Plataformização e inteligência artificial na educação: reflexões sobre a autonomia docente
Palavras-chave:
Plataformas; inteligência artificial; educação; autonomia docente.Resumo
O fenômeno da plataformização da web consolidou-se como um marco no desenvolvimento das Big Techs, empresas privadas que operam em escala global, abrangendo praticamente a totalidade das atividades digitalizadas dos usuários — trabalho, comunicação, lazer e, mais recentemente, a educação. Desenvolvida a partir de avanços tecnológicos que possibilitaram a integração entre diferentes arquiteturas e o aumento da conectividade, a plataformização permite que empresas do setor adotem novos modelos de negócio sustentados por lógica algorítmica opaca e pela datificação, isto é, pela apropriação de dados e pela perda de privacidade dos usuários em prol da maximização de lucros (Van Dijck; Poell; De Wall, 2018). A coleta e o tratamento dos metadados gerados pelas interações consolidaram o processo que Zuboff (2019) denominou de capitalismo de vigilância. Nesse novo modelo, “a acumulação, ordenação e organização de dados sobre os usuários está sendo utilizada pelos operadores de plataforma como forma de extrair valor deles” (Williamson, 2017, p. 5).
Ao ofertarem serviços considerados mais ágeis e eficientes para usuários e instituições, grandes empresas, por meio de produtos como Google Workspace for Education e Microsoft 365, assim como editoras e fornecedores especializados — Pearson-AIDA, Teachy e MagicSchool —, passaram a investir em soluções voltadas especificamente ao setor educacional, fortalecendo o processo em curso de digitalização da educação. Nesse contexto, aplicativos plataformizados foram disponibilizados como “soluções” integradas para professores, estudantes, gestores e pais, sob a promessa de inovação e de melhoria da qualidade educacional (Williamson; Komljenovic; Gulson, 2023). Mais recentemente, a exemplo do ocorrido em plataformas de uso generalista, tais soluções incorporaram tecnologias de inteligência artificial (IA), como agentes pedagógicos automatizados, sistemas adaptativos e personalizados e tutores inteligentes. Esses recursos incluem funcionalidades para o planejamento de aulas, a geração de atividades e conteúdos em formatos variados, a preparação de testes e outros instrumentos de avaliação da aprendizagem. Perrotta (2024), contudo, questiona se as informações que alimentam as tecnologias de IA, originadas das plataformas, constituem de fato uma representação fiel das experiências vividas na contemporaneidade, capaz de criar agentes autônomos que reflitam valores humanos e princípios democráticos. O autor alerta, ainda, para a necessidade de que tais sistemas operem apenas como complemento, e não como substitutos, das decisões humanas em favor do bem público.
A automação de processos e tarefas, somada às práticas de vigilância e à opacidade das tecnologias produzidas por empresas privadas que atuam na digitalização da educação, gera tensões relevantes, particularmente no que concerne ao papel e à autonomia docente. Como já postulava Nóvoa (1999, p. 10), “as práticas de racionalização do ensino contêm os elementos de uma deslegitimação dos professores como produtores de saber”. No contexto atual, tais tecnologias operam, em muitos casos, de forma invisível — como nos algoritmos e servidores em nuvem —, carregando consigo valores e relações de poder originadas da iniciativa privada transnacional. Esses novos algoritmos de IA podem filtrar informações, reduzindo a diversidade informacional disponibilizada aos usuários e, por vezes, destoando das diretrizes curriculares nacionais, com potencial para acentuar distorções, estereótipos e injustiças sociais.
É inegável que o uso dessas plataformas com recursos de IA no campo educacional, tanto público quanto privado, apresenta implicações significativas para o trabalho docente e para a aprendizagem dos estudantes. Este trabalho busca refletir especificamente sobre os impactos da plataformização com IA no trabalho do professor, com ênfase na autonomia docente e no caráter da educação no contexto contemporâneo.
A questão da autonomia docente remete à agência do professor em relação ao seu trabalho, em especial no que se refere à ação didática e ao ato de ensinar. Trata-se de uma problemática recorrente no campo das tecnologias digitais aplicadas à educação desde os seus primórdios, constituindo inclusive um dos fatores associados à baixa adesão inicial de docentes diante do temor de perda de autonomia frente à máquina e à opacidade de seus processos. Williamson e Eynon (2020) alertam para os riscos de que o uso sistemático de sistemas plataformizados com IA pelos professores gere perda de motivação e de pensamento crítico, comprometendo a criatividade e a autonomia desses profissionais. Segundo Williamson, Komljenovic e Gulson (2023, p. 11), “a prática educacional está sendo desviada da experiência profissional em direção a formas de trabalho relacional destinadas a permitir uma articulação suave com os sistemas sociotécnicos”, sem que reste a alternativa de trabalhar sem o uso das plataformas.
Não se trata, entretanto, de um problema inédito. Pesquisas anteriores já identificaram fenômenos similares. Winner (1986) destacou que uma das principais causas da mercantilização da educação — pela introdução de tecnologias digitais com vistas à redução de custos e salários docentes — foi a “erosão da autonomia docente”. De modo semelhante, Calderhead (2001, p. 792) revelou que “o forte direcionamento do papel do professor e a consequente redução da autonomia resultou na diminuição dos níveis de empenho e entusiasmo”.
No caso específico da IA, a falta de transparência sobre os dados de treinamento das tecnologias enseja inúmeras dúvidas para os professores: desde seu modus operandi, a acurácia e a atualidade dos conteúdos educacionais disponibilizados — em especial em língua portuguesa, para o contexto brasileiro —, até a concepção de aprendizagem implícita nas plataformas. Nessa lógica, o professor corre o risco de assumir papel descentralizado ou dependente em processos cada vez mais automatizados e padronizados.
Parte da literatura argumenta a favor da integração, sustentando que o uso estratégico de prompts pelos professores poderia representar um caminho efetivo para enfrentar o risco de perda de autonomia frente às plataformas com IA (Radtke-Bederode; Meireles-Ribeiro, 2025). Esses autores defendem que tal prática permitiria posicionar o docente de forma mais ativa diante da tecnologia, gerando instruções e resultados ajustados às necessidades e especificidades contextuais, com potencial de beneficiar um corpo estudantil diverso. Por outro lado, outros pesquisadores adotam uma postura mais crítica, enfatizando que o letramento em IA não seria suficiente. Segundo Buzato e Gonsales (2025), é necessário ampliar o conhecimento técnico sobre os sistemas de IA incorporados às plataformas, desenvolvendo uma crítica informada não apenas de seu funcionamento técnico, compreendendo e criticando a lógica algorítmica e a lógica mercadológica dessas tecnologias, mas também de seu funcionamento fenomenológico. Os autores apontam a importância de uma compreensão epistemológica — sobre o problema da “caixa-preta” e seus diferentes níveis de opacidade — e ética, criticando o poder dos desenvolvedores de IA de definir e criar instâncias ditas “éticas” dessas tecnologias. Parece estar evidente que a adoção acrítica dessas tecnologias pode aprofundar problemas de perda de autonomia docente. É necessário, portanto, fortalecer a autonomia docente por meio de formação crítica, políticas públicas de soberania digital e maior regulação da educação mediada por plataformas digitais e pela inteligência artificial. E não limitar a ação docente ao uso das tecnologias, para abrir perspectivas em que professores possam promover equidade, potencializar o desenvolvimento humano e transformar a realidade.