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PRIMAVERA SURDA: AS LÃNGUAS DE SINAIS E A COMUNICAÇÃO NA ERA DA CIBERCULTURA
Rachel Capucho Colacique

Última alteração: 2019-03-25

Resumo


Estima-se que cerca de 5% da população mundial possua deficiência auditiva. No Brasil, de acordo com o IBGE, 2,2 milhões de brasileiros tinham deficiência auditiva em 2013 (correspondendo a 1,1 % da população). Apesar do grande número de pessoas, e das diversas políticas para inclusão que têm despontado ao longo das últimas décadas, muito ainda temos a conquistar. Os surdos vêm vivenciando, por séculos, as mais diversas e perversas formas de segregação, construindo suas identidades em contextos nos quais o discurso estereotipado da normalização tenta impor limitações, em virtude de suas perdas auditivas.

Em todo o mundo, em diferentes épocas, a história da educação de surdos é marcada pelas mais diversas formas de exclusão, silêncio e silenciamentos. Inúmeros relatos mencionam mortes, torturas, segregação do convívio social, entre outras atrocidades cometidas contra as pessoas surdas, e as pessoas com deficiência de um modo geral. Em vários países, o modelo oralista imperou por décadas, tendo relegado milhares e milhares de pessoas surdas que não alcançavam os objetivos propostos pelo método.

Essa é a história que os traz até aqui. Pelo menos é a história que a História conta. Mas a história não é feita somente daquilo que querem contar aqueles que têm o poder de narrá-la. Sua construção é forjada também no aparente silêncio daqueles que a vivenciam cotidianamente. Ao longo desse tempo, munidos de esperança, os surdos lutaram e resistiram ”“ cada um a sua maneira ”“ às inúmeras tentativas sociais de mascaramento de suas personalidades. Preservaram as línguas de sinais, não obstante toda pressão sofrida para seu abandono. As comunidades surdas lutaram (e lutam muito ainda hoje) por espaços de pertencimento, direitos, oportunidades, assim como pela valorização de suas identidades e culturas.

Nas redes sociais da internet, temos vivenciado uma revolução comunicacional no que diz respeito às comunidades surdas, considerando a enorme circulação de materiais nas mais diversas Línguas de Sinais. Pensar a língua como parte fundamental e estruturante dos indivíduos já não é novidade há muitas décadas. E à medida que a comunidade surda conquista novos espaços, o fazem linguisticamente também.

Nesse sentido, podemos perceber uma contribuição significativa da Internet e do digital e rede para as línguas de sinais e as comunidades de surdos ao redor do mundo. Se hoje é possível acessar conteúdos em língua de sinais dos mais diversos países, devemos estar cientes de que esses inúmeros vídeos e materiais visuais produzidos e compartilhados em rede fortalecem o desenvolvimento linguístico das pessoas que podem ampliar seu repertório comunicativo. Sendo a língua também um instrumento de poder, a expansão dos horizontes linguísticos, portanto, ampliam também os horizontes do mundo.

As iniciativas de criação de sinalários, manuários e aplicativos tradutores em Libras, por exemplo, despontam como uma conquista significativa para a comunidade surda e para todos os demais interessados em aprender a comunicação gestual. Esses materiais temáticos reúnem surdos e profissionais diversos com conhecimento na área, e são disponibilizados como material de apoio para as aulas de professores e formação de intérpretes.

Isso era impensável há 20 anos. A escassez de materiais em Libras, fosse de livros didáticos ou dicionários, colocava-nos muitos obstáculos na hora de prepararmos nossas aulas. Não havia sinal para vários conceitos abordados em sala com os estudantes, sem contar que os poucos materiais existentes eram de difícil acesso e utilização. Agora, com nossos smartphones sempre conectados, temos o universo linguístico na palma de nossas mãos, na velocidade instantânea da Internet.

Se a lógica mercadológica das grandes enciclopédias dificultou o acesso de muitos interessados, os princípios colaborativos da cibercultura nos trouxeram inúmeras possibilidades. Iniciativas como o projeto ”œSinalizando a Física”[1] da Universidade Federal do Mato Grosso, publicado em 2010, com licença Creative Commons, e distribuída gratuita e livremente em PDF pela Internet, contrapõe-se diretamente à visão do material mencionado anteriormente.

De forma semelhante, outras instituições estão produzindo materiais temáticos, de livre acesso e contando com a colaboração do público usuário. Pode até parecer uma conquista pequena, limitada, mas quanto mais língua e mais comunicação, mais e novas formas de criar pensamentos e conhecimentos. De modo proeminente, o horizonte que se delineia à nossa frente talvez traga as flores de uma primavera surda, à semelhança do movimento intitulado Primavera Ãrabe, e ela não virá pela ”˜mão”™ do ouvinte colonizador, mas será gerida e regada pelos milhares e milhares de mãos surdas desse mundo.

Podemos citar como indícios desse apontamento, os diversos materiais que circulam nas redes como o Facebook, o Instagram e o YouTube que se configuram espaços de incubação de múltiplos saberes, compartilhamento de experiências e produção de conhecimentos, potencializando o diálogo, a autoria coletiva, a partilha de sentidos em múltiplas linguagens e mídias (Santos, 2014, p. 127), além possibilitar o desenvolvimento da autonomia, na qual o indivíduo entende o Outro como parte desse processo, contribuindo, de forma parceira, colaborativa e compartilhada para a tessitura de seus conhecimentos.

