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Analise semiótica das publicações dos suicidas no Facebook e suas implicações no ciberespaço
Jose Bernardo Azevedo Junior, Leandro Fabris Lugoboni

Última alteração: 2019-03-25

Resumo


Analise semiótica das publicações dos suicidas no Facebook e suas implicações no ciberespaço

José Bernardo de Azevedo Junior1

Leandro Fabris Lugoboni2

 

A morte é a consequência natural da vida. Todos nós um dia passaremos por isso, de uma forma ou de outra teremos que perecer, ou seja, deixar de viver. Não por causa de uma fatalidade do destino, mas porque faz parte enfrentarmos esse processo conhecido como ciclo da vida. Para a ciência, essa existência é determinada em etapas como nascer, crescer, reproduzir, envelhecer e morrer, que por muitas das vezes são contrariadas pelas mais variadas exceções que o destino nos reserva.

Assim, lançamos nossos olhares para a morte. Segundo Alves (1990), existe uma morte que ceifa por fora e outra que germina por dentro e que produzem experiências de sofrimento distintas nos que a observam. A morte que ceifa por fora é aquela proveniente das guerras, acidentes, doenças, velhice e todas as outras formas em que a morte é um elemento fortuito que, apesar de dolorosa, deve e pode ser chorada. Já a morte que germina por dentro, ou seja, o suicídio, é de outra ordem, pois impõe-se enquanto discurso a ser lido e interpretado, mesmo que negado e/ou emudecido, estando esta mensagem exposta no silêncio aterrorizador do corpo inerte. O que temos em jogo, então, é o indivíduo contra si mesmo.

Suicidar-se é o ato de tirar de si a própria existência. Acredita-se que com ela o autor tem a sua dor desbotada, como se ele acabasse livre das amarras daquele algoz que o torturava há alguns minutos, dias ou anos. Entretanto, o suicida também tem vazado por entre os dedos a oportunidade de vivenciar de maneira sublime o cheiro das flores, o apreciar do nascer e pôr do sol, as gargalhas entre os amigos, as festas familiares, o mergulho naquela água fresca em um dia ensolarado de verão, os sabores amargos e doces que a estética da vida nos traz e também a chance de renascer do sofrimento com toda garra para transformar-se.

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1 ”“ José Bernardo de Azevedo Junior é Doutorando do Programa de Letras da Universidade Presbiteriana Mackenzie, Mestre em Comunicação e Semiótica pela Pontifícia Universidade Católica, coordenador e professor do curso de Jornalismo da Universidade Santo Amaro. Contato: bernardojunnior@hotmail.com

 

2 ”“ Leandro Fabris Lugoboni é Mestre em Comunicação pela Universidade Municipal de São Caetano do Sul e docente da Universidade Santo Amaro. lflugoboni@prof.unisa.br

 

Muitos suicidados deixam cartas ou bilhetes de adeus tornando a mensagem angustiante por não ter um desfecho, algo concreto que permita enunciá-la apontando um culpado, ou explicando as razões, ou até mesmo absolvendo os suspeitos. Nos dias de hoje, não são bilhetes escritos manualmente. Na verdade, são posts, tweets, ou vídeos gravados no Youtube, como tem se tornado comum nos últimos anos por conta da popularização da internet. A partir daí, até comunidades virtuais surgiram tanto na prevenção do ato finalizador do viver, quanto há grupos que incentivam e ensinam como deve ser o processo de tirar a vida e até mesmo como elaborar uma carta de adeus.

Isto posto, essa pesquisa de Doutorado em andamento analisará as postagens produzidas pelos suicidas na rede social Facebook, a partir do aporte teórico e metodológico da Semiótica Greimasiana e seus desdobramentos na Semiótica Tensiva. O objetivo é compreender os elementos discursivos instalados nos enunciados das mensagens publicadas pelos suicidas no Facebook tencionando-se a relação entre a língua e as imagens para a produção de um sentido que possa ser vista como uma escapatória de um mundo condenado por esse sujeito.

O ponto de partida é a hipótese de que o suicídio é um gesto de comunicação transformado em um texto e, assim, é possível apreender os sentidos da enunciação presentes e os elementos semióticos comuns a todas elas. Uma vez que os discursos construídos nas cartas virtuais revelam as intenções do Destinador, é possível perceber as características linguístico-discursivas desses discursos e, a partir daí, as escolhas enunciativas na construção da enunciação dos elementos que apontam as características de um possível grito de socorro por parte do sujeito, ou as denúncias na ordem da prática social.

