ABCIBER | Simpósios, II Encontro Regional Centro-Sul da ABCiber

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A GALÃXIA DE ZUCKERBERG - a formação do narrador eletrônico
Davi Junqueira Marin

Última alteração: 2019-05-09

Resumo


Sob o ponto de vista da interação dos chamados usuários com o próprio ambiente gerador das mensagens e portanto criador da própria cultura, a internet do pós-guerra no século XX ”“ arma secreta da comunicação militar norte-americana ”“ surge transformada em rede interconectada de computadores para a população civil, consumidora. De internet ela passa a ser chamada de world wide web que pouco antes de caminhar definitivamente século XXI adentro, transfigura de vez a face gutenberguiana do narrador nostálgico de Benjamin, trazendo à vida a profecia de McLuhan acerca do retorno do homem tipográfico à sua natureza áudio-tátil dentro do macro ambiente que ele mesmo chamou de Aldeia Global.

A diversidade  e a multiplicidade pareceram estar vencendo qualquer ideia de uniformização e homogeneização e todavia parecem, ao tomarmos nota, justamente, das pluralidades e diversidades de manifestações narrativas e testemunhos que são permitidos pelas redes sociais e outros meios dentro da vasta rede. O papel de narrador platônico, aristotélico, nessa nova era pós-homem tipográfico, pós-Galáxia de Gutenberg, é pulverizado mundo afora e transformado em experiência barata e acessível às multidões consumidoras de um produto também transformado em mercadoria popular, em commodity de comunicação: a formação de opinião. Depois de sua influente e definidora fase oral, o narrador passa pela sua fase impressa, tipográfica das prensas e da imprensa, e formata sua fórmula que fica pronta para ser popularizada e transformada nesse produto bem acabado que não já nem sequer se parece com uma mercadoria, agora, em sua fase pós-elétrico-analógica, através da popularização de seu modus operandi na velocidade da luz de conexão ótica glocal.

O universo tipográfico foi o iní­cio de uma possibilidade de sincronia temporal que parecia desenhar algum tipo de alinhamento cultural ou social de hábitos entre os emissores detentores dos meios e seus receptores, leitores ou audiência. Com a chegada de galáxias elétricas das eras recentes de narradores analógicos, acentua-se a expectativa de uma sincronicidade definitiva desse aparente projeto do homem tipográfico no empacotamento de hábitos e costumes sociais e culturais enquanto prática facilitadora de técnicas mercadológicas, mas cujo resultado ou mesmo enquanto projeto de seus emissores, não se resume apenas às metas de mercado e acabam interferindo e redefinindo a paisagem social e cultural por onde passam. Então, com a chegada da novíssima galáxia digital eletrônica, on line e real time, a expectativa de uma total e completa sincronia entre meios, mensagens e audiência atinge novos patamares.

O problema identificado é o narrador em sua ausência conceitual, para uma definição que contemple o narrador contemporâneo das redes. Não existe nenhum conceito que encampe a nova realidade de mídia sob o ponto de vista de uma definição de narrador, de narrativa ou das narratividades. Simplesmente não há, no domínio do digital, um conceito de narrador que discrimine suas características.

Se para Benjamin, o narrador ”“ trovador, contador de histórias ”“ tinha algo de mitológico, a questão da pesquisa consiste em saber se a internet pode realmente ser pensada como um instrumento de emancipação real dos indivíduos e da multidão, refletindo os anseios de uma hipotética definição contemporânea de narrador, ou se ao cabo de seu surgimento, ela tende a transformar também, como as outras tecnologias que a antecederam, em instrumento de dominação ideológica e condicionamento dessa mesma multidão: narradores que nem sequer participaram da história que foi contada pelos patrões da ordem capitalista midiática e comunicativa vigente. Assim o questionamento aqui se desdobra ”“ a partir do desenvolvimento do objeto dentro do corpus expandido ”“ acerca das promessas feitas pelos sistemas de comunicação inseridos nas novas ordens globais com a nova rede de conexão de computadores que surgia, alguns poucos anos atrás, via linhas telefônicas, e que hoje já se fazem via fibra óptica e até mesmo via satélite ou rádio, a chamada internet, ou world wide web: será a nova galáxia midiática de hoje apenas mais uma Galáxia de Gutenberg, mas agora dentro dos modelos de Zuckerberg ”“ recontextualizando a obra de McLuhan para dentro de sua profetizada Aldeia Global, renomeando-a a partir de seus novos ícones de referência? Estaremos na soleira de entrada dessa nova configuração midiática, a repetir seus padrões galaxiais, fazendo girar em torno de si mesma toda a cultura que ela ajuda a criar, mas em moldes agora Zuckerberguinanos? Essa ideia parte da hipótese de que o narrador de Walter Benjamin foi, ao longo dos tempos Gutenberguianos, de alguma forma ludibriado e enganado pelas promessas trazidas pelos livros, pelas tecnologias de contação de histórias e mais tarde pelos veículos da imprensa e das grandes mídias, do cinema, do rádio e da televisão, destituído, pouco a pouco, de seu próprio mundo, de sua própria cultura, de suas próprias tradições e vontades. Sua liberdade ficou, pouco a pouco e vagarosamente, mas cada vez mais, cerceada e condicionada às informações que lhe eram trazidas, apenas, através da comunicação não mais do narrador benjaminiano ”“ o natural trovador, contador de histórias de vila em vila ”“ mas da narrativa planejada, planificada para condicionar e manipular as multidões em seus conceitos de vida e de sociabilidade. A figura humana do narrador se mecaniza e se instrumentaliza, criando um narrador artificial, mecânico, elétrico, eletrônico. Uma ferramenta não mais apenas para manutenção da história e perpetuação de tradições, um instrumento não mais apenas para registros, mas sim para a criação da história de acordo com aqueles que manuseiam o instrumento. Dessa maneira, o resultado apresentado ilustra que se havia algum monstro na figura do narrador, esse monstro está reduzido apenas à tecnologia, transformado em instrumento de narradores humanos que apenas transpõem seus mÅ·thos e histórias para esse novo meio. O narrador deixa sua natureza humana e transforma-se na ferramenta da história.