Podemos citar muitos exemplos de canais criados por youtubers surdos brasileiros, como por exemplo: o canal ”œÃ‰ LIBRAS[2]”, no qual dois irmãos surdos contam seu dia-a-dia, e o canal de Larissa Jorge, que começou no YouTube postando tutorias sobre maquiagem em LIBRAS e, hoje, aborda temas diversos, como maquiagem, penteados, moda e aulas de LIBRAS. Um de seus vídeos mais consultados é o ”œCoisas que os surdos não gostam”[3], que já conta com mais de 140 mil visualizações. Vale citar, ainda, o polêmico Beto Castejon[4], que aborda, de um jeito irreverente e bem visual, várias temáticas do cotidiano juvenil surdo. Germano Dutra, do canal ”œSurdo Cult”, que fala sobre o mundo do cinema, quadrinhos e ”˜nerdices”™, em geral. A surda Paula Pfeifer[5] mostra o outro lado do universo surdo, abordando temáticas consideradas polêmicas pela comunidade surda, como implante coclear e aprendizagem da oralização.  Além desses, ainda temos os youtubers, Kitana Dreams[6], o humorístico "Porta dos Surdos"[7], entre outros. Além desses canais em língua brasileira de sinais, o YouTube também nos permite acesso a material internacional. Como por exemplo, canais que divulgam a Língua Moçambicana de Sinais[8], a Língua Francesa de Sinais[9], e a Língua Sul Africana de Sinais[10]. Há diversos vídeos que comparam duas ou mais línguas de sinais, como por exemplo um em que dois rapazes comparam o alfabeto gestual em inglês e francês[11].

Entendemos assim que o YouTube, em especial, tem contribuído não simplesmente como repositório de vídeos, sendo muito mais que um banco de dados mundial sobre os surdos, suas línguas e culturas, mas, ainda, como um espaço formativo por meio das interações textuais e imagéticas permitidas pela rede social.

Como esses, poderíamos destacar inúmeros outros. E acreditamos no grande potencial formativo que esses espaços e materiais proporcionam. O surdo constitui-se em seus aspectos linguísticos, a partir de elementos de empoderamento, assumindo diferentes espaçostempos de aprendizagem e formação. Ao usarem a língua dos sinais, que tem suas tradições culturais em experiências visuais, demarcam suas diferenças, tendo em vista preservá-las, e poderem viver, de forma condizente.

Esses processos de conscientização sobre si mesmo, bem como sobre direitos sociais e civis, constituem o alicerce de uma consciência ”“ individual e coletiva ”“ necessária para superar formas externas de dominação e imposição de papéis sociais. Candau (2009, p. 7) afirma que empoderamento começa por ”œliberar a possibilidade, o poder, a potência que cada pessoa tem para que ela possa ser sujeito de sua vida e ator social”. Para a autora, a educação multicultural pode contribuir com essas formas de emancipação, ao oportunizar espaços educativos mobilizadores de mudanças sociais, por oferecerem, eles próprios, experiências de igualdade educacional e de processos de empoderamento. Em outras palavras, embora não possamos construir e implantar o sentido de poder em nossos alunos, ”˜de fora para dentro”™, podemos oferecer experiências que oportunizem e favoreçam essa construção por eles mesmos.

Como já mencionado, todas essas produções que circulam nas redes são também produções culturais. São sentidos expressos, ideias e conceitos, transformados e materializados em imagens desprendidas, que circulam no ambiente virtual. São também pistas dos caminhos percorridos para a produção do conhecimento, e que são perpassados por aprendizagens cotidianas e voláteis. São práticas que produzem não só ação, mas, sobretudo, conhecimento. Os praticantes criam no e com os cotidianos. Suas práticas são também modos de resistência, mesmo que não pelo enfrentamento.

Desse modo, acreditamos que olhar atentamente para fenômenos como esses, propiciados e potencializados pelo digital em rede, pode trazer contribuições significativas para os processos educativos e formativos.


[1] Disponível em: em https://sites.google.com/site/sinalizandoafisica/. Acesso em: 05 jul. 2018.

[2] Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=hFty55f9qFM . Acesso em: 18 abr. 2018.

[3] Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=7A6YkwGRyP0&t=72s . Acesso em: 05 mai. 2018.

[4] Disponível em: https://www.youtube.com/channel/UCDRIKox5aKmzAMnWj4pAfOA. Acesso em: 05 mai. 2018.

[5] Disponível em: https://www.youtube.com/user/SweetestPBlog . Acesso em: 05 mai. 2018.

[6] Disponível em: https://www.youtube.com/user/kitanamcnew . Acesso em: 05 mai. 2018.

[7] Disponível em: https://www.youtube.com/channel/UCWiusKQLJ9RsOocy097GqnQ. Acesso em: 05 mai. 2018.

[8] Disponíveis em: https://www.youtube.com/watch?v=YZOg1kwPlhA e https://www.youtube.com / watch?v=QTsyn7zORRg . Acesso  em: 06 mai. 2018.

[9] Disponíveis em: https://www.youtube.com/watch?v=ZWffztiyzpI; https://www.youtube.com/watch? v =RjdFw16TDtE e https://www.youtube.com/watch?v=NBSgeqgn8lw. Acesso em: 04 mai.2018.

[10] Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=sAgwtMFFDqM. Acesso em: 03 mai. 2018.


Palavras-chave


Surdez, Língua de Sinais, Cibercultura, Inclusão, Educação