A mola propulsora deste trabalho está alicerçada na intencionalidade em analisar o discurso dos suicidas deixado no Facebook e, desta maneira, competencializar a sociedade na identificação das insatisfações, dos vazios e até dos seus estados de alma já desgastados dessas pessoas que possam de uma forma ou de outra motivar outros internautas a cometerem atentados contra o seu próprio viver.

Assim, lanço um questionamento: por que dialogar sobre a morte é tão importante? Primeiramente, porque a morte possui diversos aspectos que vão além do biológico - como os aspectos social, filosófico, antropológico, psicológico etc. - e uma grandeza de significados que, ao se revelar, torna sua aceitação mais fácil. Além disso, todos nós confrontamos com a morte diversas vezes ao longo da existência, até que por fim, enfrentamos esse ”œencontro” em nossa própria pele.

É inegável que o sentido da vida deve ser respondido por cada indivíduo, a cada momento de sua vida. Contudo, por suas implicações, o suicídio não é uma questão apenas existencial, privativa de cada indivíduo, mas também uma questão social, como aponta Durkheim (2000). Para o autor (op. cit), o suicídio ”œé todo caso de morte  que resulta, direta ou indiretamente, de um ato, positivo ou negativo, executado pela própria vítima, e que ela sabia que deveria produzir esse resultado”.

O impacto social do suicídio, apesar de conhecido, ainda não é bem compreendido, nem plenamente dimensionado. Em geral, o suicido é tratado como tabu (Ariès, 2012). Entretanto, sabe-se que existe a possibilidade de disseminação por imitação do suicídio, principalmente entre os jovens, conhecido como efeito Werther (Almeida, 2000).  O romance de Goethe Die Leiden des Jungen Werthers, o qual acaba com o suicídio do seu protagonista. Observou-se que após o lançamento do livro, no século 18, ocorreu uma onda de suicídios de jovens utilizando o mesmo método. Pessoas mimetizando a morte autoinfligida do personagem de Goethe. O livro foi banido em alguns países por conta desse efeito.

Outro fator que carece de atenção é o canal da mensagem que aborda o tema. Alguns estudos apontam que quando um caso de suicídio é amplamente divulgado, há o risco de aumento na incidência desse evento, cometido por outras pessoas utilizando o mesmo método. As pessoas podem se identificar com a personagem ou com o suicida célebre. Para tanto, a Organização Mundial de Saúde (OMS) publicou uma cartilha (OMS, 2000) para orientar os profissionais da imprensa como noticiar casos de suicídio. Contudo, com o advento da internet e sua capacidade de compartilhamento de informações ”“ em vídeo, texto, bate-papos ”“ de forma descentralizada, sem controle, e em várias mídias ”“ celulares, computadores, tablets ”“, o efeito Werther foi potencializado? O que as pessoas que pensam em suicídio e/ou procuram ajuda para a depressão ou desesperança encontram na internet? A internet tem potencial para ajudar na prevenção? Ou ela potencializa a disseminação de casos de suicídio?

Dentre os diversos conceitos de texto, adotaremos o utilizado por Barros (2011, p. 7-8), segundo o qual um texto é, simultaneamente, um objeto de significação e de comunicação. Enquanto objeto de significação, ele se organiza em estruturas internas que mantêm relações e, como objeto de comunicação, evidencia o elo que se estabelece entre um destinador e destinatário.

Uma vez estabelecido essa conexão, os arcabouços teóricos-analíticos de Greimas em que o semioticista advoga a ideia de que o sujeito estará sempre condenado ao sentido. ”œ[...] pode ser considerado quer como aquilo que permite as orações de paráfrase ou de transcodificação” (GREIMAS & CORTÉS, 2013, p. 456), entendemos que o sentido vem de ”œuma operação pela qual um elemento ou um conjunto significante é transposto de um código para outro, de uma linguagem para outra” (GREIMAS & CORTÉS, 2013, p. 410).