Ao ilustrarmos uma análise do que estamos chamando de escrita em rede, de narrativa real time através de exemplos extraídos de perfis do Facebook, demarcamos o nascimento dessa nova galáxia de mídia que surge no ápice do século XX e que fez amadurecer a tipografia ao mesmo tempo em que brilharam novas técnicas mecânico-elétricas de reprodução de artes e de contação de histórias, ou de reprodução artificial da experiência, como coloca Benjamin. A partir da crítica que o autor estabelece em O narrador, buscamos uma análise de conceitos clássicos provenientes do universo tipográfico trazidos por autores como Paul Ricoeur, principalmente, e Gérard Genette e Roland Barthes em segundo plano, juntamente com Todorov. Embora nossa cronologia de trabalho seja ultra contemporânea, atualíssima, o debate dos conceitos remonta a antiguidade clássica, a Idade Média e os tempos modernos marcados pelo surgimento da prensa de Gutenberg, quando se inicia o processo que Benjamin vai chamar de morte da experiência, ou morte do narrador.

Então, emparelhando grandes autores em suas grandes obras, como McLuhan e Benjamin, conseguimos uma visão de conjunto sobre o que pode ser a nova era eletrônica justamente a partir do estudo da transposição do mÅ·thos em Paul Ricoeur através de conceitos como ponto de vista e tempo na composição das narrativas.

Traçamos um caminho conceitual a partir de algumas definições de Roland Barthes, Gerard Genette, Todorov e Paul Ricoeur, privilegiando a questão dos traçados do ponto de vista em suas relações temporais e nas triangulações narrativas entre autor, personagem e leitor (no mundo tipográfico). Assim foi possível compor ou contextualizar conceitos do narrador tipográfico confrontando-os com a nova realidade que escapa ao comportamento gutenberguiano ao adentrar na nova realidade midiatizada, a Galáxia de Zuckerberg. Preparando ou engatilhando uma síntese definidora para o novo ambiente digital eletrônico, a conclusão apresenta algumas hipóteses para o futuro, inclusive sob um ponto de vista conceitual acerca de uma nova ideia de narrador e de narrativa. Esse caminho está estabelecido de acordo com a síntese de duas outras obras que dão sentido e título à pesquisa: A Galáxia de Gutenberg e a formação do homem tipográfico, de Marshall McLuhan, e o famoso texto de Walter Benjamin, O narrador ”“ considerações sobre a obra de Nikolai Leskov. Esse referencial teórico concentrado na exposição de conceitos de narrador e de narrativas, formula e define as relações temporais que assinalam as diferentes características do modo de narrar e, consequentemente, do narrador.

A ideia central é a de que novas faces não mudam os velhos hábitos, e que apesar de novas mídias trazerem em seu bojo a necessidade da revisão de temas e atualizações conceituais, o cerne das questões e os hábitos são atemporais e obedecem sempre a uma mesma estrutura, independente de seu contexto ou de seu suporte tecnológico.

Dessa forma, buscando apreender, internalizar e expor alguns conceitos de narrador, de narrativas e de narratividades, queremos desenhar um panorama acerca do que vem a ser uma narrativa eletrônica on line real time, através de uma comparação entre o narrador das oralidades e das escritas tipográficas que permeiam a literatura e o jornalismo convencional.

Assim, chegamos a um conceito de narrador que tenta abraçar toda a complexidade das escritas nas redes eletrônicas. Para tanto, o Facebook foi eleito como objeto de estudo para ilustrar o raciocínio apresentado juntamente com os conceitos debatidos não apenas pela sua amplitude em termos de diversidade de uso, mas enquanto produto que também simboliza certa unanimidade em nosso contexto de pesquisa dentro de um ambiente ainda maior, o que chamamos aqui de Galáxia de Zuckerberg na esteira das obras de Marshal McLuhan.

Nosso objetivo final é uma síntese definidora de um conceito de narrador para esse novo universo eletrônico digital que já se faz presente em nível glocal sem dar sinais de recuo, exibindo-se como uma nova realidade contemporânea decidida a ser a nova face e a nova pele do cotidiano de pessoas comuns em suas vidas cotidianas. No desenho do novo conceito fazemos valer também a ideia de híbrido de Canclini, quando chegamos ao termo ”œnarrador audiente”.

Concluindo de forma poética assim como é trabalhada a questão durante todo o percurso, vamos concordar com Walter Benjamin sobre a morte do narrador, mas vamos também concordar com Marshal McLuhan ao dizermos que ele pode estar renascido em sua nova aldeia global. â–ª


Palavras-chave


narrador; galáxia; mythos; glocal; audiente.