Dependência ou escolha? A disputa de lógicas na adoção de plataformas educacionais nas universidades
Palavras-chave:
Soberania digital, Plataformização da educação, Lógicas institucionais Lógicas institucionais, Big Techs, Autonomia universitáriaResumo
A soberania digital tem sido evocada com frequência nos debates sobre tecnologias educacionais, mas, nas práticas institucionais, ela se revela menos como um estado alcançável e mais como um campo de tensão. Este trabalho analisa as disputas de racionalidades que emergem nas falas de professores, estudantes e técnicos de tecnologia sobre a adoção de plataformas educacionais em uma universidade pública. A partir das percepções sobre o Google Sala de Aula e o Moodle, o estudo mostra que atender plenamente à soberania digital não é uma decisão simples, mas uma negociação constante entre autonomia institucional, praticidade e dependência tecnológica. Parte-se do pressuposto de que essas escolhas não são neutras, mas atravessadas por valores, restrições materiais e racionalidades concorrentes.
A fundamentação teórica articula quatro referenciais: (1) a Teoria das Lógicas Institucionais (Thornton, Ocasio & Lounsbury, 2012), que oferece base para compreender as racionalidades múltiplas em jogo nas decisões organizacionais; (2) a crítica à plataformização da educação (Williamson, 2022; van Dijck, 2020), que denuncia a privatização das infraestruturas digitais; (3) a perspectiva do capitalismo de vigilância (Zuboff, 2019) e do colonialismo de dados (Couldry & Mejias, 2019), que desvelam a transferência de valor informacional para corporações globais; e (4) a análise de conteúdo (Bardin, 2011), adotada como metodologia de codificação e interpretação das falas.
A pesquisa qualitativa envolveu entrevistas semiestruturadas com docentes, discentes e profissionais de TI do curso de computação de uma universidade pública. O corpus foi transcrito, validado e analisado no software MAXQDA - Versão 24.4.0, com múltiplas rodadas de codificação e consenso entre dois avaliadores, negociando sentidos, e decisão com base na aplicação de coeficiente Kappa (κn) de concordância inter codificadores (Kuckartz; Rädiker, 2019). Caso o coeficiente apresentasse valores baixos, iniciava um novo ciclo de análise, consenso, validação e decisão. O processo resultou em vinte e quatro argumentos identificados e posteriormente agrupados em sete lógicas de adoção: Facilidade de Uso, Didático-Pedagógica, Segurança e Privacidade, Investimento, Cultura Institucional, Serviços e Suporte e Soberania e Posse de Dados.
A análise integral das entrevistas mostra que a soberania digital emerge como tema periférico e fragmentado. Apenas três trechos mencionam explicitamente o termo, de forma ambivalente, ao reconhecer os riscos da dependência tecnológica, ao mesmo tempo em que admitem a superioridade funcional das plataformas das Big Techs. O Aluno 1 (A1) expressa esse impasse ao afirmar: “Talvez utilizar uma plataforma empresarial que não é nossa não fosse a melhor solução […], mas essa praticidade que o Google oferece é difícil a gente chegar lá. A gente fica nesse impasse.” O aluno reconhece a importância da soberania e da posse de dados — dimensões ligadas à lógica política —, mas também admite os limites técnicos e financeiros que dificultam alternativas autônomas. A racionalidade política e a racionalidade técnica aparecem entrelaçadas, reconhecendo o risco de subordinação, enquanto alega a inviabilidade de resistir à eficiência das soluções corporativas.
Entendendo que apenas a organização em códigos e lógicas não seria suficiente para explicitar a polarização quanto à adoção de plataformas, viu-se a necessidade de além desta determinação estrutural dos argumentos e lógicas, aplicar-se um novo processo de análise, realizando, em relação a todos os segmentos textuais codificados o questionamento: esse segmento textual se posiciona a favor ou contra a adoção de plataformas de Big Techs?
Assim foi possível identificar um panorama onde há certa homogeneidade quantitativa entre códigos pró e contra as plataformas de Big Tech, mas ao olharmos para os detalhes, as características que diferenciam as argumentações começam a se estruturar de formas distintas. Os argumentos positivos, apresentam um perfil de segmentos textuais principalmente relacionados aos códigos relacionados a Lógica da Qualidade (do Produto e do Serviço). Enquanto os argumentos negativos, percebe-se um perfil de códigos atribuídos, muito mais variado e equilibrado entre a predominância das Lógica da Qualidade (do Produto e do Serviço) e da Lógica do Aspecto Político, destacando que de acordo com a polarização dos argumentos, o entendimento dos riscos e consideração da racionalidade técnica.
Esse paradoxo se repete em outras categorias. Na Lógica da Gratuidade, as falas revelam a consciência de que “nada é de graça”: “Ela [a empresa] não vai disponibilizar um ambiente simplesmente porque tem bom coração. […] Provavelmente lá no meio dos termos de uso está escrito que você está dando direito à empresa de obter alguns dados seus.” (A3) A gratuidade, nesse contexto, deixa de ser um benefício e torna-se símbolo de dependência. O mesmo argumento que legitima a adesão (“é gratuito”) sustenta também a crítica (“o custo são os dados”). De forma semelhante, na Lógica da Adequação à Legislação, os entrevistados mencionam os riscos de exposição de informações sensíveis e o desconhecimento sobre os termos de uso, reconhecendo que a prática institucional frequentemente ultrapassa os limites previstos pela Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD). A legalidade aparece como fronteira elástica, interpretada de modo pragmático frente às exigências de continuidade das atividades acadêmicas.