Essa condenação é tomada na teoria semiótica enquanto a salvação do sujeito uma vez que exigido à contínua produção de sentido, o projeto trabalhará a partir dos modos de presença do sujeito do mundo. Desta maneira, a espinha dorsal do estudo estará por conta da atividade interpretativa que tem por método de descrição e análise do percurso gerativo de sentido concebido em três níveis operatórios entre si, postulados por Greimas. De acordo com Fiorin ”œo percurso gerativo de sentido é uma sucessão de patamares, cada um dos quais suscetível de receber uma descrição adequada, que mostra como se produz e interpreta o sentido”. (FIORIN, 2006, p. 20)

Para compreender a correlação entre interação do sujeito e o mundo, a pesquisa se edificará em uma semiótica das situações centrada na sociossemiótica de E. Landowski (2014) que descreve quatro regimes de interação que correspondem aos princípios elementares relativos à maneira pela qual o sujeito constrói suas relações com o mundo e com os outros. São eles: programação, manipulação, ajustamento e acidente.

A partir de então, o sujeito passa a interagir com o mundo. Nessa relação, buscamos os ensinamentos da semiótica tensiva, uma das vertentes atuais da semiótica discursiva e busca conjugar duas dimensões da significação: a do sensível e a do inteligível, sendo que esta possui primazia sobre aquela e o local imaginário onde essas duas dimensões se encontram é chamado de tensividade.

Reconhecida como a era da informação e da comuni­cação, os tempos atuais estão comandados pelas conexões interativas de fluxo comunicacional que ganham dimensão infinita pela rede de conexões virtuais postas em ação. De modo mais largo, trata-se de mudanças em processos cultu­rais mediados pela convergência digital as quais constituem importante insumo para que se produza a inovação.

A presença da tecnologia e de novos meios de comunicação vem transformando o modo dos indivíduos se comunicarem, se relacionarem e construírem conhecimentos. Este fenômeno propicia lógicas de agrupamentos diferenciados, em consequência de ações culturais desta chamada cibercultura. Hoje quando falamos em mobilidade, estamos nos referindo ao termo ”œglocal”,  introduzido na área de ciências humanas pelo filósofo Paul Virilio (1993). Trata-se da fusão das palavras ”œglobal e local” sem redução do sentido dos verbetes. Muito pelo contrário, surge um novo sentido capaz de dar conta do processo relacional vivenciado pela sociedade contemporânea.

Para Trivinho (2012), o fenômeno glocal pertence ao século XX, porém as suas características já são possíveis de serem percebidas nos primeiros media capazes de trocar informações entre emissor-receptor em tempo real.

Justamente nesta troca de informações em tempo real que o suicida registra o seu discurso no âmbito passional, na tentativa de ser ”œouvido” por um grito por socorro, ou provocado por um acontecimento de ódio, ou intenciona perpetuar a culpa ou a absolvição do feito a um outro sujeito.

 

 

Palavras chaves: semiótica, suicídio, facebook, glocal, tecnologia

 

 

Referências Bibliograficas

ALMEIDA, Ana Filipa. Efeito de Werther. Análise. Psicológica [online]. 2000, vol.18, n.1, pp.37-51.

 

ALVES, R. O morto que canta. In R. M. S. Cassorla (Ed.), Do suicídio: Estudos brasileiros (pp. 11”“15). Campinas: Papirus. 1990.

 

ARIÈS, P. O homem diante da morte. v. 2. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1982.

 

________. História da morte no ocidente: da idade média aos nossos dias. (P. V. de Siqueira, Trans.). Rio de Janeiro: Nova Fronteira. 2012.

 

BARROS, Diana Luz Pessoa de. Teoria Semiótica do Texto. São Paulo: Editora Atica, 2011;

 

FONTANILLE, Jacques. Semiótica do discurso. Tradução de Jean Cristtus Portela. São Paulo: Contexto, 2015.

 

DURKHEIM, Émile. O suicídio: estudo de sociologia. São Paulo: Martins Fontes, 2000.

 

FIORIN, José Luiz. Elementos da Análise do Discurso. 14 ed. São Paulo: Contexto, 2006.

 

GREIMAS, Algirdas J; COURTES, Joseph. Dicionário de Semiótica. 2ª edição. São Paulo: Contexto, 2013.

 

TRIVINHO, Eugenio. Glocal: visibilidade mediática, imaginário bunker e existência em tempo real. São Paulo: Annablume, 2012.

 

 


Palavras-chave


semiótica, suicídio, facebook, glocal, tecnologia