEY, 2008, p.19).

O acesso a conexão móvel ofereceu a possibilidade de estar sempre online, ampliando exponencialmente as possibilidades de reinvenção do eu, na mesma proporção em que faz desaparecer a fronteira entre as esferas públicas e privadas. Ansiamos pelo prazer de adentrar as vidas privadas das pessoas ao mesmo tempo que desejamos abrir também as nossas. Para isso, o sujeito se torna um eterno ”œempreendedor de si”, investindo constantemente em sua imagem para atender as lógicas econômicas nas quais estamos imersos. Como um investimento financeiro, ”œconsumimos maneiras de ver, de sentir, de pensar, de afetar e ser afetado; consumimos imagens, estilos de vida, de morar e de vestir. Mais do que apenas afetar nossa subjetividade, os fluxos consumidos têm uma dimensão propriamente afetiva” (PELBART, 2016, p.36).

Com o intuito de promover um diálogo entre o tema deste Encontro ”“ comunicação, cibercultura e comunicabilidades ”“ e alguns dos pilares teóricos que sustentam a pesquisa de doutorado em andamento, o objetivo deste texto é trazer à tona reflexões que perpassam nosso objeto de pesquisa: observar as transformações nas relações sociais e no uso dos afetos no capitalismo contemporâneo, em uma intersecção com a relação comunicação-tecnologia-sujeito. Sugerimos a análise de um objeto empírico a fim de ilustrar melhor nossas discussões: o episódio Nosedive (Queda Livre em português) da terceira temporada da série televisiva Black Mirror da Netflix.

Black Mirror apresenta um universo que, aparentemente, se passa em um futuro distópico, como se fosse a própria realidade na qual estaríamos nos submetendo, em que a tecnologia está ainda mais imersa no cotidiano, constituindo o que muitos teóricos qualificam como uma ”œera do pós-humano” (SANTAELLA, 2003; SIBÃLIA, 2002; TADEU, 2009). A série apresenta episódios independentes, com personagens, cenários e enredos diferentes, que se relacionam apenas pela perturbadora relação sujeito-tecnologia e realidade-virtualidade ”“ nos possibilitando o recorte de um episódio apenas.

Queda Livre foi lançado em outubro de 2016, junto aos seis episódios que compõem a terceira temporada da série. O episódio se passa em uma sociedade onde as pessoas diuturnamente classificam umas às outras. Por meio de implantes oculares conectados aos seus smartphones, fazem um escaneamento de quem estiver em seu perímetro ocular, atribuindo a quem estiver em foco, uma avaliação em uma escala de uma a cinco estrelas. Quanto mais estrelas, melhor classificada é a pessoa, o que ocorre, porém, somente se esta atender a requisitos estéticos, comportamentais, entre outros aspectos, social e culturalmente, preestabelecidos. Obviamente, o objetivo de quase todos é atingir e manter-se altamente classificado, o que resulta em um mundo blasé, de cores pasteis e sem graça.

Este é o caso da protagonista Lacie. Uma jovem com uma avaliação de 4.2 estrelas, mas que sonha em aumentar esse índice e fazer parte do seleto grupo de pessoas que pontuam acima de 4.5 e que estão sempre se beneficiando por terem uma alta avaliação. Para atingir seus objetivos, Lacie calcula e planeja cada uma de suas atitudes, cada foto postada em suas redes sociais é cuidadosamente escolhida e constantemente confere suas ”œcurtidas” e ”œcomentários”, em um trabalho ininterrupto de monitoramento das avaliações feitas sobre sua aparência, suas ações e seu comportamento.

Assim, Lacie se mostra sempre sorridente e prestativa, contida em suas ações e está sempre buscando informações sobre as pessoas de seu relacionamento, municiando-se de elementos que possa usar em elogios de forma a aparentar uma pessoa ”œsuper” simpática e bem-informada. A jovem distribui sorrisos ”“ ensaiados em frente ao espelho em sua casa ”“ e cinco estrelas para todos ao seu redor, imaginando que isso lhe trará como retorno a mesma boa avaliação. Porém, nem sempre é o que acontece.

Laice mora em uma casa simples, alugada, o que, obviamente, não colabora para que tenha uma boa avaliação nas redes. Por isso, e aproveitando o fato de que o contrato está se encerrando, a jovem planeja se mudar e escolhe uma casa em um luxuoso condomínio onde vivem pessoas com alto índice de aprovação, grupo do qual ela também faria parte se residisse no local. O problema é que o condomínio não é financeiramente viável para Lacie. Porém, existe a possibilidade de conseguir um bom desconto, contanto que ela faça parte do Programa de Influenciadores Premium, mas, para integrá-lo, é necessário que sua avaliação seja no mínimo 4.5.

