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EMPREGO DO WHATSAPP PARA VIRALIZAÇÃO DE CONTEÚDO VOLTADO A GESTANTES: O CASO DO PROJETO SÃFILIS NÃO
Arthur Barbalho Braz

Última alteração: 2019-03-25

Resumo


Arthur Barbalho Braz¹

As novas tecnologias viabilizaram o surgimento de ferramentas de comunicação ágeis, de fácil manuseio, com potencial para mudar a maneira como as pessoas enxergam suas relações. Assim, aplicá-las como soluções de relacionamento em setores primordiais da sociedade, como a saúde pública, promove a dinamização dos processos que envolvem profissionais e pacientes. Desta forma, ferramentas de compartilhamento instantâneo de mensagens como o WhatsApp quebram a barreira geográfica e aproximam as pessoas, podendo ser um importante meio de enfrentamento às questões de interesse público na saúde, como no caso novas patologias, como a da sífilis, desde meados de 2010 e que gera grande preocupação por parte dos entes públicos na atualidade, uma vez que permanece em situação epidêmica em todo o país. Assim, o trabalho apresenta como os recursos ofertados através do WhatsApp podem gerar impacto no processo de comunicação entre profissionais que atuam no tratamento e combate da sífilis em pacientes gestantes no Sistema Único de Saúde (SUS).

O app de mensagens criado pelos engenheiros de programação Jan Koum e Brian Acton tomou uma fatia de mercado até então pouco explorada, ao possibilitar aos usuários serviços simples como troca de mensagens de texto e, posteriormente, o envio de fotos. O diferencial do WhatsApp em relação aos concorrentes foi, justamente, oferecer serviços já existentes, porém com um custo menor, uma vez que usa dados de rede de internet para o compartilhamento de mensagens. Foi com base nesta premissa que, aos poucos, o aplicativo passou a oferecer serviços como o envio de mensagens de áudio, envio e gravação de vídeos, envio de documentos dos pacotes Office, Adobe e equivalentes, localização fixa e em tempo real, além da realização de chamadas de áudio, vídeo, e de videoconferência, além da possibilidade de organização de grupos ”“ de até 256 pessoas, o que possibilita uma comunicação horizontal, com a informação chegando através de um mesmo ambiente virtual a um número especí­fico de pessoas ”“ ou de listas de transmissão, sendo estas caracterizadas pela comunicação mais vertical, com a informação diretamente do emissor ao receptor.

Sendo assim, o uso do WhatsApp como ferramenta de disseminação de informação relevante, principalmente no enfrentamento de problemas da saúde básica, é completamente viável e interessante, tanto do ponto de vista financeiro (é um serviço barato, que depende apenas de dados), quanto na questão da linguagem, uma vez que permite a quem produz conteúdo adequá-lo de acordo com a necessidade do grupo (ou grupos) envolvido.

Ao surgir, o WhatsApp preencheu diversas lacunas no âmbito da tecnologia em comunicação. Em 2009, sistemas operacionais para smartphones ainda eram novidade, como o iOS e o Android. Apps que hoje atuam como concorrentes, como Facebook Messenger, funcionavam apenas no dentro da rede social.

Para além do aspecto da comunicação, os números da sífilis no Brasil ajudam a explicar a necessidade do desenvolvimento de políticas públicas informativas para as populações-chave. Dados do Boletim Epidemiológico da Sífilis, desenvolvido pelo Ministério da Saúde e publicado em dezembro de 2018, apontam que em 2017 foram registrados 119.800 casos de sífilis adquirida (taxa de detecção de 58,1 casos/100 mil habitantes); 49.013 casos de sífilis em gestantes (taxa de detecção de 17,2/1.000 nascidos vivos); 24.666 casos de sífilis congênita (taxa de incidência de 8,6/1.000 nascidos vivos); e 206 óbitos por sífilis congênita (taxa de mortalidade de 7,2/100 mil nascidos vivos). Na prática, os números evidenciam que há uma situação epidêmica da doença em território nacional. De acordo com a Organização das Nações Unidas, o Brasil gastou através do Ministério da Saúde US$ 2,8 milhões com procedimentos de médio e alto custo relacionados a infecções sexualmente transmissíveis (ISTs), incluindo internações, dos quais um número significativo estava diretamente relacionado à sífilis e à sífilis congênita (quando a doença é transmitida da mãe para o bebê).

Desta forma, os processos comunicativos podem exercer uma importante função no enfrentamento deste problema. Há recursos tecnológicos, sobretudo no que diz respeito à internet, redes de telefonia móvel e principalmente de desenvolvimento de aplicativos que podem auxiliar neste processo, exercendo um papel primordial na relação entre os profissionais usuários do SUS na tentativa de corroborar para a redução do índice da doença. Através de aplicativos de trocas de mensagens instantâneas, todos os entes envolvidos no processo de combate à sífilis podem estabelecer relações cada vez mais pessoais.