Já a Lógica da Usabilidade é dominante nas falas positivas. Durante a pandemia, a migração em massa para o Google Sala de Aula foi atribuída à sua simplicidade e estabilidade: “Durante a pandemia, muitos professores passaram a usar o Google Sala de Aula, pois ele é mais simples e tem muitos tutoriais disponíveis na internet.” (S2) As menções à integração entre contas institucionais e ferramentas corporativas consolidam o discurso da praticidade, transformando a dependência técnica em condição naturalizada de funcionamento. A usabilidade, nesse caso, não é apenas uma qualidade do sistema, mas uma racionalidade hegemônica que redefine os critérios de escolha. Em contraste, o Moodle é descrito como mais completo, porém “pesado”, “difícil” e “dependente de suporte constante”.
Apesar do aparente equilíbrio quantitativo entre os argumentos favoráveis e os contrários à adoção das Big Techs, a análise qualitativa revela uma assimetria de força discursiva: os discursos pró-Google estão ancorados em experiências concretas — rapidez, integração, estabilidade —, enquanto os discursos críticos operam com categorias abstratas — soberania, ética, privacidade —, que raramente encontram correspondência no cotidiano operacional das universidades. E quando se baseiam em exemplos concretos — Autonomia docente, Identidade visual, investimento, integração entre sistemas, inovação tecnológica e Transparência no uso de dados —, esses ficam relacionados a contextos mais técnicos e restritos, e menos populares, levando a um afastamento da polarização dos discursos.
Um exemplo disto pode ser visto na fala do profissional de Suporte de TI 1 (S1) “A identidade visual é importante porque ajuda a criar uma experiência de usuário coesa e profissional. Quando os alunos e professores acessam o AVA, é importante que a plataforma tenha uma aparência consistente com a identidade da Instituição. Isso inclui o uso de logotipos, cores e design que reflitam a marca da instituição. Uma identidade visual bem definida também pode aumentar o engajamento e a confiança dos usuários na plataforma.” que apesar de muito alinhada com a legislação nacional vigente, sobre plataformas educacionais e a promoção de identidade institucional nestas, como apresentado pelo art. 26 do Decreto nº 12.456, de 19 de maio de 2025 (Brasil, 2025). E que se aproxima mais de características de soluções de software livre, que são mais abertas para personalizações e adequações, mas, esse entendimento demanda um conhecimento um pouco mais aprofundado sobre estrutura e soberania nacional, e que uma análise rasa pode não levar a uma associação correta com um posicionamento contrário às plataformas de Big Techs.
Essa diferença ajuda a explicar por que a soberania digital, embora valorizada, dificilmente se converte em política efetiva de adoção tecnológica. O Professor 4 (P4) associa sua escolha pelo Moodle a um compromisso ético e ideológico: “Eu uso o Moodle por uma questão mais ideológica […]. É uma ferramenta aberta, então eu apoio a causa do software livre.” A fala desloca o debate do plano técnico para o simbólico, em que a defesa do software livre expressa a resistência a um processo percebido como colonizador. No entanto, o argumento ético-político convive com as limitações práticas de infraestrutura e capacitação, evidenciando que a adesão ao software livre não garante, por si só, soberania institucional, se as condições materiais permanecerem desiguais.
Essas racionalidades não se anulam, mas se tensionam de modo permanente. O avanço das Big Techs não se explica apenas por fatores econômicos, mas também por afinidades culturais com valores institucionais que tornam suas soluções mais aceitáveis. Já a defesa da soberania exige outra forma de sensibilidade institucional: reconhecer que a dependência técnica é também dependência política, e que autonomia não se traduz em isolamento, mas em capacidade de governança.
Outro trecho de (A1) ilustra essa complexidade: “A gente tem que discutir dentro da universidade […], tentar chegar a uma solução favorável para ambas as partes, que não precise talvez se utilizar de serviços particulares.” Essa fala sugere uma racionalidade reflexiva que ultrapassa a dicotomia “Google versus Moodle”. Nela, a soberania aparece como processo de negociação, não como posição de recusa. O desafio não é substituir uma plataforma por outra, mas compreender o custo político de cada escolha tecnológica. A soberania digital, nesse sentido, não é o oposto da praticidade, mas o esforço de manter o controle sobre as condições sob as quais a praticidade se torna possível.
Ao revelar a coexistência dessas racionalidades, evidenciamos que a plataformização é um fenômeno institucional e simbólico, no qual valores técnicos, pedagógicos e políticos se entrelaçam. O dilema entre autonomia e funcionalidade obriga a universidade a repensar, continuamente, o que significa ser soberana em um ecossistema digital cada vez mais interdependente. A busca pela soberania digital não é apenas um projeto tecnológico, mas um exercício de reinterpretação institucional, no qual a racionalidade política da autonomia precisa disputar espaço com outras racionalidades. Essa disputa, longe de ser resolvida, é o que permite a reflexão sobre o papel das universidades na era da plataformização onde diversas lógicas se entrelaçam e se tensionam.