Essa avaliação pode ser compreendida como um capital, pela ótica de Harvey (2008, p.307): ”œO capital é um processo, e não uma coisa. É um processo de reprodução da vida social por meio da produção de mercadorias em que todas as pessoas do mundo capitalista avançado estão profundamente implicadas”. Com os novos significados aplicados ao uso do espaço-tempo surgem novas geografias e novas velocidades de trânsito, obrigando o capital a uma desmaterialização em favor de sua maior circulação nesta dinâmica. Esse problema é agravado pelo caráter especulativo em que se estrutura o capitalismo, que passa a se preocupar com a produção de sentidos e não com as próprias mercadorias, atualizando, à sua medida, o conceito marxista de fetiche (HARVEY, 2008).

As relações sociais em Queda Livre passam a ser exploradas economicamente, convertendo-se em mercadoria, e as relações de poder são determinadas pela estrutura de distribuição do capital que, no caso, é simbolicamente representado na escala avaliativa de cinco estrelas. As relações são cultivadas, portanto, com base quase que unicamente nos interesses e conveniências, já que a classificação de uma pessoa afeta toda sua vida, inclusive sua condição socioeconômica.

Para Lazzarato (2006) um dos princípios do atual capitalismo é a incorporação dos aspectos afetivos e dos domínios da vida. O sujeito passa a ser investidor de si, ou seja, passa de consumidor para investidor. Investe em sua subjetividade que é materializada em sua imagem e, em suas relações sociais, seguindo o processo entre produção, mercadoria, capital e consumo. Pelbart (2003) entende o capitalismo como um cooptador das subjetividades, tornando-as sua principal mercadoria.

De volta ao episódio, Lacie procura um profissional especialista em ”œinteligência da reputação” ”“ uma espécie de coach ”“ para ajudá-la a alavancar mais rápido sua pontuação e conseguir o desconto para comprar a sonhada casa no condomínio de luxo. O especialista elogia o seu esforço, mas a aconselha a buscar algum impulso, caso contrário demoraria muitos meses para aumentar sua avaliação. Este estímulo aparece quando Lacie recebe um telefonema de Naomi, uma amiga de infância que tem 4.8 estrelas, convidando-a para ser sua dama de honra e discursar em seu casamento. Lacie, obviamente, aceita e, comemorando, começa rapidamente a se preparar para viajar até a cidade de Naomi para o casamento.

A economia política dos afetos é um outro aporte teórico que se aplica ao episódio em questão.  Para Illouz (2011, p.09) o afeto ”œ[...] não é uma ação em si, mas é a energia interna que nos impele a agir, que confere um ”˜clima”™ ou uma ”˜coloração”™ particulares a um ato”. A tese da autora é que vivemos em um capitalismo afetivo, no qual os afetos se tornam elementos centrais no processo do capital. Embora o capital seja imaterial, em Queda Livre percebemos que a pontuação em estrelas é uma maneira de materializar a reputação decorrente das relações sociais, o que pode, de maneira análoga, acontecer com os afetos.

Esta questão dissolve qualquer barreira existente entre uma esfera pública, ausente de afetos, e uma esfera privada, saturada deles. Illouz (2011, p.12) defende que o eu privado nunca foi tão público e que a identidade moderna se torna cada vez mais ”œ[...] publicamente encenada numa variedade de locais sociais, por meio de uma narrativa que combina a aspiração à autorrealização com o direito ao sofrimento afetivo”. Esta encenação é exatamente o que acontece no episódio. As relações sociais ”“ que envolvem afeto ”“ são transformadas em mercadoria e capital ao mesmo tempo, centralizando o comportamento afetivo na conduta econômica capitalista da contemporaneidade.

A ida à cidade da amiga se torna um verdadeiro calvário. Lacie passa por várias situações difíceis que acabam diminuindo drasticamente sua avaliação, a ponto de ter que pedir carona para continuar a viagem. Depois de muitas recusas por conta de sua nota 2.8 ela finalmente consegue embarcar em um caminhão guiado por uma motorista com avaliação 1.4 ”“ o que assusta a protagonista, mas a necessidade de estar no casamento acaba se tornando maior que o medo de alguém com nota muito baixa. Após a carona e mais alguns percalços, Lacie consegue chegar ao casamento. Entretanto, é impedida de entrar ”“ mesmo sendo dama de honra da noiva ”“, pois como sua nota era muito baixa, sua presença poderia ferir a reputação de Naomi e de seu futuro marido.

O que acontece com Lacie representa a ação do capitalismo contemporâneo sobre a constituição da subjetividade: a transformação dos afetos e das relações sociais em uma lógica econômica, induzindo o sujeito a investir em si mesmo. Desta forma, cada um se torna o único responsável pelo seu bom ou mal desempenho. No caso de Lacie, ela foi penalizada com pontuação negativa a cada ”œfalta de esforço” em si mesma. E, mesmo assim, seu desejo de alcançar uma pontuação maior no ranking de avaliações fazia com que ela continuasse sempre tentando. Até não conseguir mais.

Palavras-chave


tecnologias de comunicação; relações sociais; economia dos afetos; capitalismo contemporâneo; Black Mirror