Na perspectiva de buscar soluções para o tratamento e combate à doença em questão é que surge o Projeto de Resposta Rápida à Sífilis nas Redes de Atenção, também denominado Sífilis Não. A ação é uma iniciativa do Laboratório de Inovação Tecnológica em Saúde da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (LAIS), em parceria com o Ministério da Saúde e com a Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS), órgão ligado à Organização Mundial de Saúde (OMS). Desenvolvido com o objetivo de buscar soluções não só no campo da prevenção, mas também no tratamento de pacientes que já estão infectados pela doença, o Sífilis Não é um projeto interfederativo de cooperação técnica cujo objetivo é reduzir os números da doença.

No total, o projeto abrange em sua primeira fase 100 municípios com população acima de 100 mil habitantes em todos os estados da federação, e se insere na Agenda de Ações Estratégicas para Redução da Sífilis no Brasil 2017-2019, pactuada entre gestores federais, estaduais e municipais, sociedades e associações médicas, organismos internacionais e sociedade civil.

Em nosso artigo, discorremos sobre as possibilidades de uso de tecnologias de comunicação no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS), com destaque para as ações que podem ser adotadas com vistas no enfrentamento da sífilis e de suas consequências. O texto trata sobre o desenvolvimento de soluções que visem auxiliar gestantes e puérperas na atenção primária, após o diagnóstico da doença. É importante ressaltar que tais ações em comunicação complementam o trabalho desenvolvido por profissionais de saúde no cuidado com pacientes portadores da infecção sexualmente transmissível em questão.

O uso do app em questão se explica por este ser o principal serviço de trocas de mensagens instantâneas em atividade no Brasil, superando seus concorrentes diretos, como Facebook Messenger, Telegram, Viber e Line. De acordo com dados do próprio WhatsApp, são cerca de 120 milhões de usuários ativos no Brasil.

Por definição, o WhatsApp pode ser classificado como um aplicativo multiplataforma de mensagens instantâneas para smartphones. Mais do que isto, o app se moldou com tempo às necessidades de seus usuários, numa espécie de construção coletiva e cada mais próximo do que se entende por rede social. Recuero (2009) classifica uma rede social como um conjunto composto de atores (pessoas, instituições ou grupos) e suas respectivas conexões (interações e laços estabelecidos). Na prática, o serviço ganha este status ao proporcionar que o usuário tenha através dele soluções em tecnologia para além da mera troca de mensagens instantâneas.

Certos serviços oferecidos pela plataforma, como os recursos de chamada de áudio e de videoconferência (com até quatro pessoas falando simultaneamente) ajudam a entender a importância do WhatsApp e como ele rompe com conceitos históricos dentro do mercado de tecnologia da comunicação. Antes, o usuário contava apenas com os serviços oferecidos pelas companhias telefônicas, em geral mais caros, ou com as poucas soluções em videochamada existentes até então, como o Skype.

Desconstruindo uma seara historicamente consolidada através de outros tipos de soluções, o WhatsApp adquire uma abrangência mundial que fica explícita em números. De acordo com dados do próprio aplicativo, 1 bilhão de mensagens ”“ de todos os tipos disponíveis no período ”“ foram enviadas diariamente por usuários do aplicativo em 2011. Já em 2012, o número saltou para 10 bilhões por dia, um aumento de 900% em um período de apenas um ano. Cerca de 1 bilhão de pessoas utilizam o serviço em todo mundo. Em suma, os números apontam que o WhatsApp exerce um papel imprescindível para o processo comunicativo na sociedade.

Mas para que o app possa efetivamente apresentar-se como uma via importante na construção de saberes entre profissionais e pacientes, são necessários materiais de apoio, desenvolvidos com base nos recursos que a plataforma oferece aos usuários. Com eles, grupos especí­ficos podem estabelecer formas de comunicação horizontais e verticais, onde o fluxo de informação pode ter diferentes finalidades. Para tal, é necessário que os gestores e profissionais de saúde que utilizam a ferramenta para realizar a comunicação com o público-alvo definam planos de ação, de acordo com as características de cada grupo social a qual os profissionais estão conectados.

A troca de experiências entre gestores, profissionais e pacientes, apresentando cada um sua perspectiva e entendimento dos processos relacionados à sífilis, ajuda a estabelecer as diretrizes que serão adotadas pelos profissionais ao disseminarem conteúdo voltado para os pacientes/receptores. Cada ação em comunicação digital adquire um viés próprio, tornando os conteúdos mais ricos em informações relevantes para quem deve recebê-la. Assim, o WhatsApp representa uma importante ferramenta não apenas de troca de conteúdo, de distribuição de conhecimento através do meio digital.

Palavras-chave: WhatsApp, comunicação, tecnologia, sífilis, SUS.


 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÃFICAS

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Palavras-chave


WhatsApp, comunicação, tecnologia, sífilis, SUS.